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Uso racional de antimicrobianos na UTI

Antimicrobianos na UTI

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Antimicrobianos na UTI:  leia agora o texto feito pelo Dr. Pedro Della Libera, médico intensivista pelo HCFMUSP e coordenador da Pós Graduação de Medicina Intensiva da Sanar.

De acordo com alguns levantamentos (UTIs Brasileiras – AMIB) Sepse e choque séptico estão entre os principais motivos de internação em UTI. Estima-se que quadros infecciosos são responsáveis por aproximadamente um terço dos pacientes internados em UTI no Brasil. Porém, outros levantamentos sugerem que aproximadamente 70% dos pacientes na terapia intensiva (dados globais) recebem algum tipo de antimicrobiano (ATB) em determinado momento da internação.

Surpreendentemente, alguns autores sugerem que até 60% das indicações de ATB em UTI estão inadequadas. Esse fato é algo que deve nos incomodar e provocar uma importante reflexão, uma vez que o uso indiscriminado de antimicrobianos é o principal fator associado à emergência de microrganismos multirresistentes (MDRs), o que representa um dos principais desafios à medicina no século XXI, segundo a Organização Mundial da Saúde.

A seguir, faremos um breve apanhado de quatro pontos fundamentais no uso de ATB na UTI: quando começar, como escolher, como otimizar e quando suspender ou descalonar.

Quando começar o uso de antimicrobianos na UTI?

Uma estratégia importante é sempre ponderar dois pontos importantes, no momento da suspeita de infecção:

  1. Probabilidade de infecção: é o quanto eu acredito, baseado em fatores objetivos, na presença de um processo infeccioso. Depende da presença ou não de foco infeccioso claro, e culturas de sítios positivas ou não.

Nos pacientes com infecção confirmada ou sepse com foco infeccioso claro, não há dúvida: a antibioticoterapia deve ser instituída imediatamente.

  • Risco da infecção: representa o risco que meu paciente corre caso não seja introduzido o ATB imediatamente. Pacientes com suspeita de infecção e em choque são de alto risco, enquanto aqueles com disfunção orgânica sem choque seriam de risco intermediário e, sem disfunção, baixo risco.

Pacientes com choque séptico (sepse e presença de hipotensão) constituem emergência e devem receber ATB empírico imediatamente, idealmente em até 1h do reconhecimento.

Probabilidade x risco

Em relação à abordagem probabilidade x risco, vamos a algumas recomendações práticas:

  • Caso suspeitemos de sepse e sem infecção documentada, é interessante iniciar imediatamente uma investigação agressiva e curta antes do início de ATB empírica, com a pesquisa ativa de diagnósticos diferenciais (ex: broncoaspiração, SIRS, TEP, resposta ao trauma ou cirurgia, doenças oncológicas, alterações ao POCUS…) e coletadas culturas dos focos prováveis.
  • Em situações nas quais há suspeita de infecção ainda não confirmada (probabilidade baixa ou apenas possível), mas sem presença de choque séptico ou piora de disfunções orgânicas, recomenda-se coletar culturas e tentar direcionar o tratamento, antes do início de ATB empírico. Tal prática parece estar associado a maiores taxas de sucesso na escolha do ATB, sem comprometer a segurança dos pacientes. A Surviving Sepsis Campaign (SSC) 2021 recomenda que essa avaliação de diagnósticos diferenciais seja feita, idealmente, em até 3 horas.
  • É importante ressaltar também que a própria SSC não recomenda a dosagem de procalcitonina ou PCR para definir início de ATB na sepse.

Como escolher?

Em primeiro lugar, devemos lembrar que o uso indiscriminado de ATB de amplo espectro (ex: meropenem ou piperacilina-tazobactam “apenas devido à gravidade do paciente”) não é amparado por literatura e tão pouco reduz as chances de um desfecho desfavorável. Alguns estudos sugerem que medo e outros fatores psicológicos estão associados a escolha de início e espectro antimicrobiano, mesmo na ausência de fatores objetivos ou recomendações do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) local. Portanto, devemos sempre pensar: a escolha do ATB é baseada em critérios objetivos ou não?

Além disso, em relação ao uso de ATB de amplo espectro para gram negativos, a SSC não recomenda que estes devem iniciados apenas com base apenas em gravidade ou hospitalizações recentes. Assim, deve-se avaliar fatores de risco para presença de risco para bactérias multirresistentes e características da microbiota local.

A tabela 1 apresenta algumas sugestões de fatores de risco para infecção por MDR e situações em que pode-se considerar sua cobertura empírica. Vale lembrar que devemos, sempre que possível, consultar a SCIH local para individualizar a cobertura de ATB empírica, ao invés de usar sempre os mesmos ATB para cobertura empírica de infecções sem agente etiológico definido.

Fatores de risco para infecção por microrganismos multirresistentes (MDR)
Histórico de transplante de medula óssea ou imunossupressão grave
Neutropenia febril
Colonização por MDR conhecida
Internação prolongada em unidade com presença conhecida de MDR
Exposição prévia a ATB em pacientes hospitalizados

Tabela 1 – Adaptado de Timsit e cols. Intensive Care Med – 2019

Como otimizar o uso de antimicrobianos na UTI?

Para aumentar as chances de sucesso e diminuir efeitos colaterais, deve-se conhecer alguns conceitos básicos relacionados à farmacocinética e farmacodinâmica, também chamados de “PK/PD”.

De forma didática, podemos dividir os ATB em tempo-dependentes e concentração-dependentes (figura 1).

