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Síndromes cerebelares na clínica médica | Colunistas

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Certamente, você precisa digitar rapidamente no celular várias vezes durante o seu dia. Essa ação corriqueira à grande maioria das pessoas ocorre graças ao sistema de controle motor realizado pelo cerebelo, cujo nome provém do latim e significa “pequeno cérebro”. Ele é responsável silenciosamente pelo ritmo e pela progressão dos nossos movimentos diários. A depender de qual divisão funcional dessa estrutura cerebral é lesada, alterações cerebelares podem acarretar as síndromes do vestíbulocerebelo, do espinocerebelo ou do cerebrocerebelo. Assim, diante de pacientes com sintomas como ausência de coordenação dos movimentos, perda do equilíbrio e diminuição do tônus muscular, é importante que você, profissional médico, saiba identificar que tais achados podem indicar anormalidades clínicas cerebelares.

Divisão funcional do cerebelo

Para melhor compreensão das síndromes cerebelares, é necessário revisar a divisão funcional dessa estrutura, que tem como base as conexões do córtex cerebral com os núcleos centrais cerebelares. Logo, as três divisões funcionais são: o vestíbulocerebelo, o espinocerebelo e o cerebrocerebelo.

O vestíbulocerebelo recebe aferências da parte vestibular sobre a posição da cabeça. Esses circuitos neurais são essenciais para a manutenção da postura e do equilíbrio. O espinocerebelo fornece os circuitos para coordenação do movimento das extremidades apendiculares, principalmente para movimentos de mãos e dedos. O cerebrocerebelo planeja, sequencia e temporiza nossos movimentos complexos.

Sinais de lesões cerebelares

Os distúrbios cerebelares podem ocorrer associados às malformações congênitas, às doenças infecciosas e às neopasias vasculares (MACHADO, 2014). A seguir, veja quais são as principais disfunções e manifestações clínicas das lesões cerebelares que você precisa reconhecer na sua prática profissional médica:

Ataxia

São movimentos sem coordenação. A marcha atáxica é vacilante e o paciente abre as pernas para aumentar sua base de equilíbrio. Esse é um dos principais sintomas de doença cerebelar.

Dismetria

É a falta do controle da amplitude do movimento, ou seja, ocorre a ausência de previsão para até onde o movimento irá. Também é conhecida como “passar do ponto”. A dismetria e a ataxia podem indicar lesões espinocerebelares.

Disdiadococinesia

É a incapacidade da realização de movimentos rápidos e alternados. Quando solicitado ao paciente que vire a mão para cima e para baixo rapidamente, ele realiza movimentos atrapalhados e desarmônicos em vez de pronar e supinar a mão.

Disartria

Caracteriza-se pela incapacidade de articular palavras corretamente. O paciente fala palavras erradas e forma frases inapropriadas, demonstrando falha na progressão ao falar. Com isso, a vocalização torna-se confusa e por vezes ininteligível.

Tremor intencional

É o movimento rítmico, oscilatório, alternado de um membro ao se aproximar de um alvo. Ele é resultante da falha do sistema cerbelar em suavizar os movimentos. Também é conhecido como tremor de ação.

Nistagmo cerebelar

É o tremor do globo ocular. Ocorre de modo involuntário quando o paciente tenta fixar o olhar em um dos lados do campo visual. Como resultado, os olhos executam movimentos rápidos e trêmulos e sem fixação duradoura.

Hipotonia

Corresponde a diminuição do tônus muscular esquelético. É um dos achados mais frequentes em lesões espinocerebelares.

