O deslocamento patelar é uma condição ortopédica frequente, especialmente em indivíduos jovens e ativos, caracterizada pela perda temporária do alinhamento da patela em relação ao sulco troclear.
Esse evento pode ocorrer de forma traumática ou em decorrência de fatores predisponentes, como alterações anatômicas, frouxidão ligamentar ou desequilíbrios musculares.
O diagnóstico clínico adequado é essencial para diferenciar o deslocamento de outras afecções do joelho e orientar a escolha do tratamento, que pode variar desde medidas conservadoras até intervenções cirúrgicas, dependendo da gravidade do quadro e da recorrência dos episódios.
Anatomia da patela
A patela é um osso sesamoide localizado no tendão do quadríceps, articulando-se posteriormente com o sulco troclear do fêmur e funcionando como alavanca para aumentar a eficiência do quadríceps na extensão do joelho.
O tendão do quadríceps continua como tendão patelar, inserindo-se no tubérculo tibial. Além disso, os retináculos patelares medial e lateral, originados dos músculos vasto medial e vasto lateral, envolvem a patela e conectam-se à cápsula articular em ambos os lados.
Durante a extensão do joelho, a força exercida pelos músculos extensores tende a deslocar a patela lateralmente, efeito que se intensifica na flexão. Para contrabalançar essa tendência, o ligamento patelofemoral medial e o vasto medial oblíquo atuam como estabilizadores primários, mantendo a patela alinhada no sulco troclear. Dessa forma, alterações ou deficiências nessas estruturas aumentam o risco de luxação patelar.

Definições e classificação do deslocamento patelar
O deslocamento patelar integra um espectro de instabilidade que vai desde subluxações ocasionais até luxações completas, geralmente acompanhadas de deformidade visível e limitação na extensão do joelho.
Nesse contexto, classifica-se o deslocamento patelar em:
- Luxações agudas, que costumam ocorrer em decorrência de um trauma, seja por uma torção do joelho sem contato direto ou por um impacto aplicado à face medial da articulação.
- Subluxações recorrentes, mais frequentes em indivíduos com frouxidão ligamentar generalizada, frequentemente associada a síndromes do tecido conjuntivo.
- Luxações habituais, caracterizadas por deslocamentos repetitivos e indolores durante a flexão do joelho, comumente ligadas a desequilíbrios musculares, como hiperatividade do vasto lateral e da banda iliotibial.
- Luxações congênitas, observadas sobretudo em pacientes com síndrome de Down, decorrentes de anomalias estruturais (patela pequena e côndilo hipoplásico), habitualmente exigindo intervenção cirúrgica.
Mecanismos de lesão no deslocamento patelar
A luxação lateral da patela é a mais frequente devido à tendência natural de deslocamento lateral durante a contração do quadríceps. Esse tipo geralmente envolve ruptura do ligamento patelofemoral medial e do retináculo medial, ocorrendo frequentemente com o pé fixo no solo e aplicação de força rotatória interna ao joelho flexionado em valgo, como durante giros, mudanças rápidas de direção ou traumas diretos no joelho medial.
Por outro lado, a luxação superior é incomum, e associa-se a hiperextensão do joelho ou trauma com a perna estendida, sendo mais observada em idosos com osteófitos no sulco troclear proximal.
A luxação medial também é rara e costuma ocorrer como complicação pós-operatória de liberação lateral do retináculo, embora traumas laterais possam provocá-la ocasionalmente.
Por fim, as luxações intra-articulares também são pouco frequentes, normalmente resultantes de avulsão da inserção do quadríceps, e exigem avaliação ortopédica imediata. Entre essas, destaca-se:
- Luxação intra-articular inferior, que surge por trauma na porção proximal da patela com o joelho flexionado, deslocando horizontalmente a patela.
- Luxação superior intra-articular, que ocorre em idosos com artrite após trauma no polo inferior da patela durante flexão do joelho.
- Luxação vertical é a forma mais rara, causada por impacto medial que faz a patela girar e se prender entre os epicôndilos femorais.
