A hipercalemia, é a condição clínica comum caracterizada por níveis elevados de potássio sérico superior a 5,0 mEq/L, frequentemente associada a excreção inadequada de potássio pela urina, devido a doença renal aguda ou crônica. Assim, o tratamento da hipercalemia, visa a indução da perda de potássio, reduzindo seus níveis sanguíneos e estabilização do paciente.
Além disso, o potássio um eletrólito crucial para a função celular, para o equilíbrio ácido-base e na função neuromuscular. Os níveis elevados de potássio no sangue podem afetar diretamente a função cardíaca, levando a arritmias potencialmente fatais e comprometendo a função muscular e nervosa.
Fisiologia do potássio
O potássio é o principal cátions intracelular, essencial para a manutenção do potencial de membrana celular e a função dos músculos e nervos. Normalmente, a concentração intracelular de potássio é de aproximadamente 140 mEq/L em comparação com 4 a 5 mEq/L no líquido extracelular.
Assim, a bomba Na-K-ATPase na membrana celular, que bombeia sódio e potássio para dentro da célula na proporção de 3:2, mantém o equilíbrio dos cátions. A excreção renal é o principal mecanismo pelo qual o corpo elimina o excesso de potássio, e qualquer disfunção nesse processo pode levar à hipercalemia
Causas comuns de hipercalemia
Diversas condições cursam com hipercalemia, sendo as principais:
- Insuficiência Renal: A insuficiência renal, seja aguda ou crônica, é a condição mais associada a hipercalemia e que compromete a capacidade dos rins de excretar potássio, resultando em sua acumulação no sangue.
- Medicamentos: Certos medicamentos, como inibidores da ECA, antagonistas da aldosterona (espironolactona e eplerenona) e alguns diuréticos poupadores de potássio, podem reduzir a excreção de potássio pelos rins e contribuir para a hipercalemia.
- Lise Celular: Condições como a síndrome de lise tumoral, trauma muscular extensivo e rabdomiólise podem liberar grandes quantidades de potássio para o sangue, superando a capacidade de excreção do organismo.
- Distúrbios Endócrinos: A insuficiência adrenal primária (doença de Addison) e outras disfunções hormonais podem afetar o metabolismo do potássio, resultando em hipercalemia.
- Diabetes mellitus: A diabetes mellitus pode causar hipercalemia, particularmente na cetoacidose diabética, devido à acidose metabólica que desloca potássio para o espaço extracelular, aumentando seus níveis séricos. Além disso, o uso de inibidores da ECA ou antagonistas da aldosterona em pacientes diabéticos pode reduzir a excreção renal de potássio, contribuindo para a retenção e o aumento dos níveis de potássio no sangue.
Diagnóstico da hipercalemia
Diagnosticar a hipercalemia envolve medir os níveis séricos de potássio, sendo crucial garantir que a amostra de sangue não esteja hemolisada, pois a hemólise pode levar a uma leitura artificialmente alta dos níveis de potássio. Outros exames laboratoriais relevantes incluem:
Gasometria Arterial: As alterações na gasometria arterial em pacientes com hipercalemia, frequentemente incluem acidose metabólica, caracterizada por uma diminuição no bicarbonato sérico e uma redução no pH sanguíneo. A acidose metabólica pode ser um fator contribuinte para o aumento dos níveis de potássio no plasma, uma vez que a baixa concentração de bicarbonato promove a translocação do potássio para o espaço extracelular.
Além disso, a gasometria pode mostrar um aumento na concentração de ácido láctico se houver tecido hipoperfundido ou em condições de cetoacidose diabética.
Eletrocardiograma (ECG): Identifica-se diversas anormalidades relacionadas à hipercalemia no ECG:
- 1ª alteração: Onda T apiculada com intervalo QT encurtado.
