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Síndrome neuroléptica maligna: sintomas, diagnóstico e tratamento

síndrome neuroléptica maligna

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Síndrome neuroléptica maligna: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!

A síndrome neuroléptica maligna é uma emergência clínica ameaçadora à vida que está associada ao uso de medicamentos da classe dos antipsicóticos (também chamados de neurolépticos). 

Na neurologia, essa síndrome é classificada no grupo dos transtornos de movimento induzido por drogas, embora tenha sintomas extrapiramidais com características de parkisonismo avançado e catatonia.

A mortalidade associada a essa raríssima síndrome está diretamente vinculada às complicações sistêmicas e a idade não é um fator de risco relevante, embora a exposição aos agentes antipsicóticos possa variar conforme o local e população.

Assim, devido a sua gravidade, é essencial identificar e manejar esses quadros com agilidade. Para isso, elaboramos o presente artigo com as principais informações que você precisa conhecer sobre os sinais, sintomas, diagnóstico e tratamento dessa síndrome.

Fisiopatologia da síndrome neuroléptica maligna

As causas para a síndrome neuroléptica maligna (SNM) são desconhecidas. Já foram realizados testes em modelos animais para tentar explicar o desenvolvimento da SNM, mas os sintomas e as manifestações observadas não são compatíveis ao que é observado em humanos.

Bloqueio dos receptores de dopamina

Pela associação de fármacos associados a SNM, a teoria mais comum defende que o bloqueio central dos receptores de dopamina é elencado como mecanismo central para explicação da patogênese.

Conforme essa teoria, esse bloqueio no hipotálamo seria a causa da hipertermia e dos outros sinais de disautonomia do sistema nervoso central.

Acredita-se ainda que as interferências provocadas por esses medicamentos no sistema dopaminérgico nigroestriatal possa levar aos sintomas como a rigidez e os tremores semelhantes ao observado na doença de Parkinson.

Agentes antipsicóticos e antieméticos

São alguns antipsicóticos que podem promover a síndrome neuroléptica maligna:

  • Clozapina
  • Clorpromazina
  • Haloperidol
  • Risperidona
  • Quetiapina 

Os agentes antieméticos que devemos observar nesses casos são:

  • Domperidona
  • Metoclopramida
  • Droperidol
  • Prometazina
  • Proclorperazina

Sinais e sintomas da síndrome neuroléptica maligna

Os quatro sinais clássicos da síndrome neuroléptica maligna são:

  • Rigidez generalizada com tremores;
  • Consciência alterada;
  • Hipertermia grave;
  • Instabilidade autonômica.

A rigidez muscular nesses quadros tende a ser muito intensa e generalizada, assim como os tremores. Já a catatonia e o mutismo podem ser proeminentes.  

É possível, no entanto, observar outros achados de ordem motora, como:

  • Discinesias;
  • Disfagia;
  • Disartria;
  • Mioclonia.

A apresentação mais grave da síndrome apresenta sintomas que caracterizam uma crise hipermetabólica que inclui a elevação sérica de enzimas musculares e de catecolaminas, acidose metabólica, hipóxia, leucocitose, mioglobinúria e diminuição do ferro sérico.

Como fazer o diagnóstico da síndrome neuroléptico maligna?

Para realizar o diagnóstico clínico, além de identificar as manifestações clínicas, é preciso reconhecer que é comum a existência de uma comorbidade psiquiátrica que se manifeste como delirium com confusão mental ao invés de psicose.

De forma geral, a associação entre o uso dos agentes antipsicóticos e antieméticos com as manifestações clínicas é o suficiente para estabelecer o diagnóstico.

Exames laboratoriais

Os exames laboratoriais são importantes para auxiliar na compreensão da gravidade do quadro e a identificar a ocorrência de crise hipermetabólica, embora não sejam obrigatórios para o diagnóstico. 

