A Síndrome do Olho Vermelho é uma queixa comum na prática ambulatorial. Uma pequena porcentagem de pacientes com olhos vermelhos precisa de encaminhamento e tratamento oftalmológicos urgentes, embora a grande maioria possa ser tratada pelo médico generalista.
Existem poucos dados epidemiológicos sobre o olho vermelho, mas a conjuntivite (alérgica ou viral) é provavelmente a causa mais comum de olho vermelho na comunidade, mas também podem ocorrer várias condições mais graves.
A história do paciente, a medida da acuidade visual e os achados no exame com lanterna elétrica são características importantes na determinação da causa e no manejo do olho vermelho.
A história e o exame ocular fornecem orientações na decisão sobre encaminhar o paciente para avaliação oftalmológica. Certas características ou queixas que apresentam sinalizam a necessidade de exame clínico e possível encaminhamento do paciente.
Anamnese de pacientes com Síndrome do Olho Vermelho
As seguintes perguntas devem ser feitas na anamnese de todos os pacientes com síndrome do olho vermelho:
A visão foi afetada? Você ainda consegue ler impressões comuns com o olho afetado?
Considerando que pacientes com deficiência visual requerem um exame clínico mais detalhado e podem, dependendo dos achados, exigir encaminhamento oftalmológico.
Existe sensação de corpo estranho? Parece que há algo em seu olho, interferindo em sua capacidade de mantê-lo aberto?
Uma sensação de corpo estranho é o principal sintoma de um processo ativo da córnea. Evidência na sensação de corpo estranho, a incapacidade de abrir espontaneamente o olho ou mantê-lo aberto, sugere envolvimento corneano.
Com exceção de uma apresentação inicial de lesão da córnea ou corpo estranho, esses pacientes são indicados para encaminhamento de emergência ao oftalmologista.
Contudo, muitos pacientes relatam uma “sensação de arranhão”, “ardor” ou uma sensação “areia nos olhos” e são diagnosticados com alergia, conjuntivite viral ou olhos secos. Essas são sensações subjetivas de corpo estranho e não sugerem necessariamente um problema da córnea que exija encaminhamento.
Existe fotofobia? Há sensibilidade a luz?
A presença de fotofobia sugere a necessidade de um exame físico. Pacientes com processo corneano ativo apresentam sinais objetivos de fotofobia e sinais objetivos de sensação de corpo estranho.
Eles podem se apresentar usando um chapéu e/ou óculos de sol, cobrindo o olho afetado com a mão para bloquear a luz ou mantendo a cabeça baixa e afastada das luminárias ou janelas. Pacientes com irite apresentam sinais objetivos de fotofobia, mas nenhuma sensação objetiva de corpo estranho.
Houve trauma?
Você usa lentes de contato?
Um histórico de desgaste das lentes de contato no local e olhos vermelhos deve aumentar a suspeita de ceratite.
Existe outra secreção além das lágrimas que continua ao longo do dia?
As crostas da manhã seguidas de uma secreção aquosa pelo restante do dia são características de muitos processos autolimitados, como alergia, conjuntivite viral, conjuntivite alérgica e olhos secos. Os pacientes geralmente interpretam as crostas matinais como “pus”.
A conjuntivite bacteriana e a ceratite bacteriana causam secreção opaca que persiste ao longo do dia e requer terapia específica. A conjuntivite bacteriana, que normalmente não está associada a uma redução da acuidade visual, sensação de corpo estranho ou fotofobia, pode ser tratada pelo clínico geral.
A ceratite bacteriana, por outro lado, pode ou não afetar a visão, mas geralmente causa sensação objetiva de corpo estranho e fotofobia, requerindo encaminhamento de emergência.
Como está o paciente na avaliação geral?
A observação geral do paciente pode fornecer orientações sobre a probabilidade de o problema ser benigno e tratável inicialmente pelo clínico ou se é necessário encaminhamento.
Pessoas com conjuntivite viral ou alérgica podem apresentar sinais ou queixar-se de rinorreia, linfadenopatia ou outros sintomas do trato respiratório superior.
Em comparação, o paciente que sofre de ceratite infecciosa, irite ou glaucoma de ângulo fechado provavelmente apresenta sinais objetivos, indicando a natureza mais séria do problema. Todas essas entidades anteriores requerem consulta oftalmológica.
