A paracoccidioidomicose (PCM) configura uma micose sistêmica endêmica na América Latina, com alta relevância clínica e epidemiológica no Brasil. Essa infecção resulta da inalação de fungos do gênero Paracoccidioides, que habitam o solo e materiais orgânicos em decomposição.
Além disso, a doença apresenta evolução variável, podendo permanecer assintomática por anos ou manifestar quadros graves com comprometimento multissistêmico.
Epidemiologia
Inicialmente, é importante destacar que a paracoccidioidomicose representa uma das principais micoses sistêmicas da América Latina. No Brasil, observa-se maior incidência em regiões rurais, sobretudo em áreas de atividade agrícola. Consequentemente, trabalhadores expostos ao solo contaminado apresentam maior risco de infecção.
Além disso, a doença acomete predominantemente homens adultos, especialmente entre a quarta e sexta décadas de vida. Esse padrão epidemiológico ocorre porque fatores hormonais, como o estradiol, exercem efeito protetor em mulheres adultas.
Por outro lado, a infecção pode ocorrer em qualquer idade. No entanto, a manifestação clínica depende da interação entre o fungo e o sistema imunológico do hospedeiro. Assim, muitos indivíduos permanecem assintomáticos, enquanto outros desenvolvem formas clínicas distintas.
Agente etiológico e fisiopatologia da paracoccidioidomicose
A paracoccidioidomicose decorre da infecção por fungos dimórficos do gênero Paracoccidioides, especialmente P. brasiliensis e P. lutzii. Esses microrganismos apresentam duas formas: micelial no ambiente e leveduriforme no organismo humano.
Após a inalação dos propágulos infectantes, o fungo alcança os alvéolos pulmonares. Em seguida, ocorre transformação para a forma leveduriforme, que apresenta maior capacidade patogênica. Nesse momento, o sistema imunológico tenta conter a infecção por meio da formação de granulomas.
Entretanto, quando a resposta imune não controla adequadamente o fungo, ocorre disseminação hematogênica e linfática. Dessa forma, múltiplos órgãos podem ser acometidos, incluindo pele, mucosas, linfonodos e sistema nervoso central.
Transmissão da paracoccidioidomicose
A transmissão da paracoccidioidomicose ocorre exclusivamente por via inalatória. Ou seja, o indivíduo inala esporos presentes no ambiente, especialmente em solos contaminados e poeira agrícola.
Além disso, atividades como agricultura, desmatamento e movimentação de terra aumentam significativamente o risco de exposição. Por esse motivo, a doença apresenta forte associação com trabalhadores rurais.
É importante reforçar que não ocorre transmissão interpessoal. Da mesma forma, animais não transmitem a doença diretamente para humanos. Após a inalação, o fungo se instala inicialmente nos pulmões. Entretanto, a doença pode permanecer latente por longos períodos. Posteriormente, fatores como imunossupressão, tabagismo e alcoolismo podem desencadear reativação da infecção.
Classificação clínica
A paracoccidioidomicose apresenta duas formas clínicas principais: aguda/subaguda e crônica. Cada uma possui características distintas, o que impacta diretamente o diagnóstico e o manejo clínico.
Forma aguda ou subaguda (juvenil)
Essa forma ocorre principalmente em crianças, adolescentes e adultos jovens. Além disso, apresenta evolução rápida e disseminação sistêmica precoce.
Nesse contexto, há predomínio de acometimento do sistema mononuclear fagocítico, incluindo linfonodos, fígado e baço. Portanto, manifestações sistêmicas tornam-se mais evidentes.
Forma crônica (adulto)
Por outro lado, a forma crônica representa a apresentação mais comum da doença. Geralmente, ela surge após reativação de foco latente, anos após a exposição inicial.
Nesse caso, o pulmão constitui o principal órgão afetado. Contudo, também podem ocorrer lesões mucocutâneas e comprometimento de outros sistemas.
Sintomas da paracoccidioidomicose
Os sintomas variam amplamente conforme a forma clínica e os órgãos acometidos. Ainda assim, algumas manifestações são particularmente frequentes.
