A COVID-19
Em dezembro de 2019, a OMS foi notificada sobre um surto de pneumonia de etiologia desconhecida na China. Algum tempo depois, foi descoberto seu agente etiológico: um novo tipo de coronavírus, o SARS-CoV-2, causador da COVID-19. Observou-se gradualmente sua propagação mundial, até que em 11 de março de 2020, a OMS caracterizou o episódio como uma pandemia e iniciou medidas preventivas para conter seu avanço.
Síndrome pós COVID-19
Inicialmente, acreditava-se que a COVID-19 afetava apenas o sistema respiratório, cursando com sintomas gripais, como tosse, dispneia e fadiga. Entretanto, ao longo da pandemia, temos notado que se trata de uma doença com uma enorme diversidade de manifestações, podendo acometer diversos órgãos e causar múltiplos sintomas: neurológicos, cardíacos, gastrointestinais, entre outros.
Os sintomas neurológicos na fase aguda geralmente são leves e transitórios, como cefaleia, náuseas, vômitos, confusão, hiposmia, hipogeusia e sintomas musculoesqueléticos.
Contudo, além dos problemas agudos, outra coisa tem se mostrado bastante preocupante: as sequelas da COVID-19, denominada síndrome pós-COVID-19, com sintomas que podem persistir por meses após a infecção aguda!
Os principais sistemas acometidos são respiratório, neurológico e musculoesquelético.
O SARS-CoV-2 e o sistema nervoso
Apesar da COVID-19 ter ganhado destaque como patologia do sistema respiratório, também é possível enfatizar seus impactos neurológicos e psiquiátricos. Estudos mostram que o vírus é neuroinvasivo e neurotóxico, ou seja, é capaz de se apresentar com grande carga viral no sistema nervoso. Isso ocorre devido a sua difusão pela barreira hematoencefálica, tornando-o capaz de causar lesões neuronais consideráveis, que podem evoluir para acidentes vasculares encefálicos (AVE), comprometimento da visão, epilepsia, encefalite, aneurisma, síndrome de Guillain-Barré, entre outras doenças.
Pode se apresentar com acometimento tanto do sistema nervoso central (SNC) quando do sistema nervoso periférico (SNP), implicando em danos neuronais e levando a sequelas neurológicas em longo prazo. A anosmia parece ser a mais comum delas, e as mais agressivas são a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson e a Esclerose Múltipla.
A síndrome neurológica pós-COVID-19
- Epidemiologia
Complicações neurológicas são comuns em pacientes hospitalizados, sendo que mais de 80% dos pacientes podem apresentar sintomas neurológicos em algum momento durante a doença.
- Quadro clínico
São alguns dos sintomas da síndrome neurológica pós-COVID-19:
– fraqueza muscular prolongada e miopatia
– fadiga crônica
– confusão mental
– depressão e ansiedade
– dificuldade de concentração
– declínio cognitivo
– transtorno de estresse pós-traumático
– problemas no sono
– tontura
– cefaleia
– anosmia
– ageusia
A severidade dos sintomas, em geral, depende da gravidade da infecção aguda.
É notório, ainda, que alguns pacientes recuperados apresentam sequelas relacionadas diretamente a quadros neurológicos, como: acidente vascular cerebral isquêmico, hemorragia intracerebral, hemorragia subaracnóidea, trombose de seio venoso, vasculite cerebral, encefalopatia, encefalite, convulsões, síndromes neuropsiquiátricas (psicose, síndrome neurocognitiva semelhante à demência, alterações de personalidade, catatonia, ansiedade, depressão, síndrome de fadiga crônica e estresse pós traumático), síndrome de Guillain-Barré, síndrome de Miller Fisher, neurite, miastenia gravis, neuropatia periférica, miopatia, miosite e neuromiopatia do doente crítico.
Além disso, manifestações neuropsiquiátricas pós infecção têm sido descritas, em virtude, principalmente, das medidas de restrição e isolamento social necessárias à contenção da transmissão viral. Dentre elas, as mais recorrentes são o estresse pós-traumático, depressão, solidão, raiva, ansiedade, sintomas obsessivos compulsivos, transtornos do humor, dor de cabeça e transtornos do sono.
- Fisiopatologia
A patogênese do envolvimento neurológico pós-infecção ainda não é totalmente conhecida, mas tem-se atribuído a mecanismos distintos:
– lesão neurológica por disfunção sistêmica, principalmente pela hipoxemia
– disfunção do sistema renina-angiotensina (o vírus utiliza a enzima conversora de angiotensina 2 como seu ponto de entrada nas células)
– disfunção imune devido a uma resposta sistêmica desregulada, além de invasão viral direta no sistema nervoso central (SNC).
A enzima conversora de angiotensina 2 (ECA 2) funciona como um receptor para o SARS-CoV-2 que permite a entrada do vírus na célula. Essa enzima é expressa pelas células gliais e neurônios, bem como nas células caliciformes nasais e epiteliais ciliadas, sendo esse mecanismo um dos responsáveis pelo acometimento neurológico durante a infecção pelo COVID-19.
O SARS-CoV-2 pode invadir o SNC por via transneuronal ou hematogênica. As propriedades neurogênicas do SARS-CoV-2 conferem a esse vírus uma capacidade única de desenvolver no paciente uma anosmia precoce presente em grande parte dos casos, sendo que o mecanismo desse processo pode ser explicado pela presença viral nos receptores de ECA 2 no epitélio nasal e uma posterior neuroinvasão através do bulbo olfatório.
