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Dermatilomania: quando o hábito de cutucar a pele vira transtorno

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A dermatilomania, também conhecida como transtorno de escoriação da pele, é uma condição psiquiátrica caracterizada pelo ato compulsivo e repetitivo de cutucar, arranhar ou manipular a própria pele, resultando em lesões, cicatrizes e, em casos mais graves, infecções e comprometimento tecidual.

Longe de ser apenas um “hábito nervoso”, o distúrbio é reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como parte do grupo dos transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados, refletindo sua natureza impulsiva e o sofrimento emocional que provoca.

Muitas vezes negligenciada ou subnotificada, a dermatilomania afeta significativamente a autoestima, o convívio social e a qualidade de vida dos pacientes, exigindo uma abordagem terapêutica ampla que envolva psicoterapia, manejo farmacológico e cuidados dermatológicos.

O que é dermatilomania

A dermatilomania, também chamada de transtorno de escoriação da pele ou transtorno de cutucar a pele, é uma condição psiquiátrica pertencente ao espectro dos transtornos obsessivo-compulsivos (TOC). Caracteriza-se por comportamentos repetitivos e incontroláveis de manipulação ou escoriação da pele, que resultam em feridas, inflamações e cicatrizes visíveis.

Além disso, diferente de um ato ocasional, como apertar uma espinha, a dermatilomania envolve perda de controle, compulsividade e sofrimento emocional intenso.

Epidemiologia da dermatilomania

A dermatilomania pode se manifestar em diferentes fases da vida, incluindo a infância, adolescência e idade adulta, embora o início mais comum ocorra durante a adolescência, geralmente entre 13 e 15 anos de idade.

Além disso, considera-se a condição subnotificada, o que dificulta a estimativa precisa de sua prevalência na população geral. Estudos sugerem que o transtorno pode afetar tanto homens quanto mulheres, mas há uma tendência de maior ocorrência no sexo feminino, possivelmente por influência de fatores hormonais e comportamentais.

Ademais, a dermatilomania está frequentemente associada a outras condições psiquiátricas, o que reforça seu caráter multifatorial.

Entre as comorbidades mais comuns estão o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtornos de ansiedade, transtornos do humor, transtorno dismórfico corporal, transtornos de personalidade (como o borderline e o obsessivo-compulsivo), além de abuso ou dependência de álcool.

Determinadas síndromes genéticas e neuropsiquiátricas também associam-se ao transtorno, como a síndrome de Prader-Willi, síndrome de Lesch-Nyhan, síndrome de Smith-Magenis e síndrome de Tourette. Há ainda relatos de comportamentos de escoriação em indivíduos com autismo, o que sugere que a condição pode surgir em contextos de neurodesenvolvimento atípico.

Causas e fatores de risco da dermatilomania

A etiologia da dermatilomania é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e ambientais.

Sob o ponto de vista neurobiológico, há evidências de alterações nos circuitos cerebrais ligados ao controle de impulsos e à regulação da ansiedade, com disfunções nos sistemas de serotonina, dopamina e glutamato.

Entre os fatores psicológicos, destacam-se o estresse, a ansiedade, o perfeccionismo e a necessidade de aliviar tensões emocionais, o que leva o indivíduo a recorrer ao ato de cutucar a pele como uma forma de regulação emocional.

Há também uma predisposição genética, observada em pessoas com histórico familiar de TOC, tricotilomania, depressão, transtornos de ansiedade e transtorno dismórfico corporal. Além disso, como já mencionado, algumas síndromes neuropsiquiátricas estão associadas a um risco aumentado.

Em resumo, a dermatilomania resulta da interação entre vulnerabilidades biológicas e fatores emocionais, sendo frequentemente desencadeada por situações de estresse, ansiedade ou tensão psicológica.