Sintomas gerais
Inicialmente, muitos pacientes apresentam sintomas inespecíficos, como:
- Febre
- Perda de peso
- Fadiga
- Anorexia
Além disso, esses sintomas podem evoluir de forma insidiosa, o que dificulta o diagnóstico precoce.
Comprometimento pulmonar
O pulmão representa o principal sítio de infecção. Portanto, manifestações respiratórias são comuns, incluindo:
- Tosse crônica
- Dispneia
- Dor torácica
- Expectoração, eventualmente com sangue
Esses sintomas podem mimetizar tuberculose ou neoplasias pulmonares, o que exige atenção no diagnóstico diferencial.
Lesões mucocutâneas
Além do acometimento pulmonar, lesões em mucosas e pele são altamente características da doença. Entre elas, destacam-se:
- Úlceras dolorosas na cavidade oral
- Lesões granulomatosas em lábios e gengivas
- Feridas cutâneas com bordas irregulares
Essas manifestações podem comprometer a alimentação e a qualidade de vida do paciente.

Linfonodomegalia
Na forma aguda, o aumento de linfonodos ocorre com frequência. Além disso, pode haver supuração e fistulização.
Esse achado frequentemente se associa a hepatomegalia e esplenomegalia, indicando disseminação sistêmica.
Comprometimento de outros órgãos
Em casos mais graves, a paracoccidioidomicose pode atingir:
- Sistema nervoso central
- Glândulas suprarrenais
- Ossos
- Trato gastrointestinal
Consequentemente, o quadro clínico torna-se mais complexo e potencialmente fatal.
Diagnóstico
O diagnóstico da paracoccidioidomicose exige correlação clínica, epidemiológica e laboratorial.
Inicialmente, a suspeita clínica deve considerar histórico de exposição rural, sintomas respiratórios crônicos e lesões mucocutâneas.
Em seguida, exames complementares auxiliam na confirmação:
- Microscopia direta de amostras clínicas
- Cultura fúngica
- Exames sorológicos
- Radiografia de tórax
A identificação do fungo em amostras biológicas representa o padrão diagnóstico definitivo.
Tratamento da paracoccidioidomicose
O tratamento da paracoccidioidomicose depende da gravidade do quadro clínico. Além disso, exige acompanhamento prolongado para evitar recaídas.
Casos leves a moderados
Nos casos menos graves, o tratamento de escolha inclui antifúngicos orais. Entre eles, destacam-se:
- Itraconazol
- Sulfametoxazol-trimetoprim
Esses medicamentos apresentam boa eficácia e tolerabilidade. Entretanto, o tratamento geralmente dura meses ou até anos.
Casos graves
Nos quadros graves, especialmente com comprometimento sistêmico, utiliza-se anfotericina B.
Nesse cenário, o tratamento inicial ocorre em ambiente hospitalar. Posteriormente, o paciente pode migrar para terapia oral de manutenção.
Duração do tratamento
O tratamento da paracoccidioidomicose é prolongado. Em geral, pode durar de 6 meses a 2 anos, dependendo da resposta clínica. Além disso, o acompanhamento clínico e laboratorial é essencial para garantir a remissão completa da doença.
Complicações e prognóstico
Quando não tratada, a paracoccidioidomicose pode evoluir com complicações graves. Entre elas, destacam-se:
- Fibrose pulmonar
- Insuficiência adrenal
- Comprometimento neurológico
- Desnutrição
Por outro lado, quando o diagnóstico ocorre precocemente e o tratamento é adequado, o prognóstico tende a ser favorável.
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Referências bibliográficas
- UPTODATE. Clinical manifestations and diagnosis of acute/subacute paracoccidioidomycosis. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-acute-subacute-paracoccidioidomycosis. Acesso em: 11 abr. 2026.
- UPTODATE. Clinical manifestations and diagnosis of chronic paracoccidioidomycosis. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-chronic-paracoccidioidomycosis. Acesso em: 11 abr. 2026.