Etiologias da Síndrome do Olho Vermelho
As etiologias da síndrome do olho vermelho podem ser diversas, a seguir listamos as mais relevantes:
Olho seco
É uma doença multifatorial da lágrima e da superfície ocular que resulta em sintomas de desconforto, distúrbios visuais e instabilidade do filme lacrimal, com potencial lesão da superfície ocular. O quadro é acompanhado por aumento de osmolaridade do filme lacrimal e inflamação da superfície ocular.
A síndrome do olho seco pode ser classificada segundo sua etiologia em: evaporativa e por deficiência aquosa. A primeira divide-se em intrínseca, subdividida em: deficiência da glândula de Meibomius, distúrbios da abertura palpebral, redução da frequência dos piscamentos, e, secundariamente, uso de drogas; e extrínseca, subdividida em: deficiência de vitamina
A decorrente de preservativos dos colírios, uso de lentes de contato e doença da superfície ocular, por exemplo, alergia. Já o olho seco por deficiência aquosa é subdividido em olho seco associado a síndrome de Sjögren (primário ou secundário) e olho seco sem síndrome de Sjögren (deficiência lacrimal, obstrução do ducto da glândula lacrimal, bloqueio reflexo e drogas de ação sistêmica).
Ao exame ocular, nota-se redução do menisco do filme lacrimal, presença de debris no filme lacrimal pré-corneano, hiperemia conjuntival intermitente e ceratopatia ponteada. Em alguns casos pode haver evolução para ceratite filamentar.
Blefarite é um achado associado frequente. A propedêutica subsidiária inclui teste de rosa bengala, análise do tempo de rompimento do filme lacrimal (BUT – break-up time) e teste de Schirmer. O tratamento baseia-se na utilização de lágrimas artificiais. Casos mais graves podem necessitar de oclusão do ponto lacrimal e tarsorrafia.
SE LIGA NO CONCEITO! Tarsorrafia é um procedimento cirúrgico que consiste na fusão da pálpebra superior com a inferior. Trata-se de uma técnica simples que pode ser realizada isoladamente ou associada a outras cirurgias oculoplásticas para tratamento de uma série de doenças, como lagoftalmo, paralisia facial, ectrópio, entrópio, proptose, doença tireoidiana entre outras.
Pterígio
É um crescimento fibrovascular subepitelial em formato triangular que avança sobre a córnea. Tem como fator causal principal a exposição solar crônica (irradiação UV). O pterígio muitas vezes está associado a quadro de irritação crônica, a distribuição irregular do filme lacrimal na superfície corneana e a quadro intermitente de inflamação e de hiperemia.
O uso de lágrimas artificiais e, em alguns casos, esteroides fracos, por curto tempo, podem interromper este crescimento. Conforme avança sobre a córnea, o pterígio pode induzir astigmatismo e, nos casos em que o eixo visual é comprometido, ou quando se deseja corrigir a parte estética, a abordagem cirúrgica é indicada.
VOCÊ SABIA? O termo pterígio vem do grego e significa “pequena asa”.

Imagem: Pterígio. Fonte: https://bit.ly/2UIcLT3
- Blefarite
É a inflamação da margem palpebral de origem infecciosa ou não. Seu quadro clínico inclui hiperemia da margem palpebral e conjuntival, crostas na base dos cílios, prurido, sensação de corpo estranho, lacrimejamento, filme lacrimal de aspecto espumoso, fotofobia leve e ardência, normalmente bilateral.
A blefarite crônica é uma afecção palpebral que pode cursar com alterações corneanas e conjuntivais devido a íntima relação da pálpebra com a superfície ocular. A blefarite pode ser de vários tipos: blefarite estafilocócica, seborreica e mista, seborreia meibomiana e meibomite.
A blefarite estafilocócica tem sua etiologia da infecção estafilocócica na qual os produtos tóxicos são irritantes e levam ao quadro caracterizado pela hiperemia e por telangiectasias da margem palpebral anterior. É comum a formação de concreções em torno da base dos cílios conhecidas por “colaretes”. Pode haver cicatrização com hipertrofia da margem palpebral e perda dos cílios (madarose), além de triquíase e poliose.
Posts relacionados
- Cuidados dos sintomas pós-Covid-19 na Atenção Primária à Saúde | Colunistas
- Caso Clínico: Oftalmologia – Ceratite
- COVID-19: Ceratoconjuntivite pode ser parte da apresentação inicial
- Resumo sobre conjuntivite (completo) – Sanarflix
- Teste do Olhinho ou Reflexo Vermelho
- Entendendo o teste do reflexo vermelho | Colunistas