É de conhecimento geral de acadêmicos da área da saúde a importância da ativação da vitamina D para a absorção de cálcio pelo organismo. Mas de que forma isso acontece? E como isso pode ser relacionado aos pacientes pediátricos?
A vitamina D faz a síntese de uma proteína que é responsável pelo transporte do cálcio de dentro das células intestinais para a corrente sanguínea.
Porém, a vitamina só é capaz de realizar essa síntese após uma cascata de ativação que se dá inicialmente pela ingestão de alimentos que contenham sua forma inativa, pela exposição a raios solares e pela ação de enzimas localizadas no fígado e nos rins.
Por isso, por muitos anos a própria Sociedade Brasileira De Pediatria indicou o banho de sol em crianças, como forma de ativar esse composto.
Dentro de horários específicos, era considerado saudável o passeio de bebês em parques, condomínio, e praças para realizar o contato da pele com os raios UV.
E onde entra os malefícios descobertos disso na atualidade?
Os Departamentos Científicos de Dermatologia e de Neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgaram na última semana de Maio de 2021 o documento científico “Atualização sobre os cuidados com a pele do recém-nascido”, no qual baseado em evidencias cientificas, encontram-se as mais atualizadas recomendações acerca do banho de sol em RNs.
Neste, fica claro que tanto a Academia Americana de Pediatria quanto a Sociedade Brasileira de Pediatria, orientam evitar a exposição direta ao sol em crianças abaixo de seis meses, devendo utilizar protetores mecânicos como sombrinhas, guarda-sóis, bonés e roupas de proteção. Entre seis meses e dois anos de vida, o uso de filtros solares físicos/minerais deve ser incentivado. É aceitável o uso, nesta faixa etária, de produtos que contenham uma combinação de filtros físicos e químicos, normalmente designados como “próprios para bebês”. Os filtros infantis podem ser utilizados a partir dos 2 anos de vida.
Isto ocorre principalmente devido a necessidade de manutenção da integridade da pele, que em lactentes e RNs é mais fina e apresenta menor produção de melanina, portanto, é mais suscetível aos danos da radiação ultravioleta. A exposição excessiva ao sol na primeira infância está associada ao aumento do risco de câncer de pele no futuro.
A suplementação de vitamina D é recomendada no Brasil para todo RN a termo, desde a primeira semana de vida até os dois anos de idade.
Como a ativação da Vitamina D é feita e suplementada? Qual a sua importância?
Na pele, os raios UV transformam o 7-desidrocolesterol (o precursor da vitamina presente nos alimentos) em pré-vitamina D3, e este por sua vez sofre isomeração por calor e vira Colecalciferol (ou vitamina D3).
Bom, a partir disso, o Colecalciferol se liga à proteína transportadora (DBP) e através da corrente sanguínea atinge o fígado. Lá, sofre hidroxilação pela enzima CYP2R1 e dá origem ao Calcidiol, que percorre a corrente sanguínea (através também da DBP) e chega aos túbulos renais proximais.
Nos rins, o Calcidiol sofre ação da 1,ALFA-HIDROXILASE que realiza uma translocação, transformando-o em Calcitriol.
O Calcitriol é a forma ativa da vitamina, a qual é utilizada na absorção de cálcio.
Para realizar todo esse processo sem a necessidade de exposição solar, a suplementação de RNs ocorre através do consumo do Colecalciferol. É esse composto que é utilizado pela farmacologia para suplementação, pois não precisa de ativação solar, já que já está ativado.
A importância, como já citada, está na ação dessa vitamina.
No intestino, a sua forma ativa induz a síntese de CALBIDINA-D28K, que é uma proteína ligante de Cálcio capaz de se ligar em até 4 íons deste. Basicamente, o Ca2+ entra de maneira livre do lúmen intestinal para o interior da célula do intestino, e lá se liga a CALBIDINA-D28K, e entra na corrente sanguínea através da bomba de Ca2+ATPASE.
Nos rins, a vitamina D ativa age na absorção de Cálcio e de Fosfato. Já nos ossos, estimula junto ao Paratormônio (PTH) a ação de osteoclastos – a sua sinalização é feita através do receptor nuclear de vitamina D (VDR) -.
Conclusão
Depois de entender de forma clara a ação do Calcitriol, de suas formas precursoras, e a importância desse processo para formação óssea e principalmente para a homeostasia corporal do individuo, é possível relacionar com os fatores específicos da realidade cutânea e endócrina dos recém-nascidos. Visto que a pele é o maior órgão do corpo, responsável por várias funções, sendo a principal atuar como barreira para evitar a desidratação, a absorção de substâncias nocivas e a invasão de microrganismos. A pele do RN exerce função importante na transição do ambiente líquido em que se encontrava para condições aeróbicas extrauterinas, e amadurece gradualmente ao longo da infância.
Durante os primeiros meses de vida, os cuidados com a saúde endócrina visando a sua relação com a pele são fundamentais, a fim de manter a integridade da barreira cutânea e garantir seu desenvolvimento saudável.
Autor: Marcela Saraty
Instagram: @marcelasaraty
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Atualização sobre os Cuidados com a Pele do Recém-Nascido, Sociedade Brasileira De Pediatria. DISPONÍVEL EM: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/22978c-DocCient-Atualiz_sobre_Cuidados_Pele_do_RN.pdf
CONSTANZO, LINDA. Fisiologia. Fisiologia Endócrina. 4ªEDIÇÃO. Virginia Commonwealth University School of Medicine Richmond, Virginia. Editora ELSEVIER, 2011. Pag 379-442.