- 2ª alteração: Alongamento progressivo do intervalo
- 3ª alteração: Desaparecimento da onda P
- 4ª alteração: Alargamento ainda mais do QRS até ausência completa de atividade elétrica
Além disso, alterações de condução também podem ocorrer, como bloqueios de ramo e arritmias. Por exemplo, bradicardia sinusal, parada sinusal, ritmos idioventriculares lentos, taquicardia ventricular, fibrilação ventricular, infarto do miocárdio com pseudo-supradesnivelamento do segmento ST, padrões pseudo-Brugada e assistolia.
Avaliação clínica
A avaliação clínica da hipercalemia ocorre quando não há uma emergência médica ou quando as medidas emergenciais já foram tomadas. Assim, deve incluir uma revisão completa da história médica do paciente, incluindo o uso de medicamentos, presença de doenças renais, histórico de trauma, e sintomas como fraqueza muscular, palpitações e fadiga, afim de identificar possíveis causas subjacentes que direcionam o tratamento da hipercalemia.
Tratamento da hipercalemia
O tratamento da hipercalemia tem como objetivo principal reverter o quadro e evitar repercussões graves. Assim, o manejo é instituído de acordo com o grau de gravidade da hipercalemia, determinada pela presença ou ausência dos sinais e sintomas associados, pela elevação sérica do potássio e de acordo com a causa subjacente para hipercalemia.
Hipercalemia grave
As emergências hipercalêmicas precisam de tratamento imediato e de rápida ação, caracterizado pelo uso de cálcio intravenoso, insulina e glicose. Além disso, institui-se terapias de remoção do potássio, como hemodiálise, quelantes de potássio gastrointestinais e diuréticos. Os pacientes candidatos a essas terapêuticas incluem:
- Pacientes que apresentem sinais e sintomas de hipercalemia como fraqueza ou paralisia muscular;
- Repercussões e anormalidades da condução cardíaca
- Pacientes mesmo sem sinais e sintomas clínicos, com potássio sérico superior a 6,5 mmol/L (1,5 mmol/L, especialmente se houver ruptura tecidual concomitante ou sangramento gastrointestinal.
- Pacientes com hipercalemia moderada com potássio >5.5 mmol/L apresentando comprometimento significativo da função renal e degradação tecidual acentuada e contínua
Hipercalemia moderada
Apesar de não estarem cursando com uma emergência hipercalêmica, alguns pacientes precisam ter o potássio reduzido imediatamente, dentro de 6 a 12 horas. Por exemplo:
- Pacientes em hemodiálise que se apresentam fora do horário regular da diálise
- Pacientes com função renal e/ou débito urinário limítrofe
- Pacientes hipercalêmicos que necessitem de otimização para realizar cirurgia
O manejo para esses pacientes inclui infusão isotônica de bicarbonato, dextrose intravenosa a 5% em infusão de água durante a noite (para estimular a insulina em um paciente em jejum) ou hemodiálise.
Hipercalemia leve
Os pacientes que podem passar por uma terapêutica menos urgente para hipercalemia apresentam elevações crônicas do potássio, variando de leves (≤5,5 mEq/L) ou moderadas (5,5 a 6,5 mEq/L), associada a doença renal crônica (DRC) ou ao uso de medicamentos inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). A redução do potássio sérico pode ser realizado através da modificação da dieta, uso de diuréticos se apropriado, tratamento da acidose metabólica crônica ou reversão de fatores que podem causar hipercalemia.
Principais objetivos do tratamento
Estabilização cardíaca
A estabilização imediata do coração é a primeira prioridade para evitar arritmias fatais:
Administração de Cálcio intravenoso: O cálcio intravenoso é administrado como gluconato de cálcio ou cloreto de cálcio. No entanto, muitos preferem o gluconato de cálcio devido ao seu perfil de segurança mais alto em comparação com o cloreto de cálcio, que pode irritar os tecidos no local da injeção. O cálcio antagoniza os efeitos tóxicos do potássio no coração e estabiliza as membranas celulares cardíacas, enquanto que a hipocalcemia favorece a cardiotoxicidade da hipercalemia. A administração de cálcio intravenoso reduz o risco de arritmias graves, principalmente em pacientes com alterações eletrocardiográficas.
