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Evento adverso grave em transplante de órgãos: protocolo de vigilância e manejo na UTI

Profissional da saúde com luvas e avental segurando um coração anatômico, representando o tema transplante de órgãos.

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A transmissão de infecções não detectadas no doador é um evento adverso grave (EAG) possível mesmo com triagem sorológica negativa, resultante da janela imunológica.

Sua suspeita na UTI exige rápida suspensão da imunossupressão, investigação com testes moleculares para patógenos oportunistas e comunicação transparente com paciente e família. A notificação à ANVISA e à ABTO é obrigatória conforme RDC Nº 56/2016.

O que caracteriza um evento adverso grave no transplante?

Um evento adverso grave (EAG) no contexto de transplantes é qualquer ocorrência clínica indesejável, inesperada e potencialmente fatal associada à doação ou ao transplante. Inclui transmissão de doenças neoplásicas ou infecciosas do doador para o receptor, erros de compatibilidade e reações adversas graves a imunossupressores. O caso de transmissão de HIV por órgão transplantado, mesmo com triagem sorológica negativa pré-doação, exemplifica um EAG por falha na janela imunológica, um risco inerente porém mitigável do processo de triagem.

Os critérios para notificação compulsória à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e à Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) incluem qualquer suspeita de transmissão de doença infecciosa, neoplásica ou de erro de compatibilidade que resulte em dano grave ou óbito ao receptor.

Como avaliar o paciente transplantado com suspeita de infecção transmitida?

A abordagem na admissão ou durante internação na UTI deve ser ágil e sistemática. O quadro clínico frequentemente se sobrepõe ao de rejeição aguda ou infecções comuns, porém certos padrões devem levantar a suspeita de falha na triagem.

A avaliação inicial segue estes passos:

  1. Reavaliação imediata da história do doador: solicitar ao centro transplantador todos os dados da triagem sorológica e epidemiológica original; investigar retrospectivamente fatores de risco não declarados ou sinais de infecção no doador.
  2. Suspensão ou redução drástica da imunossupressão: em consenso com a equipe de transplante, priorizar a sobrevida do paciente frente à infecção; o descalonamento do esquema imunossupressor é a primeira medida para permitir resposta imune contra o patógeno.
  3. Investigação laboratorial expandida: além dos exames de rotina, solicitar testes moleculares (PCR) para os patógenos de triagem padrão, independente da sorologia prévia, dada a possibilidade de janela imunológica.
  4. Monitorização rigorosa de sinais de sepse: aplicar escores como SOFA para guiar o suporte de órgãos; o paciente imunossuprimido pode não apresentar leucocitose clássica, tornando procalcitonina e avaliação clínica seriada ainda mais importantes.

Qual é a investigação laboratorial para possível falha de triagem?

A investigação deve ser dirigida para os patógenos classicamente rastreados e para aqueles com relevância epidemiológica regional. A tabela abaixo orienta a abordagem laboratorial inicial na UTI.

Categoria de patógenoExames sorológicos (triagem inicial)Exames moleculares/específicos (confirmação)Comentário clínico
RetrovírusAnti-HIV 1/2, antígeno p24PCR para HIV-1 RNA quantitativoJanela imunológica pode ultrapassar 22 dias. PCR é método confirmatório na suspeita
Hepatites viraisHBsAg, anti-HBc total, anti-HCVPCR para HBV DNA, HCV RNAAnti-HBc isolado pode indicar infecção resolvida ou oculta; PCR define replicação ativa
ProtozoáriosAnti-Trypanosoma cruzi, anti-Toxoplasma gondiiPCR para T. cruzi, PCR para T. gondii em sangue ou LCRReativação de Chagas ou toxoplasmose em receptores soronegativos que recebem órgão de doador soropositivo
Treponema pallidumVDRL/RPR, FTA-ABS ou ELISA Sorologia pode ser falso-positiva; história clínica e FTA-ABS são essenciais
Citomegalovírus (CMV)IgG anti-CMV (doador/receptor)PCR quantitativo para CMV no sangueSorologia define risco (D+/R- é alto risco); PCR monitora replicação e guia terapia pré-emptiva

Considere também investigar HTLV-1/2, vírus da raiva e infecções por fungos endêmicos conforme epidemiologia local e quadro clínico.

Como tratar uma infecção transmitida pelo transplante?

O tratamento tem dois pilares: suporte intensivo à disfunção de órgãos e terapia antimicrobiana específica, precoce e agressiva. A tabela a seguir resume as condutas para patógenos transmitidos.

