O ceratoacantoma (CA) é um tumor cutâneo benigno de crescimento rápido, frequentemente confundido com o carcinoma espinocelular (CEC) devido à semelhança clínica e histopatológica.
Caracteriza-se por um nódulo arredondado, firme, com cratera central preenchida por queratina, geralmente com 1 a 2 cm de diâmetro.
Etiologia e fatores de risco do ceratoacantoma
O ceratoacantoma é um tumor cutâneo benigno de crescimento rápido, cuja etiologia é multifatorial.
Fatores ambientais, como a exposição à radiação ultravioleta (UV), e o uso de inibidores de BRAF têm sido implicados no seu desenvolvimento.
Além disso, condições de imunossupressão, seja por uso de medicamentos ou por doenças subjacentes, aumentam o risco de aparecimento do CA.
Ademais, a infecção por papilomavírus humano (HPV) também é considerada um fator de risco potencial. Traumas ou cirurgias recentes na área afetada também podem atuar como gatilhos para o desenvolvimento do tumor.
Por fim, do ponto de vista genético, mutações nos genes p53 ou H-Ras têm sido associadas à formação de CA. O ceratoacantoma também está frequentemente associado a síndromes genéticas, incluindo a síndrome de Muir-Torre, a síndrome de Ferguson-Smith, o xeroderma pigmentoso, a incontinência pigmentar e a doença de Witten-Zak. Uma forma rara e generalizada do CA é conhecida como ceratoacantoma eruptivo generalizado de Grzybowski.
Epidemiologia do ceratoacantoma
A incidência do ceratoacantoma aumenta com a idade e, embora possa ocorrer em qualquer faixa etária, é raro antes dos 20 anos.
O pico de incidência dos ceratoacantomas solitários ocorre entre 50 e 69 anos, com uma predominância em homens, numa proporção de 2:1 entre homens e mulheres. Além disso, a maioria dos casos é observada em indivíduos de pele clara.
Ademais, o ceratoacantoma é mais frequente em pessoas imunossuprimidas, apresentando maior potencial de invasão local nessas condições.
Características clínicas do ceratoacantoma
O ceratoacantoma é frequentemente observado em áreas expostas ao sol, como rosto, pescoço, mãos e braços.
Caracteriza-se por uma lesão arredondada, firme, com bordas bem definidas e um centro crateriforme preenchido por queratina. Embora a maioria dos casos seja solitária, também existem variantes menos comuns, como o ceratoacantoma gigante, subungueal, da mucosa e o ceratoacantoma centrifugo marginado.
Clinicamente, o ceratoacantoma solitário inicia-se como uma pápula rosa que evolui para um nódulo com tampão queratinoso central.

O crescimento ocorre em três fases: proliferação, maturação e involução:
- A fase de proliferação caracteriza-se por crescimento rápido;
- A fase da maturação envolve a estabilização do tamanho da lesão.
- Por fim, na fase de involução, ocorre regressão espontânea, geralmente deixando uma cicatriz atrófica.
Além disso, o ceratoacantoma cresce até 1 a 2 cm e o tempo total de evolução varia de quatro a nove meses, mas em alguns casos, pode persistir por mais de um ano.
Variantes clínicas
As variantes clínicas incluem:
- Ceratoacantoma gigante, que pode atingir até 15 cm e ocorre com mais frequência no nariz e pálpebras;
- Ceratoacantoma subungueal, que se desenvolve nos leitos ungueais e pode apresentar dor e inchaço;
- Ceratoacantoma da mucosa, que raramente afeta superfícies mucosas como a boca ou genitais;
- Ceratoacantoma centrifugo marginado, que apresenta crescimento periférico progressivo acompanhado de involução central.
Além disso, o ceratoacantoma pode ocorrer em contextos de múltiplas lesões, como na síndrome de Muir-Torre, que é uma forma da síndrome de Lynch associada a tumores sebáceos cutâneos e malignidades viscerais.
Diagnóstico do ceratoacantoma
O diagnóstico de ceratoacantoma é por vezes difícil, já que muitas características clínicas se sobrepõem às do carcinoma espinocelular. Por isso, nas lesões suspeitas, costuma-se realizar biópsia para confirmação histológica.
Alguns clínicos optam por observar lesões com aparência típica de CA desde sua fase proliferativa até sua eventual regressão espontânea, mas esse processo é longo e mantém incerteza até o momento da regressão. Além disso, há o risco de que uma lesão que manifesta-se como CA seja, na verdade, um CEC mais agressivo e que merecia tratamento precoce.
Avaliação clínica
Na avaliação clínica, é essencial colher um relato claro da evolução temporal da lesão, pois um crescimento rápido em poucas semanas favorece a hipótese de CA.
