Síndrome de pica: manifestações clínicas, fatores associados e condutas diagnósticas

A síndrome de pica corresponde à ingestão persistente de substâncias sem valor nutricional ou de itens não alimentares, em um padrão incompatível com o desenvolvimento do paciente e fora de práticas culturalmente aceitas. Embora muitos casos surjam de forma discreta, o quadro pode indicar deficiências nutricionais, condições psiquiátricas, gestação, transtornos do neurodesenvolvimento ou exposição a contextos de vulnerabilidade. Portanto, o médico precisa reconhecer a pica não apenas como um comportamento alimentar incomum, mas também como um possível marcador clínico de doenças subjacentes.
Além disso, a síndrome exige uma abordagem cuidadosa porque muitos pacientes não relatam espontaneamente o comportamento. Frequentemente, a vergonha, o medo de julgamento ou a percepção de que o hábito “não tem importância” dificultam a anamnese. Assim, perguntas objetivas, acolhedoras e não moralizantes aumentam a chance de identificar o problema. Em paralelo, a investigação precisa considerar o tipo de substância ingerida, a frequência, o tempo de evolução, o contexto clínico e as complicações associadas.
O que caracteriza a síndrome de pica?
A pica envolve a ingestão recorrente de substâncias não nutritivas ou não alimentares por pelo menos um mês. Entretanto, o diagnóstico exige mais do que a simples presença de uma preferência incomum. O médico deve avaliar a idade, o nível de desenvolvimento, o contexto cultural e o risco clínico relacionado ao comportamento.
Em crianças pequenas, por exemplo, a exploração oral do ambiente pode fazer parte do desenvolvimento. Por isso, o diagnóstico não se aplica quando o comportamento ainda se encaixa no esperado para a faixa etária. Por outro lado, em adolescentes, adultos e gestantes, a ingestão persistente de gelo, terra, argila, amido, papel, cabelo, sabão, cinzas ou outros materiais deve acender um alerta.
Além disso, o termo pica não descreve uma única substância. Na prática clínica, alguns padrões recebem denominações específicas:
- Pagofagia: consumo compulsivo de gelo
- Geofagia: ingestão de terra, barro ou argila
- Amilofagia: consumo de amido, como amido de milho cru
- Tricofagia: ingestão de cabelo ou fios
- Litofagia: ingestão de pedras ou fragmentos minerais
- Xilofagia: ingestão de madeira, papel ou derivados.
Embora essas categorias ajudem na descrição clínica, o raciocínio diagnóstico deve avançar além do nome. Afinal, cada substância carrega riscos diferentes. Por exemplo, a ingestão de terra pode aumentar o risco de parasitoses ou intoxicações; já a ingestão de tinta antiga pode levantar preocupação com chumbo; enquanto o consumo de cabelo pode se relacionar a bezoares e sintomas gastrointestinais.
Manifestações clínicas
Quadro comportamental
A principal manifestação da síndrome de pica envolve o desejo recorrente ou o ato repetido de ingerir substâncias sem função alimentar. Contudo, o paciente nem sempre descreve esse comportamento como “compulsão”. Muitas vezes, ele relata “vontade”, “necessidade”, “alívio” ou “hábito”. Portanto, a anamnese deve explorar a experiência subjetiva associada ao consumo.
O médico pode investigar:
- Qual substância o paciente ingere.
- Quando o comportamento começou.
- Com que frequência ocorre.
- Se existe desejo intenso ou perda de controle.
- Se o paciente tenta esconder o hábito.
- Se há sintomas físicos após a ingestão.
- Se o comportamento piora em períodos de ansiedade, estresse ou gestação.
- Se existe história de anemia, deficiência nutricional ou transtorno psiquiátrico.
Além disso, a pica pode surgir de forma episódica ou persistente. Em alguns pacientes, o comportamento acompanha períodos específicos, como gestação. Em outros, porém, mantém-se por meses ou anos, especialmente quando há transtornos do desenvolvimento, deficiência intelectual, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos alimentares, privação ambiental ou sofrimento psíquico importante.
Sinais e sintomas relacionados à deficiência de ferro
A associação entre pica e deficiência de ferro merece atenção especial. A pagofagia, em particular, aparece com frequência em pacientes com deficiência de ferro, com ou sem anemia estabelecida. Desse modo, todo paciente com desejo persistente por gelo ou ingestão compulsiva de gelo deve passar por avaliação laboratorial do metabolismo do ferro.
Além disso, o médico deve procurar sintomas compatíveis com deficiência de ferro, como:
- Fadiga.
- Redução da tolerância ao esforço.
- Dispneia aos esforços.
- Palpitações.
- Tontura.
- Cefaleia.
- Unhas frágeis.
- Queda de cabelo.
- Glossite.
- Queilite angular.
- Síndrome das pernas inquietas.
- Alterações de atenção ou desempenho cognitivo.
Contudo, a ausência desses achados não exclui deficiência de ferro. Em fases iniciais, o paciente pode apresentar ferritina baixa antes de desenvolver anemia. Assim, quando a história sugere pica, especialmente pagofagia, a investigação não deve depender apenas da hemoglobina.