Epidemiologia do deslocamento patelar
O deslocamento patelar representa cerca de 2 a 3% de todas as lesões no joelho, afetando principalmente indivíduos jovens e fisicamente ativos. Adolescentes, especialmente do sexo feminino, apresentam maior predisposição.
Ademais, luxações agudas ocorrem de forma semelhante em homens e mulheres, sendo mais frequentes na segunda e terceira décadas de vida.
Quadro clínico do deslocamento patelar
O deslocamento patelar geralmente manifesta-se com dor e deformidade no joelho após torção sem contato ou trauma direto na face anterior ou medial.
Em episódios agudos, os pacientes podem relatar sensação de cedência, estalo e inchaço, enquanto em casos crônicos a dor tende a ser anterior ou anteromedial, associada a travamento, estalos e piora durante flexão ou ajoelhamento.
No exame físico, podem ser observados derrame articular, hemartrose e sensibilidade nos polos da patela, principalmente no medial. Além disso, podem ser observadas alterações de alinhamento, como:
- Patela alta.
- Joelho valgo ou varo.
- Anteversão femoral.
- Torção tibial.
- Joelho recurvado.
- Pé plano.
- Frouxidão ligamentar.
Ademais, avaliam-se também a mobilidade da patela, crepitação, restrição de movimento e integridade dos ligamentos colaterais e cruzados.
Por fim, sinais específicos incluem o sinal J positivo, indicando desvio lateral excessivo da patela, e o teste de apreensão, positivo quando há apreensão ou defesa ao empurrar a patela lateralmente com o joelho levemente flexionado.
Diagnóstico do deslocamento patelar
O diagnóstico do deslocamento patelar é geralmente evidente na avaliação clínica
Nesse contexto, radiografias pré-redução não são obrigatórias, exceto quando o diagnóstico é incerto, já que fraturas podem ocorrer em uma minoria dos casos, mas não alteram a conduta inicial. Dessa forma, imagens devem ser obtidas após a redução ou quando a redução não for bem-sucedida, especialmente para identificar fraturas osteocondrais ou fragmentos intra-articulares associados.
Opções terapêuticas para o deslocamento patelar
O manejo do deslocamento patelar inicia-se com a redução imediata da luxação aguda, geralmente realizada no pronto-socorro, podendo envolver sedação. A manobra de redução consiste em aplicar pressão medial sobre o polo lateral da patela enquanto o joelho é lentamente estendido, podendo ser feita com o paciente sentado e as pernas penduradas.
Após a redução, o tratamento inicial para luxações pela primeira vez sem fraturas ou corpos livres é conservador, incluindo:
- Analgesia.
- Aplicação de gelo.
- Anti-inflamatórios.
- Fisioterapia focada no fortalecimento do quadríceps e do vasto medial oblíquo.
- Exercícios de core e propriocepção.
- Uso temporário de órteses ou mangas estabilizadoras.
A cirurgia, por sua vez, é indicada em casos de fraturas osteocondrais, ruptura do ligamento patelofemoral medial, falha do tratamento conservador, anatomia predisponente à luxação ou luxações recorrentes.
Nesse contexto, o tratamento cirúrgico do deslocamento patelar visa reduzir a recorrência das luxações e corrigir fatores anatômicos predisponentes. Entre as opções cirúrgicas estão:
- Artroscopia, com ou sem desbridamento aberto, para remoção de fragmentos soltos.
- Reparo ou reconstrução do ligamento patelofemoral medial.
- Liberação lateral (realinhamento distal).
- Osteotomia (realinhamento distal).
- Trocleoplastia.
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Referências
- Hayat Z, El Bitar Y, Case JL. Luxação da patela. [Atualizado em 4 de julho de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Ilha do Tesouro (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538288/.
- Loudon JK. Biomechanics and pathomechanics of the patellofemoral joint. Int J Sports Phys Ther. 2016.
- Moore BR, Bothner, J. Recognition and initial management of patellar dislocations. UpToDate, 2025.