A administração intravenosa de cálcio produz efeitos rápidos, iniciando em poucos minutos, mas dura cerca de 30 a 60 minutos. Devido a essa característica, não utiliza-se o cálcio isoladamente para tratar a hipercalemia; ele se torna mais eficaz quando combinado com outras terapias que ajudam a deslocar o potássio para dentro das células. Se a hipercalemia persistir e os níveis de cálcio no sangue não estiverem elevados, você pode repetir a administração de cálcio a cada 30 a 60 minutos.
Redução dos níveis de potássio
Depois de estabilizar o coração, o foco deve ser a redução dos níveis de potássio sérico:
- Insulina e Glicose: A administração de insulina com glicose intravenosa promove a translocação de potássio do espaço extracelular para o intracelular, reduzindo rapidamente os níveis séricos de potássio através do aumento da atividade da bomba NA-K-ATPase no músculo esquelético. Assim, a glicose é infundida junto com a insulina para evitar hipoglicemia.
- Bicarbonato de Sódio: Utilizado para corrigir a acidose metabólica, o bicarbonato também ajuda a deslocar o potássio para dentro das células. É importante monitorar cuidadosamente o uso de bicarbonato para evitar alcalose metabólica e sobrecarga de sódio.
- Diuréticos: Diuréticos de alça, como a furosemida, promovem a excreção renal de potássio. A função renal residual determina a eficácia do tratamento e monitorá-la evitar desidratação e desequilíbrios eletrolíticos.
- Hemodiálise: Para pacientes com insuficiência renal ou quando outros métodos falham, a hemodiálise é uma opção eficaz para a remoção rápida de potássio do sangue. A hemodiálise é particularmente útil em situações de hipercalemia severa ou persistente .
Prevenção da hipercalemia
A prevenção da hipercalemia se baseia em várias medidas incluídas no tratamento de pacientes com doença renal crônica, como por exemplo:
Monitoramento regular
Paciente com insuficiência renal ou que fazem uso de medicamentos que afetam a excreção de potássio, são monitorados regularmente através do Controle de níveis de potássio, através da realização de exames periódicos, devido ao maior risco de desenvolver hipercalemia.
Além disso, a avaliação da Função Renal deve ser constante para ajustar o tratamento e prevenir a hipercalemia. O acompanhamento regular da função renal permite ajustes na terapia e previne o acúmulo excessivo de potássio.
Ajustes medicamentosos
Para pacientes com DRC, revisar e ajustar a dosagem de medicamentos que influenciam o metabolismo do potássio é fundamental. Além disso, deve-se evitar se possível as medicações que aumentem a concentração sérica de potássio em pacientes com potássio sérico ≥5.5 mmol/L. Alternativas aos inibidores da ECA ou aos antagonistas da aldosterona são consideradas para prevenir a retenção de potássio.
Gestão dietética
Para pacientes com risco elevado em desenvolver hipercalemia, uma dieta com baixo teor de potássio é o ideal. Assim, evitar alimentos ricos em potássio, como bananas, laranjas, tomates e batatas, ajuda a manter os níveis de potássio sob controle
Além disso, deve-se evitar momentos prolongados de jejum. O movimento do potássio para fora das células durante o jejum se acentua pela redução da secreção de insulina.
Educação do paciente
Deve-se informar os pacientes sobre os sinais e sintomas da hipercalemia, bem como as estratégias para controle dietético e a importância da adesão ao tratamento. Assim favorecendo o engajamento do paciente nas práticas de autocuidado, para melhorar os resultados clínicos e prevenir recidivas.
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Referências bibliográficas
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- Alfonzo, A. et al. Clinical Practice Guidelines. Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. UKKA Clinical Practice Guideline. 2023.