Manifestações gastrointestinais e metabólicas
As manifestações clínicas também variam conforme o material ingerido. Portanto, o médico deve direcionar o exame físico e a investigação complementar de acordo com a substância relatada.
A ingestão de argila, terra ou amido pode causar dor abdominal, constipação, náuseas, distensão ou alteração do hábito intestinal. Além disso, algumas substâncias podem interferir na absorção de micronutrientes, o que cria um ciclo clínico complexo: a deficiência nutricional pode contribuir para a pica, enquanto a pica pode agravar a deficiência.
Em casos de ingestão de objetos, cabelo, tecido ou materiais não digeríveis, o paciente pode apresentar saciedade precoce, vômitos, perda ponderal, massa abdominal, obstrução intestinal ou sinais de complicação gastrointestinal. Portanto, sintomas persistentes, dor abdominal intensa, vômitos recorrentes, sangramento digestivo, febre ou perda de peso exigem investigação mais urgente.
Riscos toxicológicos e infecciosos
Algumas formas de pica aumentam o risco de intoxicação. Consequentemente, a substância ingerida deve orientar exames específicos. A ingestão de tinta, poeira de construções antigas, solo contaminado, fragmentos metálicos ou materiais industriais pode expor o paciente a metais pesados, especialmente chumbo. Assim, quando a história sugere exposição, o médico deve solicitar avaliação toxicológica direcionada.
Além disso, a ingestão de terra ou fezes de animais pode aumentar o risco de parasitoses e infecções. Nesses casos, a avaliação pode incluir exame parasitológico de fezes, hemograma com eosinófilos e investigação conforme sintomas gastrointestinais e epidemiologia local.
Fatores associados
Gestação
A gestação representa um contexto clínico importante para pica. Muitas gestantes relatam desejos alimentares específicos, porém o diagnóstico de pica exige ingestão de substâncias não alimentares ou não nutritivas com potencial risco clínico. Portanto, o médico deve diferenciar craving alimentar comum de comportamento de pica.
Além disso, a gestação aumenta a demanda de ferro e pode precipitar ou revelar deficiência de ferro. Consequentemente, a pica em gestantes deve motivar investigação de anemia ferropriva e revisão da suplementação. Ainda assim, a abordagem deve evitar julgamento, já que muitas pacientes escondem o comportamento por constrangimento.
Deficiência de ferro e anemia ferropriva
A deficiência de ferro constitui um dos fatores associados mais relevantes. Embora a relação causal ainda envolva debate, a prática clínica reconhece uma associação consistente entre pica, especialmente pagofagia, e baixa reserva de ferro. Desse modo, a presença de pica pode funcionar como pista clínica para deficiência de ferro, inclusive antes da queda da hemoglobina.
Além disso, quando o médico identifica anemia ferropriva, ele precisa procurar a causa. Em adultos, especialmente homens e mulheres pós-menopausa, perdas gastrointestinais exigem investigação apropriada. Em mulheres em idade reprodutiva, perdas menstruais intensas, gestação, puerpério e dieta inadequada também entram no raciocínio. Portanto, a pica não deve encerrar a investigação; pelo contrário, deve abrir caminho para identificar o distúrbio de base.
Transtornos psiquiátricos e do neurodesenvolvimento
A pica também pode ocorrer em pacientes com transtorno do espectro autista, deficiência intelectual, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos alimentares, quadros ansiosos, depressivos ou psicóticos. Além disso, situações de negligência, institucionalização, baixa estimulação ambiental e estresse crônico podem contribuir para a manutenção do comportamento.
Por isso, a avaliação clínica deve incluir triagem de saúde mental, funcionamento cognitivo, comportamento repetitivo, sintomas obsessivos, impulsividade, compulsões, alterações do humor e risco de autoagressão não intencional por ingestão de substâncias perigosas. Quando o paciente apresenta sofrimento psíquico, prejuízo funcional ou comorbidade relevante, o manejo deve envolver equipe multiprofissional.
Contexto sociocultural
Em algumas comunidades, a ingestão de argila, terra ou outros materiais pode ter significado cultural, religioso ou tradicional. Entretanto, mesmo quando existe prática cultural, o médico deve avaliar risco clínico, frequência, quantidade e sinais de complicação. Assim, a sensibilidade cultural não elimina a responsabilidade de investigar anemia, intoxicação, infecção ou dano gastrointestinal.
Condutas diagnósticas
Anamnese dirigida
A anamnese representa a etapa central. Portanto, o médico deve perguntar de forma direta e respeitosa. Em vez de usar termos estigmatizantes, pode perguntar: “Você sente vontade de mastigar ou ingerir gelo, terra, barro, amido, papel ou alguma substância que não seja alimento?”. Essa formulação facilita o relato e reduz constrangimento.
Além disso, a anamnese deve mapear:
- Substância ingerida.
- Quantidade aproximada.
- Frequência.
- Duração.
- Gatilhos emocionais ou situacionais.
- Relação com gestação.
- História menstrual e obstétrica.
- Dieta e restrições alimentares.
- Sintomas de anemia.
- Sintomas gastrointestinais.
