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Proibição de PMMA em preenchimentos estéticos: o que muda na prática dermatológica

Médicos em ambiente clínico, representando segurança e atuação profissional em procedimentos com PMMA.

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O Conselho Federal de Medicina proibiu o uso de polimetilmetacrilato (PMMA) em procedimentos estéticos, com exceção do tratamento de lipodistrofia facial em pacientes com HIV. A medida responde ao acúmulo de complicações graves documentadas em mais de duas décadas, incluindo necrose isquêmica, granulomas de corpo estranho, migração do produto e casos fatais por embolia vascular.

O que determina a resolução do CFM e por que foi publicada?

A resolução CFM nº 2.356/2026 proíbe médicos de utilizar PMMA como material de preenchimento facial ou corporal com finalidade estética. A decisão baseou-se em mais de duas décadas de notificações de eventos adversos registrados no sistema nacional de vigilância sanitária. O PMMA é um polímero acrílico não biodegradável, sem enzima natural para sua degradação, o que torna as complicações especialmente difíceis de tratar.

Histórico de uso e complicações documentadas

O PMMA começou a ser aplicado em preenchimentos no Brasil nos anos 1990, inicialmente para correção de lipoatrofia facial. Com a popularização, seu uso se expandiu para projeção de mento, preenchimento de sulcos nasogenianos e aumento glúteo, sem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para essas indicações. Séries de casos retrospectivos documentaram taxas de complicações entre 5% e 30%, com latência variável de meses a anos após a injeção.

Evidências científicas que embasaram a proibição

O CFM considerou relatórios da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e dados de notificações oficiais. Uma revisão sistemática publicada no Journal of the American Academy of Dermatology demonstrou que o PMMA apresenta taxa significativamente maior de granulomas comparado a preenchedores reabsorvíveis. A impossibilidade de reversão e a necessidade frequente de cirurgia reparadora foram fatores decisivos para a restrição.

Quais são os principais riscos clínicos do PMMA?

O PMMA induz resposta inflamatória crônica persistente. As complicações variam conforme timing de apresentação, volume injetado, técnica utilizada e localização anatômica do preenchimento.

Necrose isquêmica e tromboembolismo

A injeção intravascular acidental de microesferas de PMMA pode ocluir artérias terminais, especialmente na região nasal (artéria angular) e sulco nasogeniano. O paciente apresenta dor intensa imediata, palidez local, livedo reticular e progressão para necrose em 24 a 72 horas. O manejo emergencial inclui vasodilatadores tópicos e sistêmicos, oxigenoterapia hiperbárica e suporte clínico, mas a reversão da isquemia é frequentemente impossível. Casos graves evoluem para embolia vascular fatal.

Granulomas de corpo estranho de evolução tardia

Granulomas surgem como nódulos palpáveis, eritematosos e dolorosos, com latência de semanas a anos. O polímero não é fagocitado, tornando a resolução espontânea improvável. O tratamento farmacológico é limitado: corticosteroides intralesionais (triancinolona 10-40 mg/mL a cada 4-6 semanas) reduzem inflamação, mas frequentemente a remoção cirúrgica é necessária. Há relatos de granulomas persistentes além de 10 anos.

Deformidade, assimetria e migração do produto

A massa de polímero desloca-se em áreas de movimento muscular intenso, particularmente na região perioral. A migração causa assimetria facial, deformidade crônica e necessidade de cirurgia plástica reparadora. O risco de complicações cirúrgicas (cicatrizes, perda de função) é adicional.

Como orientar e manejar pacientes com PMMA previamente injetado?

Não existe tratamento específico para reverter o PMMA já implantado. O manejo limita-se ao controle sintomático de complicações e prevenção de novas injeções.

Abordagem farmacológica das complicações

Para granulomas, primeira linha é corticosteroide intralesional (triancinolona 10-40 mg/mL) a cada 4-6 semanas. Casos refratários podem se beneficiar de 5-fluorouracil (5-FU) intralesional (50 mg/mL) associado a corticosteroide. Minociclina 100 mg/dia por 3-6 meses oferece ação imunomoduladora e anti-inflamatória, com uso crescente off-label nesta indicação. Para edema inflamatório agudo, anti-histamínicos orais e anti-inflamatórios não esteroides auxiliam no controle de sintomas.

Procedimentos minimamente invasivos e cirúrgicos

A remoção cirúrgica está indicada para nódulos volumosos, ulcerações ou deformidades funcionais. A técnica varia conforme localização e extensão: incisão direta com excisão, lipoaspiração assistida ou excisão com enxerto autólogo. Laser de CO2 fracionado ou Nd:YAG pode melhorar textura e reduzir granulomas superficiais. A orientação sobre cronicidade do problema é essencial.

Quais as alternativas seguras aprovadas pela Anvisa?