São alguns achados laboratoriais relevantes:

  • Creatina quinase elevada acima de 1.000u/L, podendo alcançar até 100.000u/L – embora existam outras condições que possam aumentar essa enzima sérica;
  • Leucocitose entre 10.000 e 40.000mm³, podendo encontrar desvio à esquerda;
  • Elevações de desidrogenase láctica, fosfatase alcalina e transaminases hepáticas;
  • Mioglobinúria associada a insuficiência renal aguda, que pode resultar em rabdomiólise.

Critérios de diagnóstico com base no DSM-5

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) considera como critérios diagnósticos para a Síndrome Neuroléptica Maligna:

  • Hipertermia de 38°C, pelo menos em duas ocasiões, com medição oral associada a diaforese profunda;
  • Rigidez generalizada;
  • Alterações do estado mental (delirium, estupor ou coma;
  • Ativação e instabilidade autonômica, geralmente manifestada por taquicardia com taxa >25%, diaforese, elevação da pressão arterial (>25% dos níveis basais da sistólica ou diastólica) ou flutuação (>20mmHg ou mudança da pressão sistólica; ou >25mmHg em 24h).

O DSM-5 alerta ainda que os pacientes, em geral, terão histórico de exposição a alguma antagonista da dopamina 72 horas antes do início dos sintomas.

Diagnósticos diferenciais importantes

As possibilidades alternativas de diagnóstico para a síndrome neuroléptica maligna estão organizadas em dois grupos principais: as disautonomias agudas que compartilham os sintomas de rigidez, hiperpirexia e disautonomia, e as condições sistêmicas que manifestam sintomas extrapiramidais.

Dentre as disautonomias, destacam-se a síndrome serotoninérgica, hipertermia maligna, catatonia maligna e síndromes relacionadas a drogas como o baclofeno.

As condições clínicas com repercussão sistêmica e que exibem sintomas extrapiramidais incluem as infecções do sistema nervoso central como a meningite e a encefalite, as infecções sistêmicas como sepse e pneumonia e o tétano, por exemplo. 

Orientações de tratamento para síndrome neuroléptico maligna

O tratamento para a síndrome neuroléptica maligna deve ser realizado em contexto de internamento na unidade de terapia intensiva devido a necessidade de suporte avançado imediato.

Como opções farmacológicas para o tratamento devemos considerar o dantrolene, agonistas dopaminérgicos e benzodiazepínicos e deve-se interromper o uso de agentes psicotrópicos como o lítio, anticolinérgicos e seratoninérgicos, se possível.

Em casos em evolução desfavorável, existem relatos da utilização da eletroconvulsoterapia devido os desfechos positivos que essa terapia apresenta como adjuvante no tratamento de condições neuropsiquiátricas como o Parkinson.

Cabe destacar que o tratamento tardio ou inadequado pode provocar uma evolução do quadro para encefalopatia profunda com torpor e, eventualmente, coma. 

Como conduzir o tratamento da síndrome neuroléptica maligna

O manejo desses quadros deve seguir a hierarquia da severidade clínica observada. Uma vez identificado o sintoma mais grave, deve-se prosseguir no tratamento específico deste.

Contudo, o ponto mais importante para o sucesso do tratamento é a interrupção imediata do agente antipsicótico ou antiemético que o paciente esteja em uso.

Medicamentos para tratar a síndrome neuroléptica maligna

O tratamento inicial inclui o uso de benzodiazepínicos como o lorazepam ou o Diazepam devido a ação que eles também possuem enquanto relaxantes musculares – principalmente o dizepam.

  • O lorazepam deve ser administrado em dose de 1 a 2mg, via intramuscular ou via intravenosa a cada 4 ou 6 horas.
  • O Diazepam deve ser administrada em dose de 10mg, via intravenosa a cada oito horas.

Em quadros com moderada ou severa rigidez muscular com elevação sérica da creatina quinase, é recomendada a associação de um benzodiazepínico com o dantrolene.

  • O dantrolene deve ser administrado em dose de 1 a 2,5mg/kg, via intravenosa e pode ser repetida até a dose máxima de 10mg/kg/dia em adultos. 

A ação desse fármaco é benéfica no tratamento da hipertemia, além de seu efeito direto como relaxante muscular.