  1. Tempo-dependentes: atividade depende do tempo das concentrações plasmáticas mantidos acima da concentração inibitória mínima (MIC) da bactéria tratada (T>MIC).
    • Concentração-dependente: atividade se correlaciona com pico de concentração obtido. Medido pela Cmax/MIC
    • Comportamento misto: concentração e tempo determinam a atividade da droga. Atividade medida pela área sob a curva em 24h dividida pela concentração inibitória mínima (AUC0-24/MIC)

Recomendações práticas

Algumas recomendações práticas para a melhor otimização do uso de ATB:

  • É importante corrigir dose de ATB para função renal. Porém, nas infecções graves, a maioria dos autores recomenda que essa correção com base na função renal seja feita apenas após 24-48 horas do início do ATB com a “dose inteira”.
  • Algumas classes de ATB devem ter sua primeira dose (de ataque) aumentada (Ex: glicopeptídeos, beta-lactâmicos e aminoglicosídeos)
  • Os aminoglicosídeos têm seu efeito dependente da concentração máxima (pico) e toxicidade dependente da concentração mínima (vale). Portanto, deve ser feita dose única diária e sua dosagem (amicacina – único aminoglicosídeo com dosagem sérica disponível no Brasil) deve ser feita no pico (1 a 2 horas após a infusão) com alvo terapêutico de 8-10 vezes o valor do MIC da bactéria isolada, nos casos de infecções graves. Caso deseje monitorar possíveis efeitos tóxicos, devemos dosar a amicacinemia no vale (imediatamente antes da próxima dose programada).
  • Em relação à vancomicina, sua ação é dependente da área sob a curva, acima do MIC. Portanto, sua dosagem deve ser feita no vale, após o período de 4 meia vidas da dose inicial.

Uma vez que cada meia vida é de 6 horas em indivíduos com função renal preservada, a dosagem deve ser feita em torno de 24 horas da primeira administração, 1 hora antes da próxima dose (dosagem no “vale”). Sua correção pode ser feita de acordo com tabelas padronizadas ou com auxílio de calculadoras (ex: vancopk.com).

  • A tabela 2 resume as principais sugestões de ajuste de dose de ATB, assim como os mecanismos de farmacodinâmica.
Tabela 2 – ajuste de doses de antimicrobianos mecanismo de farmacodinâmica. Adaptado de Timsit e cols. Intensive Care Med – 2019
Figura 1 – Modelo representativo dos principais mecanismos de PK/PD

Quando suspender, escalonar ou descalonar antimicrobianos na UTI?

Quando confirma-se a infecção através cultura (confirmação microbiológica), devemos descalonar (ou ajustar) conforme o resultado. Dessa forma, é importante lembrar que a interpretação do exame microbiológico sempre deve considerar o valor preditivo positivo. Exemplo: culturas positivas de secreção traqueal ou de urina não devem definir, por si só, o diagnóstico de infecção, caso os outros critérios clínicos definidores de infecção não estejam presentes.

Em casos nos quais a infecção é provável, porém sem confirmação microbiológica:

  1. Sugere-se manter a antibioticoterapia por um ciclo curto de terapia (5 – 7 dias).
    1. Conforme dito, não recomendase o escalonamento de antimicrobianos apenas por piora clínica. Deve-se considerar a escolha do ATB com base em fatores de risco e no perfil microbiológico local (consultar SCIH). Sempre deve-se buscar ativamente causas infecciosas e não-infecciosas que expliquem a deterioração clínica, assim como complicações infecciosas que demandem controle de foco e que não irão melhorar apenas com o uso de ATB (infecções que demandem drenagem ou cirurgia).

Assim, caso a suspeita inicial de infecção seja baixa, o paciente não progride com disfunções orgânicas, culturas negativas e um diagnóstico alternativo indefinido, sugere-se interromper o uso de ATB com um ciclo curto (3 – 5 dias).

Suspeita inicial de infecção baixa e o uso de antimicrobianos na UTI

Já nos casos em que a suspeita inicial de infecção era baixa (possível), porém optou-se por iniciar tratamento antimicrobiano devido a choque ou disfunção orgânica nova, mas um diagnóstico alternativo é definido após investigação adicional (ex: embolia pulmonar, choque hemorrágico ou condições inflamatórias não relacionadas a infecção), deve-se suspender imediatamente o ATB.

Em relação à duração do ATB, esta depende do microrganismo identificado, do tecido acometido, do controle do foco infeccioso e do quadro clínico (estabilidade clínica).

De forma geral, não há benefício do uso de ATB por mais de 7 dias, exceto em algumas situações específicas, entre elas:

  • Endocardite infecciosa
  • Infecção fúngica
  • Abscesso pulmonar / Empiema pleural
  • Infecção de corrente sanguínea por Staphylococcus. Aureus
  • Outras condições nas quais não assegurou-se controle do foco infeccioso.

Além disso, estudos mais recentes sugerem também que nos pacientes com pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), pneumonia comunitária, infecção intra-abdominal de foco controlado e até bacteremia (excessão: s. aureus) o uso mais curto de ATB (até 7 dias) parece ser seguro.

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Autoria

  • Dr Pedro Della Libera. Formado em medicina pela FCMSCSP. O médico tem residência em Medicina Intensiva no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP). Ele é coordenador da UTI Adulto do Hospital das Clínicas da USP de Bauru – SP e coordenador da pós-graduação em Terapia Intensiva da Sanar.

Referências bibliográficas

  • Guia Prático de Medicina Intensiva. Libera e cols. Editora Sanar, 1ª ed. 2024
  • Medicina Intensiva: Revisão Rápida. Besen e cols. Editora Manole, 2ª ed. 2023.
  • Kalil, A.C., Timsit, JF. Less is more: critically ill status is not a carte blanche for unlimited antibiotic use. Intensive Care Med 46, 2075–2078 (2020)
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