PatógenoTerapia de primeira escolha (dose ajustada à função renal)Alvo terapêutico e monitoraçãoConsiderações especiais
HIVTerapia antirretroviral combinada: ex. bictegravir/emtricitabina/tenofovir alafenamidaSupressão viral (carga viral indetectável), CD4+ séricoIniciar o mais precocemente possível. Interações medicamentosas com imunossupressores, especialmente inibidores da protease com tacrolimo
HCVAntivirais de ação direta: ex. glecaprevir/pibrentasvir por 8 a 12 semanasResposta virológica sustentada (RVS), PCR para HCV RNATratamento altamente eficaz e bem tolerado. Pode ser realizado no pós-transplante
HBVTenofovir ou entecavirSupressão do DNA viral, antígeno de superfície (HBsAg)Profilaxia perene com análogo de nucleos(t)ídeo é mandatória para receptores de doador anti-HBc+
Doença de Chagas (reativação)Benznidazol 5 a 7 mg/kg/dia em 2 doses por 60 diasParasitemia negativa (PCR), sinais clínicos de miocardite ou meningoencefaliteMonitorar reações dermatológicas e neuropatia periférica
Toxoplasmose (reativação)Sulfadiazina + pirimetamina + ácido folínico; alternativa: trimetoprim-sulfametoxazol em dose altaMelhora clínica e radiológica, PCR no LCR para envolvimento do SNCTMP-SMX em dose profilática previne reativação em situações de risco (D+/R-)

Como comunicar um evento adverso ao paciente e à família?

A comunicação transparente é um imperativo ético e legal. A equipe, liderada pelo médico assistente e com suporte da direção técnica e comitê de ética, deve:

  • Informar imediatamente: comunicar ao paciente ou família sobre a suspeita de transmissão de doença, os passos da investigação e o plano terapêutico.
  • Documentar tudo: registrar todas as conversas em prontuário; elaborar relatório técnico detalhando cronologia dos fatos, resultados dos exames e condutas tomadas.
  • Notificar as autoridades: acionar o sistema de notificação de eventos adversos da ANVISA (NOTIVISA) e informar a Central de Transplantes estadual e a ABTO conforme RDC Nº 56/2016.
  • Oferecer suporte integral: garantir suporte psicológico ao paciente e família; assegurar acesso a todos os tratamentos necessários, custeados pela instituição quando aplicável.

Checklist de segurança para paciente transplantado na UTI

A equipe pode adotar um checklist de verificação para cada paciente transplantado admitido, visando identificar lacunas na informação de base.

Item para verificaçãoQuestão-chaveAção em caso de resposta positiva ou dado ausente
Dados do doadorTemos acesso ao relatório completo de triagem sorológica e epidemiológica do doador?Solicitar documento formal ao coordenador de transplante
Status sorológico (D/R)O perfil sorológico doador/receptor para HIV, HBV, HCV, Chagas e Toxoplasma está claro e documentado?Revisar laudos. Sorologia discordante (D+/R-) exige profilaxia específica
Janela imunológicaO doador teve algum comportamento de risco ou foi testado em período de janela imunológica?Reforçar investigação com testes moleculares (PCR) no receptor
Esquema imunossupressorO regime atual é o adequado para o tempo pós-transplante? Há espaço para descalonamento seguro?Revisar com equipe de transplante
Sinais de alertaO quadro atual é atípico para rejeição ou infecção comum? Há sinais sugestivos de infecção oportunista?Ampliar investigação para patógenos transmitidos e oportunistas

Pontos-chave

  • A transmissão de infecções como HIV via transplante, mesmo com triagem negativa, é um evento adverso grave possível, geralmente associada à doação em janela imunológica.
  • O primeiro passo terapêutico na UTI diante de forte suspeita é a redução ou suspensão da imunossupressão em conjunto com a equipe transplantadora.
  • A confirmação diagnóstica requer testes moleculares (PCR) para os patógenos-alvo, pois a sorologia do receptor pode ser inicialmente negativa.
  • O manejo envolve terapia antimicrobiana específica precoce e suporte intensivo, com atenção às interações medicamentosas.
  • A notificação imediata à ANVISA (via NOTIVISA) e à ABTO é obrigatória conforme RDC Nº 56/2016.
  • A comunicação transparente, documentada e empática com o paciente e a família é parte fundamental do processo de cuidado e responsabilidade médica.
  • A adoção de checklist de verificação na admissão na UTI ajuda a identificar falhas na informação de base e orienta a investigação precoce.
  • Pacientes imunossuprimidos podem não apresentar manifestações clínicas clássicas de infecção, exigindo vigilância contínua de marcadores como procalcitonina e escores de disfunção orgânica.

Referências bibliográficas

  • AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC Nº 56, de 29 de dezembro de 2016. Dispõe sobre as atividades de triagem, captação, doação, transplante e distribuição de órgãos e tecidos humanos. Diário Oficial da União, Brasília, 2016. <a href=”https://www.in.gov.br/materia/-/assetpublisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/22729942/do1-2016-12-30-resolucao-da-diretoria-colegiada-rdc-n-56-de-29-de-dezembro-de-2016-22729810″ target=”blank” rel=”noopener noreferrer”>. Acesso em: 10 abr. 2024
  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS (ABTO). Manual de triagem de doadores falecidos. 2020. <ahref=”http://www.abto.org.br/abtov03/Upload/file/Manuais/manualtriagem2020final.pdf” target=”blank” rel=”noopener noreferrer”>. Acesso em: 10 abr. 2024

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