Embora a eficácia dos medicamentos mais recomendados seja incerta e muito debatida na literatura atual, o dantrolene, a bromocriptina e a amantidina seguem como medicamentos de escolha em casos mais severos.

Cuidados intensivos em casos graves e monitoramento

As medidas de hidratação e controle da temperatura corporal são pilares indispensáveis a serem adotados na conduta desses quadros, tanto para tratamento quanto para as considerações relacionadas ao prognóstico.

Além desses cuidados, é importante que sejam considerados alguns diagnósticos diferenciais e a realização de exames de imagem e punção lombar para eliminar doenças infecciosas e doenças cerebrais estruturais.

O eletroencefalograma é um outro exame importante nesse contexto para eliminar a possibilidade de status epiléptico não convulsivo. Os pacientes com SNM possuam geralmente atividade de ondas lentas.

Prognóstico e possíveis complicações

Prognóstico

O prognóstico depende muito do tempo de detecção da síndrome e do início do tratamento, mas a maioria dos episódios se resolve em cerca de duas semanas.

As taxas de mortalidade variam entre 5 a 20% nos casos relatados na literatura. Nesses, é identificado que a severidade da doença e a ocorrência de complicações são os fatores preditores mais fortes de mortalidade.

Nos pacientes que não apresentaram hipóxia ou hipertermia extremamente grave durante o episódio sindrômico tendem a evoluir sem nenhuma sequela neurológica.

Complicações

Em relação as complicações, é bem estabelecido na literatura que elas surgem com frequência e tem alto potencial fatal. Por isso, é necessário considerá-las e tratá-las com urgência. 

São complicações comuns nesse contexto:

  • Desidratação;
  • Desequilíbrio hidroeletrolítico;
  • Insuficiência renal aguda associada a rabdomiólise;
  • Arritmias cardíacas – incluindo a torsades de Pointes, uma taquicardia ventricular polimórfica;
  • Infarto do miocárdio;
  • Trombocitopenia;
  • Coagulação intravascular disseminada;
  • Insuficiência respiratória grave – incluindo embolismo pulmonar, pneumonia por aspiração e rigidez da parede torácica;
  • Insuficiência hepática;
  • Sepse;
  • Cardiomiopatias.

Prevenção da síndrome neuroléptica maligna

A prevenção da SNM consiste basicamente no uso correto dos antipsicóticos. 

Pacientes que tiveram a SNM podem voltar a utilizar as medicações após o tratamento, mas não está bem estabelecido na literatura se a recorrência de episódios é algo compreendido improvável de acontecer. 

Assim, se o uso dos antipsicóticos tiver que ser obrigatoriamente retomado por necessidade de tratamento de outras condições, é recomendado seguir alguns passos específicos:

  • Esperar até duas semanas para retomar o uso desses medicamentos;
  • Usar agentes com potencial reduzido;
  • Reiniciar a terapia com doses baixas;
  • Evitar uso concomitante com lítio;
  • Evitar desidratação;
  • Monitorar de perto o paciente durante o processo da reintrodução do medicamento.

Ainda é preciso avançar no conhecimento sobre a prevenção dessa síndrome, pois os dados existentes na literatura ainda são insuficientes para determinar a recorrência e prevenção da síndrome neuroléptica maligna. 

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Referências

  • BERMAN, B. D. Neuroleptic Malignant Syndrome: A Review for Neurohospitalists. The Neurohospitalist, p. 41 – 47, 2011. Disponível em:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3726098/. Acesso em Mar 2024.
  • WIJIDICKS, E. F. M. et al. Neuroleptic malignant syndrome. Uptodate, 2022.
  • COLETTA, M. V. D; SILVA, D. J. Transtornos do Movimento Induzido por Drogas. In: GAGLIARDI, R; TAKAYANAGUI, O. M. Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia – 2 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. 1184 p.
  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, 2013.
  • CANTILINO, A; MONTEIRO; D.C. Psiquiatria clínica: um guia para médicos e profissionais de saúde mental. 1 ed, Rio de Janeiro: MedBook, 2017

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