Pela primeira vez, a American Academy of Sleep Medicine estabelece recomendações para rastrear e manejar a apneia obstrutiva do sono em adultos hospitalizados por causas clínicas, um cenário que até então não contava com uma orientação formal específica.
Introdução
A apneia obstrutiva do sono (AOS) costuma ser investigada e tratada no ambiente ambulatorial. O paciente apresenta ronco, sonolência diurna ou pausas respiratórias durante o sono, realiza a avaliação diagnóstica e, quando indicado, inicia o tratamento com pressão positiva nas vias aéreas.
Esse modelo, entretanto, deixa uma lacuna importante. Muitos pacientes com AOS não diagnosticada passam pelo hospital devido a outras condições clínicas sem que o distúrbio respiratório do sono seja identificado.
Para neurologistas, clínicos e geriatras, essa discussão é especialmente relevante. A AOS está associada a condições como acidente vascular cerebral (AVC), fibrilação atrial, hipertensão, insuficiência cardíaca e alterações cognitivas.
A nova diretriz da American Academy of Sleep Medicine (AASM) reconhece que a internação pode ser uma oportunidade para identificar pacientes de risco, manter tratamentos já estabelecidos e organizar o acompanhamento após a alta.
O que aconteceu?
Em 2025, a AASM publicou sua primeira diretriz de prática clínica dedicada à avaliação e ao manejo da apneia obstrutiva do sono em adultos internados por causas clínicas.
O artigo foi disponibilizado antecipadamente em agosto de 2025 e publicado na edição de dezembro do Journal of Clinical Sleep Medicine. O documento apresenta uma orientação de boa prática e quatro recomendações condicionais sobre rastreamento hospitalar, tratamento com pressão positiva nas vias aéreas (PAP), consulta em medicina do sono e planejamento da alta.
O tema ganhou novo espaço em junho de 2026 durante o SLEEP 2026, reunião anual da AASM e da Sleep Research Society, realizada em Baltimore. O evento incluiu discussões sobre a aplicação prática da diretriz e o rastreamento da AOS em pacientes hospitalizados.
Entendendo o contexto
As diretrizes anteriores da AASM sobre diagnóstico e tratamento da apneia obstrutiva do sono foram desenvolvidas principalmente para o cenário ambulatorial. O paciente internado apresenta uma realidade diferente: doença aguda, prioridades clínicas concorrentes, recursos institucionais variáveis e um período limitado para investigação.
Ainda assim, ignorar a AOS durante a internação pode representar uma oportunidade perdida.
Em uma análise observacional de internações não cirúrgicas nos Estados Unidos, a presença documentada de distúrbios respiratórios do sono esteve associada a um aumento aproximado de 17% no tempo de internação e de 67% nos custos hospitalares. Esses resultados demonstram associação, mas não permitem afirmar que a AOS seja, isoladamente, a causa desses desfechos.
Além disso, estima-se que milhões de adultos convivam com apneia obstrutiva do sono sem diagnóstico. Parte desses pacientes é hospitalizada por doenças cardiovasculares, neurológicas ou metabólicas relacionadas à AOS.
A diretriz não propõe transformar a enfermaria em um laboratório do sono. Seu objetivo é incorporar o risco de AOS ao cuidado hospitalar por meio de um fluxo que conecte rastreamento, diagnóstico, tratamento e acompanhamento.
Principais achados (o que a diretriz recomenda)
A diretriz é construída sobre recomendações majoritariamente condicionais (linguagem GRADE de “sugere”, não “recomenda fortemente”), reconhecendo que evidência de alta certeza ainda é escassa neste cenário. Os eixos centrais:
- Rastreamento de AOS em pacientes de alto risco como parte de um fluxo integrado de avaliação e manejo durante a internação.
- Para adultos com AOS recém-diagnosticada, ou com AOS moderada a grave prévia não tratada, a diretriz sugere, de forma condicional, iniciar CPAP no hospital em vez de não tratar.
- Consulta com medicina do sono para pacientes com risco aumentado ou AOS estabelecida.
- Plano de alta estruturado, com o objetivo explícito de minimizar a perda de seguimento.
- Pacientes já em tratamento devem manter a terapia durante a internação, salvo contraindicação.
Traduzindo em significado clínico: a diretriz não transforma a enfermaria em laboratório de sono, mas legitima uma postura ativa! Identificar quem está em risco, não interromper terapia eficaz e garantir que o paciente não “evapore” do sistema após a alta.
O que muda na prática clínica?
Para o neurologista brasileiro, três situações ganham respaldo formal.
- O paciente internado com AVC ou outra doença cerebrovascular pode apresentar risco elevado de apneia obstrutiva do sono. Ronco habitual, apneias testemunhadas, sonolência e alterações respiratórias noturnas podem justificar o rastreamento, desde que exista um fluxo para investigação e acompanhamento.
- O paciente que já utiliza CPAP não deve ter o tratamento suspenso apenas por ter sido internado por outra causa. A conduta geral é manter a terapia, salvo contraindicação clínica ou necessidade de adaptação pela equipe assistente.
