Tudo que você precisa saber sobre o envelhecimento fisiológico do sistema respiratório!
Introdução:
A senescência pode ser abordada como o processo fisiológico natural de envelhecimento ao nível celular e do conjunto de fenômenos associados ao avançar da idade, ou seja, é um mecanismo biológico inato associado ao processo do envelhecer do ser humano. Exemplos de mudanças naturais são a lentificação da marcha do idoso, redução da capacidade de profundidade visual e de contraste, flexão anterior da cabeça e do tronco, entre outros. Quando fazemos referência ao envelhecer inadequado, ou seja, o processo patológico do envelhecer com desgastes celulares e declínio no funcionamento dos diversos sistemas corporais, denominamos de senilidade.
É notório que atualmente vivemos um período de inversão das pirâmides etárias da população globalmente, em que é nítido o aumento do grupo populacional da terceira idade. Sendo assim, devemos entender tanto os facilitadores do aumento da expectativa de vida da população, quanto o processo do envelhecer natural.
Com o avançar das décadas, é normal que haja modificações intrínsecas e extrínsecas no corpo do indivíduo relacionadas com o processo do envelhecer, o que proporciona impactos e consequências em vários locais e sistemas do corpo humano, sendo o sistema respiratório focalizado nesta publicação.
Alterações estruturais:
A estrutura arquitetônica da caixa torácica, que abrange e serve de proteção aos pulmões, é de suma importância para reger o funcionamento pulmonar e garantir o mecanismo adequado da respiração.
Ao envelhecer, temos alterações osteoarticulares que interferem no processo respiratório, como a progressiva diminuição dos espaços dos discos intervertebrais e desenvolvimento da cifose torácica, em que temos aumento do ângulo de curvatura da coluna vertebral com eventual giba posterior e aumento do diâmetro anteroposterior (tórax em barril).
Como consequência da alteração na curvatura torácica, temos a redução dos espaços intercostais, que irá refletir negativamente na expansibilidade pulmonar, na capacidade volumétrica torácica e na altura do indivíduo (osteoporose senil).
Em associação a tais modificações estruturais, podemos associar à musculatura respiratória consequências da sarcopenia (redução da massa magra e aumento do tecido adiposo) que acomete o idoso. Com o menor espaço intercostal, temos interferência no comprimento e no ângulo de inserção nas costelas da musculatura intercostal e de suas fibras musculares. Além disso, com essa perda de massa muscular generalizada relacionada ao envelhecimento, há perda de força e de funcionalidade muscular, gerando uma perda progressiva na capacidade ventilatória, tanto na inspiração quanto na expiração, associada a um maior trabalho muscular e gasto energético.
Alterações funcionais:
Como consequência das modificações estruturais do sistema respiratório temos uma redução da expansibilidade torácica, sendo associada a menor complacência torácica e menor volume inspiratório, assim como uma redução na fração do volume expiratório forçado no 1º segundo (FEV1) e na capacidade vital (volume corrente + reserva inspiratória + reserva expiratória).
Além disso, o idoso sofre uma perda progressiva da capacidade intrínseca do mecanismo de tosse e de expectoração durante o envelhecimento devido a sarcopenia e a redução de sensibilidade de receptores específicos, fazendo com que haja uma maior predisposição de sofrer infecções respiratórias.
A capacidade de realizar um clearance mucociliar adequado das células das mucosas respiratórias se encontra diminuída devido a diminuição da funcionalidade e da quantidade dos cílios, ao aumento da quantidade e do espessamento de muco, levando a uma maior incidência de infecções das vias respiratórias com o aumento da idade.
Inflamação e Imunidade:
O próprio envelhecimento acarreta um potencial de modificar significativamente as reações inflamatórias e imunológicas do sistema respiratório.
O inflammaging se trata do processo de baixo estado inflamatório crônico encontrado no paciente idoso. São levantadas teorias que abordam a possibilidade de que altas concentrações séricas de citocinas pró-inflamatórias, como a IL-6, durante esse processo aumentem as alterações na elasticidade e destruam parte do parênquima pulmonar.
Associada ao inflammaging, temos a imunossenescência, que se trata das inúmeras respostas imunológicas atenuadas notadamente a agentes infecciosos. Tal relação dinâmica, quando desequilibrada entre os mediadores pró e anti-inflamatórios, gera o processo pró-inflamatório crônico (inflammaging) que dificulta as respostas imunes inatas e adquiridas nos idosos (imunossenescência). Esse desbalanço entre os mediadores de respostas imunológicas atrasa a ativação e prolonga as reações inflamatórias, proporcionando um aumento na morbimortalidade nos idoso após infecções, exposições ambientais de risco e agressões sistêmicas.
Os pulmões são a maior superfície epitelial e sofrem constantes exposições ambientais, assim, desenvolvem defesas imunológicas contra os antígenos inalados, sendo utilizadas as imunidades inata e adquirida.
A primeira linha de defesa pulmonar é através da imunidade inata, que também sofre modificações com o avançar da idade, fazendo com que fique mais lentificada em reconhecer e eliminar os patógenos. Já a imunidade adquirida, que é antígeno-específica, é tida como nosso segundo tipo de linha de defesa, sendo dependente da memória imunológica e da produção de anticorpos (imunoglobulinas) pelas células linfocitárias, que também estão progressivamente reduzidas em indivíduos da terceira idade.
Conclusão:
Apesar das alterações sofridas durante o processo de envelhecimento, o sistema respiratório continua eficaz em manter as adequadas oxigenação e ventilação num estado de repouso. Entretanto, quando em estados de alta demanda, como em pneumonias ou insuficiências cardíacas, perde de maneira progressiva a reserva respiratória, diminuindo a resposta ventilatória ao estado de hipóxia e à hipercapnia, fazendo com que os idosos fiquem mais vulneráveis à insuficiência respiratória. Assim, idosos fragilizados e vulneráveis têm maiores chances de risco de necessitarem de hospitalizações, internações em UTIs e, por fim, sofrerem óbitos.
Dessa forma, as modificações estruturais levam a alterações funcionais, que, se manejadas de modo adequado, são passíveis de reabilitação motora, permitindo uma melhora funcional ao paciente idoso.
Ademais, compreender o processo do envelhecer natural do ser humano é de suma importância para que possamos ser habilitados o suficientemente para distinguir a senescência e a senilidade de forma correta, evitando iatrogenias.
Sendo assim, a identificação adequada do que é fisiológico e patológico nos permitirá agregar conhecimentos e experiências que contribuirão para melhorias no planejamento de saúde pública e privada, desde o individual até o coletivo, para essa faixa etária comumente mais fragilizada.
O processo do envelhecer é algo inevitável, mas se adequado, pode ser algo saudável!
Autor: Shaira Salvadora Cunha
Instagram: @shairasalvadora
https://www.instagram.com/shairasalvadora/
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
FREITAS, Elizabete Viana de. Tratado de Geriatria e Gerontologia (4ed). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017