- Exposição ocupacional ou ambiental.
- Uso de medicamentos e suplementos.
- Antecedentes psiquiátricos.
- Desenvolvimento neuropsicomotor, quando aplicável.
Exame físico
O exame físico deve procurar sinais de anemia, desnutrição, intoxicação, complicações gastrointestinais e condições psiquiátricas ou neurológicas associadas. Assim, o médico deve avaliar palidez, taquicardia, glossite, queilite angular, alterações ungueais, dor abdominal, distensão, massa palpável, sinais de perda ponderal e alterações comportamentais.
Contudo, muitos pacientes apresentam exame físico normal. Portanto, a normalidade do exame não descarta pica nem deficiência de ferro.
Avaliação laboratorial inicial
A investigação laboratorial deve seguir a suspeita clínica. Em geral, quando o paciente apresenta pica, especialmente pagofagia, o médico deve solicitar avaliação de ferro, mesmo sem anemia evidente.
Exames úteis incluem:
- Hemograma completo.
- Ferritina sérica.
- Ferro sérico.
- Capacidade total de ligação do ferro ou transferrina.
- Saturação de transferrina.
- Reticulócitos, quando necessário.
- Proteína C reativa, se houver suspeita de inflamação que possa interferir na interpretação da ferritina.
- Dosagem de zinco, quando a história sugerir deficiência ou dieta restritiva.
- Chumbo sérico, quando houver risco de exposição.
- Parasitológico de fezes, conforme epidemiologia e tipo de substância ingerida.
- Teste de gravidez, quando aplicável.
Além disso, a interpretação da ferritina exige contexto. Como a ferritina funciona como reagente de fase aguda, inflamação, infecção, doença hepática ou doença crônica podem elevar seus níveis. Desse modo, em pacientes com inflamação, o médico deve combinar ferritina com saturação de transferrina e outros marcadores.
Quando solicitar imagem ou avaliação especializada?
O médico deve considerar exames de imagem quando o paciente relata ingestão de objetos, cabelo, materiais pontiagudos, substâncias potencialmente obstrutivas ou quando apresenta sintomas gastrointestinais importantes. Nesses casos, radiografia, ultrassonografia, tomografia ou endoscopia podem entrar no plano, conforme a suspeita.
Além disso, encaminhamento para gastroenterologia pode ajudar quando há suspeita de bezoar, obstrução, sangramento, dor abdominal persistente ou necessidade de investigação de perda crônica de sangue. Por outro lado, psiquiatria, psicologia, nutrição, pediatria do desenvolvimento ou obstetrícia podem participar conforme idade, gestação, comorbidades e gravidade.
Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial deve incluir comportamentos alimentares culturalmente aceitos, cravings gestacionais sem ingestão de substâncias não alimentares, transtornos alimentares, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos psicóticos, deficiência intelectual, autismo, uso de substâncias, demência e ingestões acidentais.
Além disso, em crianças, o médico deve distinguir pica de exploração oral esperada. Em adultos, deve diferenciar pica de hábitos orais, como mastigar gelo sem ingestão relevante, roer objetos ou buscar sensações táteis. Contudo, quando há ingestão persistente e risco clínico, a avaliação deve avançar.
Manejo inicial após o diagnóstico
Embora este texto foque nas condutas diagnósticas, o diagnóstico já deve orientar medidas iniciais. Primeiramente, o médico precisa tratar deficiências identificadas, sobretudo deficiência de ferro. Em seguida, deve orientar o paciente sobre riscos específicos da substância ingerida. Além disso, deve reduzir exposição, envolver familiares quando apropriado e organizar acompanhamento.
Em gestantes, o manejo deve integrar pré-natal, investigação de anemia e orientação nutricional. Em pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento, estratégias comportamentais e adaptação ambiental podem reduzir ingestões perigosas. Já em pacientes com sofrimento psíquico, compulsões ou transtornos alimentares, a equipe de saúde mental deve participar do cuidado.
Conclusão
A síndrome de pica exige olhar clínico atento porque pode representar a manifestação visível de alterações nutricionais, psiquiátricas, gestacionais, gastrointestinais ou ambientais. Além disso, o quadro pode gerar complicações relevantes, como intoxicação, parasitoses, lesões dentárias, sintomas gastrointestinais, obstrução e agravamento de deficiências.
Portanto, o médico deve investigar o comportamento de forma objetiva, acolhedora e sistemática. A anamnese dirigida, a avaliação do metabolismo do ferro, a busca por complicações e a análise do contexto do paciente formam a base da conduta diagnóstica. Assim, quando o profissional reconhece a pica como sinal clínico e não apenas como hábito incomum, ele amplia a chance de diagnosticar precocemente condições tratáveis e reduzir riscos ao paciente.
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Referências bibliográfica
- UPTODATE. Pica in pregnancy. Waltham: Wolters Kluwer, 2026. Disponível em: UpToDate. Acesso em: 23 jun. 2026.
- UPTODATE. Diagnosis of iron deficiency and iron deficiency anemia in adults. Waltham: Wolters Kluwer, 2026. Disponível em: UpToDate. Acesso em: 23 jun. 2026.