Mecanismos e fisiopatologia da dermatilomania

Ainda não compreende-se completamente a patogênese da dermatilomania, mas evidências crescentes indicam que o transtorno envolve alterações em circuitos neurais relacionados ao controle de impulsos, à formação de hábitos e à regulação emocional.

Estudos de neuroimagem funcional (RMf) demonstram ativação anormal em áreas cerebrais associadas ao monitoramento de ações e à inibição comportamental, sugerindo uma disfunção nos mecanismos de autocontrole e resposta a estímulos emocionais.

Pesquisas também identificaram alterações estruturais na substância branca, especialmente no córtex cingulado anterior, região envolvida na tomada de decisões e no controle de impulsos, o que reforça a hipótese de uma desorganização das conexões cerebrais que regulam o comportamento compulsivo.

Além disso, a redução de volume de substância cinzenta em áreas dos lóbulos cerebelares esquerdo V e VI sugere um papel do cerebelo na integração entre funções motoras, afetivas e cognitivas, contribuindo para a repetição automática do ato de cutucar a pele.

Durante os episódios de escoriação, há também aumento da ativação em regiões como o crus I e o córtex pré-frontal ventrolateral, o que indica que o comportamento pode representar uma resposta mal-adaptativa a estímulos emocionais negativos.

Por fim, outras pesquisas mostraram maior atividade na amígdala e na ínsula, estruturas relacionadas à repulsa, ansiedade e autoaversão, demonstrando que o ato de escoriar está intimamente ligado ao sofrimento emocional.

Portanto, essas alterações apontam para uma base neurobiológica complexa, em que disfunções nos circuitos cortico-estriatais, límbicos e cerebelares levam à manifestação compulsiva e repetitiva típica da dermatilomania, consolidando-a como um transtorno neurocomportamental e não apenas um hábito psicológico.

Manifestações clínicas da dermatilomania

As manifestações clínicas da dermatilomania caracterizam-se por lesões cutâneas polimórficas, com tamanhos e graus de gravidade variados.

As lesões recentes costumam se apresentar como escoriações angulares cobertas por crostas serossanguinolentas, enquanto as mais antigas podem assumir aspecto crostoso, nodular ou cicatricial, formando cicatrizes atróficas ou hipertróficas.

A aparência clínica depende do método utilizado pelo paciente para manipular a pele, podendo envolver unhas, dedos, dentes ou objetos cortantes (como tesouras, pinças e alfinetes), o que leva a lesões mais profundas, que atingem a derme.

Além disso, as principais complicações incluem ulcerações, infecções, cicatrizes permanentes, desfiguração e, em casos graves, comprometimento médico sistêmico.

Os locais mais afetados são a face (principalmente nariz, testa, bochechas e queixo), couro cabeludo, cutículas, ombros, costas, membros e áreas genitais, geralmente de forma simétrica e dentro do alcance das mãos.

Os pacientes frequentemente reconhecem o impulso de cutucar, embora possam inicialmente relutar em admitir o comportamento autoinfligido. O ato costuma surgir a partir do desejo de manipular lesões pequenas ou imperfeições da pele, como picadas, acne, verrugas ou crostas, podendo evoluir para o ato repetitivo de cutucar áreas normais em resposta a sensações de prurido, dor ou queimação.

Os episódios tendem a durar de 6 a 10 minutos, mas podem estender-se por horas diárias, sendo mais frequentes à noite (entre 20h e 0h). Situações como olhar no espelho, assistir TV, ler, falar ao telefone ou deitar frequentemente associam-se ao comportamento.

Em geral, os indivíduos relatam que o ato de cutucar alivia a ansiedade, o estresse ou a tensão emocional. O comportamento também pode estar associado ao desejo de melhorar a aparência da pele ou simplesmente a um hábito prazeroso e automático.

Diagnóstico da dermatilomania

O diagnóstico da dermatilomania baseia-se em uma avaliação clínica detalhada, que inclui entrevista psiquiátrica e exame físico completo.