Também é importante investigar antecedentes de lesões semelhantes, presença de tumores sebáceos ou histórico de neoplasias viscerais, pois podem sugerir associação com síndromes.
Além disso, um exame de pele completo é fundamental. Por exemplo, a descoberta de múltiplas lesões suspeitas pode indicar variantes sindrômicas, como a síndrome de Muir‑Torre.
A dermatoscopia, por sua vez, pode auxiliar na distinção de lesões cutâneas, embora não seja confiável para diferenciar CA de CEC com segurança. Entre os achados dermatoscópicos que podem estar presentes no CA estão:
- Círculos brancos;
- Manchas brilhantes;
- Vasos em forma de laço ou grampo com halo esbranquiçado periférico.

Biópsia
Para a investigação histológica, a biópsia excisional que atinge até a camada de gordura subcutânea é o método preferido e pode incluir uma margem de aproximadamente 4 mm quando possível, servindo também como tratamento em alguns casos.
Além disso, a raspagem profunda (“saucerização”) é uma alternativa que remove toda a lesão até a gordura, mas deve ser feita apenas por profissionais experientes, pois amostras inadequadas podem comprometer o diagnóstico.
Por outro lado, as biópsias por punch não são recomendadas, pois não preservam de forma adequada a arquitetura da lesão.
Análise histopatológica
Na análise histopatológica, não há um único achado que confirme com certeza o diagnóstico de CA. Portanto, cabe à combinação entre os aspectos clínicos e microscópicos sustentar essa hipótese.
Entre os achados mais comuns associam‑se:
- Hiperplasia epidérmica com queratinócitos grandes e eosinofílicos;
- Invaginação central com núcleo ceratótico;
- “Lipping” ou reforço da epiderme;
- Delimitação bem definida entre a lesão e o estroma ao redor;
- Infiltrado inflamatório misto na derme.
Tipicamente, os queratinócitos não revelam atipia marcante, e as mitoses não são um traço predominante, embora possam surgir em regiões mais profundas.
Diagnóstico diferencial do ceratoacantoma
O ceratoacantoma apresenta um leque amplo de possíveis diagnósticos diferenciais, pois muitos tumores cutâneos nodulares ou crescimentos dérmicos podem mimetizá-lo. A
Dentre todas as neoplasias, o carcinoma espinocelular cutâneo é a que oferece o maior desafio diagnóstico comparado ao CA, principalmente por suas semelhanças clínicas e morfológicas.
Além disso, outras lesões merecem consideração quando se investiga uma única lesão suspeita de ceratoacantoma:
- Carcinoma basocelular nodular;
- Carcinoma de células de Merkel;
- Nódulo de prurigo;
- Molusco contagioso gigante;
- Infecções fúngicas profundas (como esporotricose);
- Sarcoma de Kaposi nodular.
Quando a lesão está próxima ou sob a unha (subungueal), o diagnóstico diferencial expande-se para incluir carcinoma espinocelular periungueal, verrugas virais, tumores subungueais associados à incontinência pigmentar ou paroníquia.
Por fim, em casos com múltiplas lesões sugestivas de CA, é necessário contemplar síndromes cutâneas e distúrbios que cursam com lesões disseminadas, como prurigo nodular ou dermatoses perfurantes.
Conduta clínica no ceratoacantoma
Embora o ceratoacantoma seja considerado benigno, recomenda‑se tratamento em razão de sua potencial relação com o carcinoma espinocelular.
A intervenção preferida é a excisão cirúrgica da lesão com margens de aproximadamente 4 mm.
Todavia, lesões menores que 2 cm localizadas nas extremidades podem ser manejadas por eletrodissecação com curetagem. Já tumores maiores ou mais agressivos, especialmente em regiões de importância estética, exigem técnicas com preservação de tecido e devem considerar o uso da cirurgia micrográfica de Mohs. Nos casos em que há invasão perineural, a cirurgia micrográfica de Mohs representa a opção terapêutica de escolha.
Em circunstâncias em que a cirurgia não seja viável, há relatos de uso de terapias tópicas e intralesionais, como:
- Creme tópico imiquimode 5 %,
- 5‑fluorouracil (5-FU) tópico 5%;
- Metotrexato intralesional;
- Bleomicina intralesional.
Entre os tratamentos intralesionais, o 5‑FU e o metotrexato são os que contam com os dados mais consistentes.
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Referências
- Brewer, JB. Keratoacanthoma: Epidemiology, risk factors, and diagnosis. UpToDate, 2025.
- Brewer, JB. Keratoacanthoma: Management and prognosis. UpToDate, 2025.
- Zito PM, Scharf R. Ceratoacantoma. [Atualizado em 8 de agosto de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Ilha do Tesouro (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK499931/