A resolução proíbe apenas o PMMA. O dermatologista dispõe de múltiplas opções com perfil de segurança bem estabelecido e aprovação regulatória.

Ácido hialurônico: características e indicações

O ácido hialurônico é considerado padrão-ouro em preenchimentos por ser reabsorvível, reversível com hialuronidase quando necessário, e biocompatível. Diversas densidades e graus de cross-linking permitem uso em sulcos nasogenianos, lábios, contorno mandibular e aumento de volume facial. Durabilidade varia de 6 a 18 meses conforme o produto. Taxa de complicações graves é inferior a 1%, com eventos adversos mais comuns sendo edema local transitório e hematoma.

Alternativas de segunda linha: características comparativas

MaterialMecanismoDurabilidadeIndicações principaisDesvantagens
Hidroxiapatita de cálcioPreenchimento indireto com bioestímulo12-18 mesesProjeção de mandíbula, nariz, rugas profundasRisco de nódulos em mucosa
Ácido poli-L-lático (PLLA)Bioestimulador de colágeno18-24 mesesLipoatrofia, flacidez facialExige técnica rigorosa; nódulos se injetado incorretamente
Colágeno bovinoPreenchimento direto3-4 mesesCicatrizes, rugas finasResposta temporária, risco de hipersensibilidade

Quando o PMMA ainda é permitido?

A resolução autoriza PMMA exclusivamente para tratamento de lipodistrofia facial em pacientes com HIV. O procedimento exige rigor técnico, ambiente apropriado e termo de consentimento específico informando os riscos.

Critérios de indicação e protocolo de aplicação

A lipodistrofia facial causada por terapia antirretroviral cursa com perda de volume subcutâneo e depressões estéticas estigmatizantes. A indicação requer diagnóstico confirmado, avaliação de volume e localização das áreas afetadas. O protocolo segue diretrizes do Ministério da Saúde: injeção em microgotas no plano profundo, máximo 10 mL por sessão, intervalo mínimo de 2 meses entre aplicações. O ambiente deve ter capacidade de manejar complicações agudas como necrose e embolia. Acompanhamento periódico é obrigatório.

Implicações éticas e legais para o profissional

O descumprimento da resolução configura infração ética passível de processo no Conselho Regional de Medicina (CRM), com potencial repercussão disciplinar. A resolução tem força normativa vinculante. Pacientes podem ajuizar ações civis por danos materiais e morais decorrentes de complicações.

Procedimentos realizados antes da publicação não constituem infração, mas o médico deve orientar pacientes sobre impossibilidade de reversão e recusar novas injeções. Documentação clínica deve registrar discussão de riscos e alternativas terapêuticas. A cobertura securitária em seguros de responsabilidade civil frequentemente exclui danos de produtos não aprovados pela Anvisa. A recomendação é substituir todo arsenal de PMMA por preenchedores aprovados e manter registros detalhados de lote, volume e técnica.

Pontos-chave clínicos

  • A resolução CFM nº 2.356/2026 proíbe PMMA em preenchimentos estéticos, com exceção rigorosa para lipodistrofia facial em HIV.
  • Complicações maiores do PMMA: necrose isquêmica (24-72 horas), granulomas de corpo estranho (meses a anos) e migração com deformidade.
  • O PMMA é não biodegradável; manejo é sintomático e frequentemente cirúrgico.
  • Tratamento de granulomas: corticosteroides intralesionais primeira linha; 5-FU e minociclina como opções adjuvantes; remoção cirúrgica em casos refratários.
  • Ácido hialurônico é padrão-ouro: reabsorvível, reversível com hialuronidase, taxa de complicações graves menor que 1%.
  • Alternativas aprovadas: hidroxiapatita de cálcio (12-18 meses), ácido poli-L-lático (18-24 meses), colágeno.
  • Exceção para lipodistrofia HIV: máximo 10 mL por sessão, plano profundo, intervalo mínimo 2 meses, termo de consentimento específico obrigatório.
  • Descumprimento resulta em infração ética (CRM), responsabilidade civil e exclusão de cobertura securitária.
  • Documentação clínica deve registrar discussão de riscos, alternativas e recusa de novas injeções em pacientes com PMMA prévio.

Referências bibliográficas

  • Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.356/2026. Dispõe sobre a proibição do uso de polimetilmetacrilato (PMMA) em procedimentos estéticos. Diário Oficial da União, Brasília, 2026. Acesso em: 22 jun. 2026.
  • Sociedade Brasileira de Dermatologia. Posicionamento sobre o uso de preenchedores não reabsorvíveis. SBD Recomenda, 2025. Acesso em: 20 jun. 2026.
  • Lemperle G, Gauthier-Hazan N, Wolter TP. Complications after dermal fillers: a comprehensive review and treatment algorithm. Journal of the American Academy of Dermatology, v. 89, n. 2, p. 290–302, 2023. Acesso em: 20 jun. 202600123-4).

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