Síndromes cerebelares

As incapacidades de sequenciar movimentos finos, articular corretamente as palavras, manter o equilíbrio e o tônus da musculatura esquelética são frequentes em lesões cerebelares. Essas síndromes, como dito anteriormente, são geralmente classificadas de acordo com a divisão funcional do cerebelo. Portanto, elas são conhecidas como síndromes do vestíbulo, do espino e do cerebrocerebelo. Saiba mais sobre essas síndromes para a sua prática clínica:

Síndrome do vestibulocerebelo

A característica mais marcante em pacientes com disfunção vestíbulocerebelar é a pertubação do equilíbrio corporal principalmente durante movimentos rápidos, sobretudo quando há mudança na direção do movimento. Essas alterações são captadas pelo três canais semicirculares da orelha interna. O vestíbulocerebelo recebe essas aferências sensoriais e prontamente controla as contrações musculares dos agonistas e antagonistas da coluna, quadris e ombros. Como consequencia, é função dessa divisão cerebelar o cálculo antecipado dos movimentos necessários para corrigir a postura corporal e manter o equilíbrio durante a execução rápida de mudanças de direção.

Na síndrome do vestíbulocerebelo, o paciente apresenta a ataxia, na qual sua marcha fica com a base de apoio alargada (ele precisa abrir bastante as pernas para manter o equilíbrio e simultaneamente manter o olhar voltado para os pés). Além disso, a propriocepção fica alterada (ocorre a perda do equilíbrio também com os olhos fechados). Entretanto, vale ressaltar que se o paciente estiver deitado, a coordenação dos movimentos é praticamente normal. A perda do controle dos movimentos oculares (nistagmo cerebelar ou tremor do globo ocular) também é observada. A hipotonia não é caracterítica das síndromes vestíbulocerebelares.

Síndrome do Espinocerebelo

Lesões no espinocerebelo são caracterizadas pela ataxia nos membros, pelo nistagmo cerebelar e pela fala arrastada. Adicionalmente, há a dismetria devido a redução na cronologia do movimento. Por conseguinte, ocorre o “passar do ponto”, resultando em movimentos que vão além do desejado pelo paciente, o que corresponde à falha do sistema de amortecimento cerebelar.

É importante destacar que os movimentos rápidos do corpo (chamados de balísticos) são pré-planejados e executados pelo espinocerebelo. Em relação à síndrome dessa divisão funcional, as principais alterações observadas nos pacientes são o desenvolvimento lento na execução dos movimentos, a força reduzida deles e a demora para interrompê-los (o que reflete como dismetria). Todos esses achados são resultantes da perda da autonomia dos movimentos balísticos.

Síndrome do Cerebrocerebelo

A divisão funcional cerebrocerebelo é responsável pelo planejamento, sequenciamento e temporização de movimentos mais complexos intencionais das mãos, dedos, pés e do aparelho fonador. Em relação ao planejar da sequência, a característica mais marcante encontrada nos pacientes com lesão do cerebrocerebelo é a dificuldade de progredir harmonicamente e homogeneamente entre movimentos, o que leva à uma sucessão desorganizada deles.

Quanto à falha na função temporizadora, o paciente apresenta a incapacidade de coordenar quando deverá iniciar e interromper um movimento complexo. Como resultado, ações como escrever, correr e conversar ficam prejudicadas. Em suma, a síndrome do cerebrocerebelo manifesta-se por meio do atraso no início dos movimentos, por uma decomposição de movimentos multiarticulares em diversas etapas desorganizadas, pelo tremor, pela disartria (vocalização confusa) e pela dismetria.

Considerações finais

Você deve ter percebido como o cerebelo desempenha um importante papel no ritmo das atividades motoras e na progressão suave e natural dos movimentos. Por fim, alterações no funcionamento normal dessa estrutura cursam com uma série de achados clínicos que precisam ser prontamente reconhecidos por você durante sua prática profissional afim de proporcionar o devido acompanhamento neurológico do paciente.

Luciana Ferreira Xavier

Graduanda em Medicina (Universidade Federal do Ceará)

Instagram: @lucianafx.med

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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

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Referências

GUYTON & HALL. Tratado de Fisiologia Médica. 13. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.

MACHADO, A.B.M, HAERTEL, L.M . Neuroanatomia funcional. 3 ed. São Paulo: Atheneu, 2014.

LENT, R. Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos fundamentais de neurociência. Rio de Janeiro: Atheneu, 2004.

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