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Uso prolongado de antidepressivos: há riscos para o desenvolvimento de comorbidades?

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Antidepressivos são drogas farmacológicas fundamentais no manejo de transtornos psiquiátricos, como depressão, transtornos de ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). A depressão, em particular, é uma condição prevalente e debilitante que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, sendo uma das principais causas de incapacidade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Devido à cronicidade e à natureza recorrente da depressão, muitos pacientes fazem uso prolongado de antidepressivos, por meses ou até anos.

No entanto, o uso prolongado dessas medicações levanta preocupações sobre possíveis efeitos adversos a longo prazo, incluindo o desenvolvimento de comorbidades. Os antidepressivos reduzem os sintomas e previnem recaídas de forma eficaz, mas é essencial avaliar os riscos associados ao uso prolongado, como o desenvolvimento de complicações metabólicas, cardiovasculares, neurológicas e endócrinas. Estudos, como o extenso estudo do UK Biobank, lançaram luz sobre essa associação entre antidepressivos e comorbidades.

Classificação do antidepressivos

Os antidepressivos estão classificados em várias categorias, com base em seu mecanismo de ação sobre neurotransmissores específicos. As principais classes incluem:

1. Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS)

Os ISRS são os antidepressivos mais prescritos devido ao seu perfil de segurança favorável e menor taxa de efeitos colaterais graves. Esses medicamentos aumentam a disponibilidade de serotonina nas sinapses neuronais, inibindo sua recaptação. 

A serotonina é um neurotransmissor envolvido na regulação do humor, sono e apetite. Exemplos dessa classe incluem fluoxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e paroxetina. Os ISRS geralmente causam poucos efeitos adversos, mas podem provocar disfunção sexual, ganho de peso e, em casos de uso excessivo, síndrome serotoninérgica.

2. Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN)

Os IRSN, como venlafaxina e duloxetina, atuam inibindo a recaptação tanto de serotonina quanto de noradrenalina. Essa dupla ação pode ser mais eficaz em pacientes com depressão grave ou aqueles que não responderam aos ISRS. A noradrenalina é crucial para a regulação do humor e da resposta ao estresse, e sua ação adicional pode ajudar em sintomas como fadiga e falta de energia. No entanto, os IRSN têm um perfil de efeitos colaterais que inclui aumento da pressão arterial e, em alguns casos, disfunção sexual.

3. Antidepressivos Tricíclicos (ADT)

Os ADTs, como amitriptilina e nortriptilina, foram uma das primeiras classes de antidepressivos desenvolvidas. Eles bloqueiam a recaptação de serotonina e noradrenalina, mas também interagem com receptores histaminérgicos, colinérgicos e adrenérgicos, o que leva a uma gama mais ampla de efeitos adversos, como sedação, ganho de peso, hipotensão e efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação, visão turva). Os ADTs continuam a ser eficazes no tratamento de depressão resistente, mas os profissionais de saúde os utilizam com cautela devido ao risco de cardiotoxicidade, especialmente em casos de overdose.

4. Inibidores da Monoamina Oxidase (IMAO)

Os IMAO, como tranilcipromina e fenelzina, inibem a enzima monoamina oxidase, responsável pela degradação de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina. Assim, limita-se o uso dos Inibidores da Monoamina Oxidase (IMAO) devido ao risco de interações medicamentosas e alimentares graves, apesar de sua eficácia em alguns tipos de depressão atípica. Pacientes que usam IMAO devem evitar alimentos ricos em tiramina para prevenir crises hipertensivas.

5. Antidepressivos atípicos

Antidepressivos como bupropiona e mirtazapina pertencem à classe dos atípicos. A bupropiona, frequentemente prescrita para pacientes com disfunção sexual associada aos ISRS ou com sintomas de letargia e fadiga, inibe a recaptação de dopamina e noradrenalina. Entretanto, já a mirtazapina é recomendada pelo seu efeito sedativo para pacientes com insônia associada à depressão.

Quando utilizar os antidepressivos?

A escolha do antidepressivo ideal depende de diversos fatores, incluindo o perfil de sintomas do paciente, comorbidades existentes, tolerância aos efeitos colaterais e resposta a tratamentos anteriores.

  • ISRS: Primeira linha de tratamento para depressão leve a moderada, transtornos de ansiedade e TOC. Por exemplo, a fluoxetina é amplamente usada devido à sua longa meia-vida e eficácia comprovada. No entanto, efeitos adversos como ganho de peso e disfunção sexual podem limitar o uso a longo prazo.
  • IRSN: Utilizados para pacientes que não responderam adequadamente aos ISRS, ou para aqueles com depressão acompanhada de sintomas de dor crônica. A duloxetina, por exemplo, é eficaz tanto no tratamento de transtornos depressivos quanto de dores neuropáticas.
  • ADT: Indicados para depressão resistente e pacientes com necessidade de melhora de múltiplos sintomas (dor crônica, insônia). Entretanto, o risco de efeitos colaterais graves, como arritmias e ganho de peso significativo, limita seu uso a longo prazo.
  • IMAO: Reservados para casos de depressão resistente, os IMAO requerem monitoramento cuidadoso devido às interações medicamentosas e alimentares.
  • Atípicos: A bupropiona é prescrita para pacientes com sintomas de letargia e ganho de peso, e a mirtazapina para aqueles com insônia e perda de apetite. Assim, esses medicamentos são úteis para evitar efeitos adversos comuns das outras classes, como disfunção sexual.

