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Classificação e avaliação das cicatrizes

Abdômen com cicatriz vertical enquanto a pessoa forma um coração com as mãos, representando cuidado e tratamento de cicatrizes.

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Cicatrizes normais (eutróficas) são planas e da mesma cor da pele adjacente. Cicatrizes patológicas incluem hipertróficas (elevadas, mas restritas aos limites da lesão original), queloides (que ultrapassam esses limites) e atróficas (deprimidas).

A distinção entre hipertrófica e queloide é essencial para escolher o tratamento, pois queloides têm maior taxa de recorrência.

Como avaliar a gravidade de uma cicatriz?

Dois instrumentos são amplamente usados na prática clínica e pesquisa:

EscalaComponentesMelhor uso
Vancouver Scar Scale (VSS)Vascularização, altura, pigmentação, maleabilidadeCicatrizes hipertróficas e de queimaduras
Patient and Observer Scar Assessment Scale (POSAS)Vascularização, espessura, relevo, maleabilidade, superfície + avaliação do paciente (dor, prurido, cor, rigidez)Avaliações completas que incluem sintomas do paciente

A POSAS é preferida atualmente por incorporar a perspectiva do paciente, especialmente útil para avaliar prurido e dor em queloides e cicatrizes de queimaduras.

Princípios do manejo de cicatrizes

O tratamento segue abordagem escalonada. As opções variam conforme tipo, localização, tempo de evolução, cor, relevo e sintomas.

Na imagem abaixo observa-se uma cicatriz queloide:

Fonte: UpToDate, 2026.

Já na imagem seguinte, observa-se uma cicatriz hipertrófica:

Fonte: UpToDate, 2026.

Portanto, o tratamento precoce (dentro dos primeiros meses) tem melhor resposta, especialmente com silicone e terapias compressivas. Cicatrizes maduras (mais de 12 a 18 meses) são menos responsivas a medidas não invasivas.

Todo plano terapêutico deve considerar:

  • Controle de tração mecânica e infecção local
  • Predisposição genética individual
  • Proteção solar (evita hiperpigmentação)
  • Hidratação contínua da cicatriz

Cicatrizes hipertróficas e queloides: quais são as opções de tratamento?

Silicone como primeira linha

Gel ou placa de silicone é a primeira opção para profilaxia e tratamento de cicatrizes hipertróficas e queloides. Age por oclusão, hidratação e modulação da atividade dos fibroblastos. Recomenda-se uso de pelo menos 12 horas por dia, durante 3 a 6 meses.

Dessa forma, a pressoterapia (roupas compressivas) é indicada para cicatrizes de queimaduras grandes e áreas de alta tensão.

Injeções intralesionais

Corticosteroides intralesionais continuam sendo o padrão-ouro para queloides e cicatrizes hipertróficas. A triancinolona é usada em concentrações de 10 a 40 mg/mL, com possibilidade de combinação com 5-fluorouracil (5-FU) na mesma sessão, especialmente para queloides refratários ou muito elevados.

Técnica recomendada:

  1. Usar agulha fina (30G)
  2. Injetar de forma intralesional rigorosa
  3. Evitar atrofia do tecido adjacente
  4. Intervalos de 4 a 6 semanas entre sessões
  5. Dose total por sessão não superior a 40 mg de triancinolona

A toxina botulínica tipo A reduz tensão local e prurido, embora a evidência ainda seja limitada.

Laser e dispositivos para cicatrizes elevadas

TipoIndicaçãoMecanismo de ação
Laser de corante pulsado (PDL)Eritema, telangiectasias, pruridoFototermólise seletiva de vasos
CO2 fracionado ablativoRelevo irregular, textura, rigidezAblação controlada e remodelação colágena
Er:YAG fracionadoCicatrizes atróficas superficiaisAblação mais superficial que CO2

Para queloides, associar laser com injeção intralesional de corticosteroide ou 5-FU é superior à monoterapia. O CO2 fracionado pode combinar-se com drug delivery de corticosteroide tópico para potencializar a penetração.

Cicatrizes atróficas: como tratar?

Microagulhamento para cicatrizes de acne

Utiliza rolos ou dispositivos elétricos com microagulhas que perfuram a derme, induzindo neocolagênese. É indicado para cicatrizes atróficas de acne (rolling e boxcar superficiais). Pode associar-se a drug delivery de vitamina C, ácido retinóico ou fatores de crescimento.