- O plano de alta passa a ter papel central. O relatório deve registrar o risco ou diagnóstico de AOS, as condutas adotadas durante a internação e o acompanhamento indicado.
O efeito prático mais imediato talvez seja institucional: criar protocolos de rastreamento e fluxos de consulta dentro do hospital.
Limitações
A própria diretriz é transparente quanto à baixa certeza da evidência, daí o predomínio de recomendações condicionais. Faltam ensaios randomizados robustos demonstrando que rastrear e tratar AOS durante a internação melhora desfechos duros (mortalidade, readmissão) de forma independente. Há ainda heterogeneidade de recursos entre instituições, reconhecida no próprio texto. E o escopo é deliberadamente restrito: adultos clínicos (não cirúrgicos) — o paciente perioperatório segue em outra moldura.
O que ainda não sabemos?
Não sabemos se a iniciação de PAP no hospital, isoladamente, altera trajetória de doença cardiovascular ou neurológica; se o rastreamento universal em alto risco é custo-efetivo em sistemas como o SUS; nem qual o melhor instrumento de triagem à beira do leito. Também permanece em aberto como integrar isso à realidade brasileira, onde o acesso ambulatorial à medicina do sono já é limitado.
Perspectivas futuras
A publicação da diretriz faz parte de um movimento mais amplo de integração da medicina do sono ao cuidado agudo.
Além das recomendações para pacientes hospitalizados, a AASM também atualizou orientações relacionadas à apneia central do sono e ao tratamento com pressão positiva nas vias aéreas.
A tendência é que a avaliação dos distúrbios respiratórios do sono deixe de ficar restrita ao consultório e passe a integrar protocolos hospitalares, especialmente em áreas como neurologia, cardiologia, pneumologia, geriatria e terapia intensiva.
Análise do Colunista
Peso real: a diretriz representa uma mudança incremental, mas estruturante. Não apresenta uma intervenção capaz de modificar imediatamente toda a prática hospitalar, mas institucionaliza condutas que já eram adotadas de maneira pouco padronizada.
Disruptiva ou incremental? Incremental no conteúdo e relevante no simbolismo. É a primeira diretriz da AASM dedicada à AOS em adultos hospitalizados por causas clínicas, ampliando o campo de atuação da medicina do sono.
Muda a prática já? Em parte. Como as recomendações são condicionais e baseadas em evidências de baixa ou muito baixa certeza, a adoção dependerá principalmente da criação de protocolos institucionais.
Incorporação no Brasil: o maior obstáculo é estrutural, especialmente diante da dificuldade de acesso a exames e especialistas. As medidas mais facilmente incorporáveis são manter a PAP de quem já está em tratamento, registrar o risco de AOS e estruturar o encaminhamento após a alta.
Perguntas frequentes (FAQ)
A diretriz recomenda rastrear AOS em todos os pacientes internados?
Não. A recomendação é direcionada a adultos com risco aumentado de apneia obstrutiva do sono. O rastreamento deve fazer parte de um fluxo que permita avaliação diagnóstica e tratamento.
O CPAP deve ser suspenso durante a internação?
Em regra, não. Pacientes com distúrbio respiratório do sono já diagnosticado e em tratamento devem manter a terapia, salvo contraindicação clínica.
A terapia com PAP pode ser iniciada ainda no hospital?
Sim. A AASM sugere considerar PAP para pacientes com AOS recém-diagnosticada ou AOS moderada a grave previamente conhecida e não tratada. A recomendação é condicional e baseada em evidência de baixa certeza.
O rastreamento confirma o diagnóstico de AOS?
Não. Questionários e oximetria podem indicar risco aumentado, mas a confirmação diagnóstica deve ser realizada após a estabilização clínica, durante a internação ou depois da alta.
A força das recomendações é alta?
Não. Todas as recomendações são condicionais. As relacionadas ao rastreamento e à PAP têm evidência de baixa certeza, enquanto consulta em medicina do sono e planejamento da alta apresentam evidência de certeza muito baixa.
Referências
- MEHRA, R.; AUCKLEY, D. H.; JOHNSON, K. G. et al. Evaluation and management of obstructive sleep apnea in adults hospitalized for medical care: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, v. 21, n. 12, p. 2193–2203, 2025. DOI: 10.5664/jcsm.11864.
- AUCKLEY, D. H. et al. Evaluation and management of obstructive sleep apnea in adults hospitalized for medical care: systematic review. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2025. DOI: 10.5664/jcsm.11866.
- SHARMA, S.; CICCONE, I. Applying the New Evidence-Based Guidelines to Screen for Sleep Apnea in Hospitalized Patients. NeurologyLive, 16 jun. 2026. Disponível em: NeurologyLive. Acesso em: 12 ago. 2026.
- SHARMA, S. Breathing Easy in the Hospital: Applying the New Evidence-Based Guideline. Apresentação realizada no SLEEP 2026 Annual Meeting, Baltimore, 14–17 jun. 2026.
- MEDCENTRAL. New Guidelines Tackle Management of Sleep Apnea Syndromes. MedCentral, 12 fev. 2026. Disponível em: MedCentral. Acesso em: 12 ago. 2026.