Antidepressivos x comorbidades

O uso prolongado de antidepressivos tem levantado questões sobre o risco para o desenvolvimento de comorbidades e estudos recentes lançam luz sobre os mecanismos potencialmente envolvido.

Publicado em 2022, o estudo mais relevante na área, utilizou os dados do UK Biobank, um banco de dados de saúde com informações de mais de 500.000 participantes do Reino Unido.

Estudo UK Biobank: O que é? 

Considerado uma coorte de base populacional, o estudo do UK Biobank, selecionou pacientes em uso de antidepressivos, como os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina e outros, e investigaram a associação do uso prolongado dessas medicações e o risco de desenvolver comorbidades, como doenças cardiovasculares, metabólicas e neurológicas. Por exemplo, diabetes, hipertensão arterial e doenças cerebrovasculares. Para além do diagnóstico de comorbidades, efeitos adversos como ganho de peso também foram relacionados.

Metodologia 

O banco de dados UK Biobank possui diversas informações cadastradas de milhares de pacientes, como situação socioeconômica, demografia, histórico médico, além de risco comportamental e antropométrico.

Foram selecionados entre os anos de 2006 a 2010, 222.221 participantes com idade entre 40 a 69 anos. Assim, para compor o estudo, os critérios de exclusão foram pacientes com prescrição prévia de antidepressivos, uso de antipsicóticos, lítio ou uso de drogas cardiometabólicas.

Além disso, pacientes em uso de mais de um antidepressivo ou que possuiam diagnóstico prévio semelhantes ao desfecho do estudo, foram excluídos.  

Resultados

Os resultados mostraram que os pacientes que utilizaram antidepressivos por mais de dois anos apresentaram maior risco de desenvolver diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemias e comprometimento cognitivo.

Desta forma, encontrou-se uma forte associação entre o uso de antidepressivos tricíclicos e o aumento do risco de doenças cardiovasculares, incluindo hipertensão e arritmias, enquanto os ISRS demonstraram uma ligação mais forte com o ganho de peso e o desenvolvimento de diabetes tipo 2.

O estudo também destacou que o uso prolongado de ISRS estava correlacionado a um aumento significativo no índice de massa corporal (IMC), sendo esse um dos fatores de risco para o desenvolvimento de doenças metabólicas.

Além disso, o estudo mostrou que o uso crônico de antidepressivos, particularmente os ISRS, pode estar associado a um aumento no risco de demência e declínio cognitivo em indivíduos mais velhos. Isso sugere que o impacto do uso a longo prazo de antidepressivos vai além dos efeitos colaterais agudos, podendo contribuir para o surgimento de problemas neurológicos ao longo dos anos.

Implicações clínicas do uso prolongado dos antidepressivos

Os achados do estudo do UK Biobank trazem à tona a necessidade de uma avaliação cuidadosa dos benefícios e riscos no uso prolongado de antidepressivos, especialmente em pacientes que apresentam fatores de risco preexistentes, como obesidade, hipertensão ou história familiar de doenças metabólicas. Para esses pacientes, o acompanhamento rigoroso com exames de rotina pode ser essencial para a detecção precoce de possíveis complicações, como o desenvolvimento de diabetes tipo 2 ou hipertensão.

Por outro lado, para pacientes que apresentam sintomas depressivos severos e recorrentes, o uso prolongado de antidepressivos pode ser inevitável. Neste contexto, deve-se personalizar a escolha do antidepressivo com base no perfil de comorbidades do paciente, e prescrever antidepressivos com menor risco de ganho de peso ou disfunção metabólica para minimizar complicações a longo prazo.

Veja também:

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Sugestão de leitura complementar

Referências bibliográficas

  • Gafoor, R., Booth, H. P., & Gulliford, M. C. Antidepressant utilisation and incidence of weight gain during 10 years’ follow-up: population-based cohort study. BMJ, 361, k1951. 2018.
  • Bansal N, et al. Antidepressant use and risk of adverse outcomes: population-based cohort study. BJPsych Open. 2022 Sep 13;8(5):e164. DOI: 10.1192/bjo.2022.563.
  • UpToDate. Transtorno depressivo maior em adultos: tratamento inicial com antidepressivos. 2024

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