A respiração bucal é uma das queixas mais comuns na infância, normalmente decorrente de obstrução nasal crônica. Essa mudança de padrão respiratório leva a repercussões locais e sistêmicas.
Epidemiologia
Apresenta prevalência de 26% em crianças de 5 e 6 anos de idade, e 25% a 50% em crianças entre 8 a 10 anos.
Etiologia
• Rinite alérgica (81,4%);
• Aumento das tonsilas faríngeas (79,2%);
• Aumento das tonsilas palatinas (12,6%);
• Desvio de septo obstrutivo (1%).
*Porcentagens retiradas de um estudo coorte que investigou crianças de 3 a 9 anos de idade.
Quadro clínico da Síndrome do respirador bucal
Os principais sinais e sintomas clínicos são:respiração bucal, obstrução nasal, dor de garganta, roncos, salivação excessiva, ardência ou prurido na faringe, muco espesso aderido à garganta, tosse seca persistente, cefaleia matinal, halitose e enurese noturna. Além da presença de distúrbios da fala, mastigação e deglutição decorrentes da passagem do ar pela cavidade oral, promovendo a reabsorção óssea (parte interna) e a deposição óssea (parte externa) das fossas nasais, contribuindo para o rebaixamento do palato duro.
Repercussões locais da respiração oral: maxila atrésica, protrusão de incisivos superiores, mordidas aberta e cruzada, eversão do lábio inferior, lábio superior hipodesenvolvido, hipotonia da musculatura peitoral e narinas estreitas.
Os pacientes respiradores bucais inconscientemente tentam alargar a orofaringe, para diminuir a resistência ao fluxo respiratório. Em relação à reestruturação óssea, sabemos que é dependente da pressão contínua exercida pelos músculos e tendões. Por não conseguirem realizar a mastigação e a respiração concomitantemente leva a uma rotação lateral da mandíbula, fazendo com que o fluxo aéreo esteja contralateral à mastigação. Já em questão do crescimento caudal e vertical da face é causada pela constante abertura da mandíbula e extensão do pescoço. A mudança de posicionamento padrão da língua (deixando de fazer pressão no palato) leva à formação de um palato ogival. Esse palato ogival juntamente com a constante ausência do contato entre as arcadas dentárias, causam a proeminência e a má-oclusão dos incisivos superiores.
Na imagem a seguir veremos a fácie típica do respirador oral:
Repercussões sistêmicas da respiração oral
• Distúrbio do sono: podem apresentar hipersonolência diurna, sono agitado e, como já foi citado, a enurese noturna. A principal causa é a hipertrofia das tonsilas faríngeas. A apneia e hipoapneia também levam a irritabilidade, hipersonolência diurna e alterações funcionais (hormonais, hipóxia, hipercapnia, acidose, pectus scavatum);
• Infecções das vias aéreas superiores (IVAS) recorrente: associado a roncos, obstrução nasal e respiração oral;
• Déficit de crescimento: pacientes com obstrução nasal grave juntamente com a apneia obstrutiva do sono. A apneia reduz a proteína ligadora do fator semelhante à insulina, que reflete na secreção do hormônio de crescimento;
• Déficit neurocognitivo: comportamento revoltoso, agressivo, dificuldade para aprendizagem e atenção, isolamento social;
• Problemas cardiovasculares: pressão diastólica mais elevada por conta da apneia. Quando não tratada pode evoluir para hipertrofia ventricular direita, hipertensão sistêmica.
Diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico. A anamnese é importante ser bem coletada e detalhada, trazendo informações relevantes sobre as manifestações clínicas do paciente, sendo a primeira etapa para realizar hipóteses diagnósticas.
No exame físico (segunda etapa) é importante inspecionar as cavidades nasais, observando a coloração da mucosa nasal (normocoradas, pálidas ou hiperemiadas), o tamanho das conchas nasais inferiores e médias (eutróficas, hipertróficas ou atróficas), anatomia do palato e a presença ou não de secreções. Através disso podemos ter um diagnóstico precoce e realizar a intervenção adequada.
Por vezes é necessário o pedido de exames complementares para definir intervenções a serem realizadas. São eles: radiografia da rinofaringe, endoscopia nasal, polissonografia, avaliação alergológica.
Tratamento para Síndrome do respirador bucal
O tratamento é realizado de acordo com a causa da obstrução, sendo clínica ou cirúrgica. A busca etiológica da obstrução deve ser sempre precoce, melhorando a qualidade de vida do paciente e as repercussões a curto e longo prazo.
É importante como tratamento preventivo na Atenção Básica o acompanhamento da criança pela equipe de saúde bucal, para aconselhar a manter um padrão respiratório nasal, a alimentação e a higienização devem ser adequadas ao desenvolvimento facial e orientar sobre a mastigação para corrigir possíveis desvios de posições ou desgaste.
Como tratamento complementar é indicado uma fonoaudióloga, em casos de consciência respiratória e postural. Já o tratamento ortodôntico é feito quando houver a necessidade de corrigir os hábitos bucais que levem à má-oclusão, como o uso de chupetas, roer unhas e a sucção de polegar.
Autor: Thalita Fernanda de Brito Navarro
Referências bibliográficas
ALENCAR, Cássio José Fornazari. Síndrome do respirador bucal: Caso complexo 10 – Natasha. Especialização de saúde da família, UNIFESP. São Paulo. Disponível em: https://www.unasus.unifesp.br/biblioteca_virtual/esf/1/casos_complexos/Natasha/Complexo_10_Natasha_Sindrome.pdf. Acesso em: 10 jun. 2021.
JÚNIOR, Dioclecio C.. Tratado de pediatria: Síndrome do respirador oral. Cap. 6, 3. ed. Barueri-SP: Manole, 2014. p. 1670- 1673.
USP Medicina. Respirador oral. Otorrino USP, São Paulo, p. 1-29. Disponível em: http://www.otorrinousp.org.br/imagebank/seminarios/seminario_72.pdf
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