Estudos indicam que o SARS-CoV-2 afeta os neurônios olfatórios em mais de 80% dos casos. E há relatos de casos em que a anosmia persiste meses após a infecção.
Outra vertente sobre a patogênese dos danos cerebrais causados pelo COVID-19 se baseia na resposta imunológica excessiva, por uma desregulação da imunidade inata (primeira linha de defesa utilizada pelo organismo), com liberação de citocinas pró-inflamatórias. Esse descontrole promove uma exagerada produção e secreção de citocinas pelas células imunes, o que pode promover danos no SNC. Entre as consequências dos danos neurológicos, encontram-se mudanças no metabolismo de neurotransmissores, desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, alterações na neuroplasticidade e modificações estruturais e funcionais no cérebro, sendo que essas alterações podem cursar com doenças neurodegenerativas no futuro. Essa hiperativação do sistema imune pode ainda cursar com complicações vasculares, visto que a cascata de citocinas contribui para uma disfunção do sistema de coagulação.
- Alterações nos exames complementares
É possível verificar essas alterações neurológicas a partir de exames complementares. A ressonância magnética do cérebro, por exemplo, mostra aumento dos espaços subaracnóideos e anormalidades de perfusão. O eletroencefalograma é capaz de revelar anormalidades inespecíficas ou atividade difusa lenta. O exame do líquido cefalorraquidiano revela distúrbios inflamatórios, demonstrando a presença de bandas oligoclonais e níveis elevados de proteínas e IgG.
Consequências da pandemia
O que a pandemia e as situações de isolamento social e quarentena pode acarretar em relação a sintomas neuropsiquiátricos?
Há quatro grandes perspectivas de impacto na saúde mental devido a pandemia e o COVID-19:
1. O aumento e a potencialização de sintomas de indivíduos que já possuíam alguma psicopatologia.
2. Medos, pânicos e situações de instabilidade emocional que o próprio isolamento ou a doença podem causar, como o medo do falecimento de pessoas queridas e o medo de pegar a doença.
3. A mudança de rotina e o isolamento social de idosos, crianças e pessoas com doenças específicas podem acelerar quadros psicopatológicos (como demências), aumento do uso de substâncias, dificuldades de aprendizagem e/ ou diminuição de fatores protetores e de manutenção da reserva cognitiva como atividades de lazer, encontro com amigos/família, convívio escolar, atividades físicas, etc.
4. Indivíduos que adquiriram o COVID-19 e apresentaram manifestações neurológicas como perda do olfato e/ou paladar, distúrbio da consciência, doença cerebrovascular aguda, depressão e transtorno do estresse pós-traumático (TEPT).
Outro ponto relevante diz respeito aos impactos que a pandemia e as medidas associadas a ela geraram na saúde mental da população de forma geral. Um surto repentino de uma doença sempre representa uma ameaça à saúde mental das pessoas afetadas e de seus contatos próximos. Pacientes
confirmados, pacientes suspeitos, profissionais de saúde e aqueles com contato próximo aos pacientes podem ter uma prevalência maior de ansiedade, depressão, raiva e outros problemas psicológicos associados.
Além disso, desde o início da pandemia, foram impostas ações e normas para controle da disseminação viral, visando reduzir o contato interpessoal nos principais locais de elevado fluxo de pessoas, como nos espaços de convívio comunitário, comércios, empresas, escolas, transportes públicos, eventos esportivos, culturais. O uso de máscaras e os cuidados de higiene também foram medidas que mudaram o cotidiano de muitas pessoas e essa nova realidade proporcionou a descontinuação das relações sociais.
Nessa situação, o medo, a tristeza, a ansiedade e a preocupação são reações consideradas comuns e compreensíveis que podem se manifestar em todas as pessoas. Entretanto, em alguns casos, estas reações podem se prolongar e se tornar mais agravantes ou incapacitantes, levando a um aumento dos transtornos psíquicos na população.
Diante disso, levanta-se uma questão sobre o impacto de alterações, declínio e diminuição cognitiva nas pessoas devido a pandemia; bem como quais são as implicações do Sars-CoV-2 a longo prazo sobre o cérebro, cognição e funcionalidade dos indivíduos que tiveram a COVID-19.
Conclusão
Em resumo, além da maior morbimortalidade causada pela doença em si, em durante seu curso agudo, também devemos nos preocupar com as sequelas pós COVID-19, tanto para aqueles que tiveram a doença, como para todos que vivenciaram esse período. A epidemia aumentou a prevalência de psicopatologias como ansiedade, depressão e estresse, e também aumentou alterações cognitivas de disfunção executiva, fadiga e memória.
Assim, o grande desafio do tratamento COVID-19 torna-se não só combater os sintomas da doença na fase ativa, e sim minimizar possíveis sequelas. Tendo em vista que os primeiros casos da doença aconteceram no final de 2019, pouco se sabe sobre o decurso pós COVID, mas já se elencam importantes afecções que comprometem a qualidade de vida do paciente em média e longo prazo. Para tanto, especula-se que futuras medicações venham a minimizar estes problemas, bem como a vacinação em reduzir as chances de desenvolver o quadro grave da doença.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
https://sistema.atenaeditora.com.br/index.php/admin/api/artigoPDF/55014
file:////Downloads/8310-Artigo-88328-1-10-20210720.pdf
https://sbnpbrasil.com.br/wp-content/uploads/2021/02/01-Boletim_Jan-21-1.pdf
file:/// /Downloads/S%C3%8DNDROME+P%C3%93S-COVID-19+PRINCIPAIS+AFEC%C3%87%C3%95ES+E+IMPACTOS+NA+SOCIEDADE+EM+FOCO.pdf