Durante a entrevista clínica, é fundamental investigar o histórico médico, psiquiátrico e comportamental do paciente, com ênfase na frequência, duração e intensidade do ato de cutucar a pele, bem como nos fatores emocionais ou situacionais desencadeantes.

O tempo adequado de escuta permite compreender o nível de sofrimento e prejuízo funcional causado pelo transtorno, além de identificar transtornos mentais associados, como ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ou dismorfia corporal.

O exame físico deve abranger uma avaliação dermatológica minuciosa, observando a gravidade das lesões e a presença de cicatrizes ou infecções secundárias. Além disso, é importante investigar doenças cutâneas concomitantes que possam explicar o prurido crônico, como dermatite atópica, psoríase, escabiose ou prurigo nodular.

Quando houver suspeita de causa médica subjacente, é necessário realizar exames complementares para descartar disfunções orgânicas, deficiências nutricionais ou doenças malignas.

Por fim, os critérios diagnósticos do DSM-5 definem o transtorno por meio de cinco elementos principais:

  1. Comportamento recorrente de cutucar a pele, resultando em lesões visíveis.
  2. Tentativas repetidas de reduzir ou interromper o comportamento.
  3. O ato causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional (social, ocupacional ou emocional).
  4. O comportamento não é explicado por efeitos de substâncias (como drogas) nem por condições médicas (como sarna).
  5. A escoriação não é melhor justificada por outro transtorno mental, como psicose, dismorfia corporal, movimentos estereotipados ou automutilação não suicida.

Tratamento da dermatilomania

O tratamento da dermatilomania deve ser multidisciplinar, envolvendo o acompanhamento conjunto entre dermatologista e psiquiatra. Idealmente, esses profissionais devem ter experiência em condições que envolvem tanto aspectos psiquiátricos quanto dermatológicos.

O encaminhamento psiquiátrico é fortemente recomendado, embora nem todos os pacientes aceitem essa abordagem. O objetivo é identificar e manejar fatores emocionais subjacentes, bem como reduzir o comportamento repetitivo de lesionar a pele.

Entre as terapias não farmacológicas, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a terapia de reversão de hábitos (TRH) são consideradas primeiras escolhas. Essas intervenções ajudam o paciente a reconhecer gatilhos emocionais, controlar impulsos e substituir o ato de cutucar por respostas comportamentais mais adaptativas.

Nos casos mais graves ou refratários à terapia comportamental, podem ser introduzidas intervenções farmacológicas.

Os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), como a fluoxetina (iniciando com 20 mg/dia e ajustando conforme tolerância e resposta), são os mais utilizados, especialmente quando o transtorno interfere nas atividades cotidianas. Quando o paciente apresenta características delirantes ou psicóticas, indica-se antipsicóticos atípicos, como olanzapina ou risperidona, embora sua eficácia seja baseada principalmente em relatos de caso.

Ademais, o tratamento dermatológico das lesões cutâneas é essencial para prevenir complicações, como infecções, ulcerações e cicatrizes. Utiliza-se também antibióticos tópicos ou sistêmicos, conforme a gravidade, além de curativos semioclusivos para proteger a pele e favorecer a cicatrização. Corticosteroides tópicos potentes, injeções intralesionais ou fototerapia com UVB de banda estreita podem ser úteis nos casos com prurido intenso.

Assim, o manejo da dermatilomania deve ser integrado, individualizado e progressivo, buscando não apenas controlar as lesões físicas, mas também tratar os fatores emocionais e comportamentais que sustentam o transtorno.

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Referências

  • Malayala SV, Rehman H, Vasireddy D. Dermatillomania: A Case Report and Literature Review. Cureus. 2021 Jan 27;13(1):e12932. doi: 10.7759/cureus.12932. PMID: 33654612; PMCID: PMC7910222.
  • Park KK, Koo J. Skin picking (excoriation) disorder and related disorders. UpToDate, 2025.

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