Protocolo recomendado:

  1. Necessárias 3 a 6 sessões
  2. Intervalo de 4 a 6 semanas entre sessões
  3. Agulhas de 1,5 a 2,0 mm mais eficazes para cicatrizes profundas
  4. Associação com fármacos tópicos potencializa resultados

Laser CO2 fracionado como padrão-ouro

O laser CO2 fracionado é o padrão-ouro para cicatrices atróficas de acne moderadas a graves. Promove ablação controlada de colunas da epiderme e derme, com remodelação colágena progressiva. Tempo de eritema e descamação de 5 a 7 dias.

Resultados gradativos com melhora de 30 a 60% após 1 a 3 sessões. Assim, a combinação com subcisão melhora resultado em cicatrizes rolling.

Preenchimento para defeitos profundos

Ácido hialurônico é indicado para cicatrizes atróficas profundas e rolling, preenchendo o defeito dérmico. O efeito é imediato, mas temporário (6 a 12 meses). Pode combinar-se com microagulhamento ou laser para sinergia.

Assim, preenchimentos semipermanentes com poli-L-ácido lático têm sido usados para estímulo prolongado de colágeno em cicatrizes atróficas extensas.

Cicatrizes cirúrgicas e de queimaduras: qual é o manejo ideal?

Prevenção desde a técnica cirúrgica

O manejo começa antes da incisão:

  • Técnica cirúrgica atraumática
  • Suturas em planos múltiplos
  • Fechamento sem tensão
  • Curativo oclusivo imediato

Após a cirurgia, use silicone gel assim que a epiderme estiver reepitelizada (cerca de 2 a 4 semanas).

Fases do tratamento de queimaduras

O tratamento de cicatrizes de queimaduras requer equipe multidisciplinar e segue fases distintas:

Fase aguda (0 a 3 semanas)

  • Controle de infecção
  • Enxertia precoce
  • Pressoterapia contínua

Proliferativa (3 a 12 semanas)

  • Silicone gel
  • Corticosteroides intralesionais para áreas elevadas
  • Laser de corante pulsado para eritema

Fase madura (acima de 12 meses)

  • Laser CO2 fracionado para textura e flexibilidade
  • Cirurgia reconstrutiva para contraturas

Integração com cirurgia reconstrutiva

Cicatrizes com limitação funcional (contraturas, brides, ectrópio) ou sem resposta a tratamentos clínicos devem ser avaliadas por cirurgião plástico.

A integração entre dermatologia e cirurgia é fundamental. Recomenda-se otimizar a cicatriz com tratamentos minimamente invasivos por 6 a 12 meses antes de indicar cirurgia. Excisão, sutura com Z-plastia, W-plastia ou retalhos podem ser necessários.

Quando encaminhar para cirurgia reconstrutiva?

Referencie para cirurgia em caso de:

  • Contraturas articulares ou periorificiais com limitação funcional
  • Cicatrizes hipertróficas ou queloides refratárias a duas ou mais linhas de tratamento clínico por no mínimo 6 meses
  • Deformidades estéticas graves que impactam qualidade de vida
  • Cicatrizes com ulceração recorrente ou suspeita de malignização (carcinoma espinocelular em cicatriz de queimadura)

Assim, a cirurgia reconstrutiva deve ser planejada em conjunto com o dermatologista, mantendo seguimento pós-operatório para prevenir recidiva.

Pontos-chave

  • Classifique a cicatriz como eutrófica, hipertrófica, queloide ou atrófica usando VSS ou POSAS para estratificar gravidade.
  • Silicone gel ou placa é primeira linha para profilaxia e tratamento de cicatrizes hipertróficas e queloides.
  • Corticosteroides intralesionais (triancinolona 10 a 40 mg/mL), combinados ou não com 5-FU, são padrão-ouro para queloides.
  • Laser de corante pulsado reduz eritema e prurido; CO2 fracionado melhora relevo e textura.
  • Microagulhamento e preenchimento são eficazes para cicatrizes atróficas de acne, com sinergia quando associados.
  • Cicatrizes de queimaduras requerem pressoterapia precoce, equipe multidisciplinar e seguimento por fases.
  • Referencie para cirurgia reconstrutiva quando houver limitação funcional ou falha terapêutica após 6 a 12 meses.
  • Proteção solar e hidratação devem ser mantidas por mínimo 6 meses após qualquer intervenção.

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Referências bibliográficas

  • MONSTREY, Stan; MIDDELKOOP, Esther; VERCO, Justin; et al. Updated scar management practical guidelines: non-invasive and invasive measures. Dermatologic Surgery, 2014.
  • OLIVEIRA, Glaura; FERREIRA, Lívia; PIRES, Camila; et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento de queloides e cicatrizes hipertróficas. Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2021.

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