O HIV-1 usa o coreceptor CCR5 para ancorar e fundir seu envelope à membrana celular do hospedeiro. A mutação CCR5-delta32 é uma deleção de 32 pares de base no gene que codifica esse receptor, resultando em uma proteína truncada que não se expressa na superfície celular. Indivíduos homozigotos para essa variante são altamente resistentes a cepas R5-trópicas, que predominam nos estágios iniciais da infecção pelo HIV.
Se o sistema hematopoiético do paciente for substituído por células que não expressem CCR5 funcional, o vírus perde as vias de entrada para novas infecções. Após o transplante e a interrupção supervisionada da terapia antirretroviral combinada (TARV), não se detecta RNA viral plasmático por métodos ultra-sensíveis e, em alguns casos, também não se identifica DNA proviral intacto em biópsias de linfonodos e tecido linfoide associado ao intestino.
Esse fenômeno é distinto da remissão de elite controllers, em que o sistema imune mantém viremia indetectável sem intervenção, mas os reservatórios virais persistem. No contexto do transplante com CCR5-delta32, a erradicação funcional resulta de três mecanismos combinados:
- Ablação do sistema imune original, com destruição de linfócitos T CD4+ infectados
- Enxerto de células refratárias à entrada viral pelo HIV-1
- Efeito enxerto-versus-reservatório, mediado por células do doador contra linfócitos residuais do receptor
Por que o 13º caso de remissão sustentada do HIV é clinicamente relevante
O 13º caso, apresentado na 26ª Conferência Internacional da Aids, consolida evidências sobre cura funcional em um subgrupo muito específico de pacientes. O paciente, um homem de 53 anos com HIV crônico controlado por TARV e leucemia mieloide aguda recidivada, recebeu transplante de células-tronco hematopoiéticas de doador não aparentado com a mutação CCR5-delta32 em homozigose. A TARV foi suspensa 16 meses após o procedimento; após mais de 48 meses de seguimento, não houve rebote viral.
A reprodutibilidade do fenômeno em diferentes centros e contextos geográficos fortalece sua validade externa. O primeiro caso documentado, o “paciente de Berlim”, foi descrito por Hütter et al. em 2009. Casos subsequentes surgiram em Londres, Düsseldorf, Nova York e City of Hope, entre outros. O denominador comum: todos utilizaram doadores homozigotos para CCR5-delta32. Nenhum caso de remissão sustentada foi relatado com doador heterozigoto ou selvagem.
Para o clínico que acompanha pacientes vivendo com HIV, o caso reposiciona a discussão sobre cura, mas também reforça a estreita janela de aplicabilidade clínica. O transplante alogênico tem mortalidade relacionada ao procedimento que varia de 10% a 40% no primeiro ano, dependendo da fonte celular, grau de disparidade HLA e presença de comorbidades. Seu uso exclusivo para tratamento do HIV, sem indicação onco-hematológica concomitante, é considerado eticamente inviável na atualidade.
Quais são as principais limitações dessa estratégia de transplante
Toxicidade do transplante alogênico
A doença do enxerto contra hospedeiro (GVHD), infecções oportunistas, falha de pega e toxicidade do condicionamento mieloablativo são eventos frequentes e graves. Na coorte de pacientes transplantados com CCR5-delta32, a morbidade pós-transplante foi elevada; alguns indivíduos evoluíram para óbito por complicações relacionadas ao procedimento.
Disponibilidade extremamente limitada de doadores compatíveis
A frequência do alelo CCR5-delta32 em homozigose é aproximadamente 1% na população caucasiana europeia e virtualmente ausente em populações africanas e asiáticas. Para um paciente brasileiro, com background genético miscigenado, a probabilidade de encontrar um doador não aparentado com essas características é substancialmente mais baixa. Esta limitação geográfica e étnica reduz drasticamente a aplicabilidade global da estratégia.
Persistência de cepas X4-trópicas
Em pacientes com infecção avançada ou uso prolongado de determinados antirretrovirais, pode ocorrer switch de tropismo viral para cepas que utilizam o coreceptor CXCR4. O enxerto CCR5-delta32 não protegeria contra essas variantes. A triagem de tropismo viral por ensaio genotípico ou fenotípico é obrigatória nos protocolos que exploram essa via.
Outros obstáculos
| Limitação | Implicação clínica |
|---|---|
| Síntese de GVHD crônico | Restringe sobrevida e qualidade de vida pós-transplante |
| Custos de transplante e condicionamento | Acesso restrito a centros de excelência |
| Necessidade de vigilância virológica prolongada | Requer monitoramento contínuo de carga viral e DNA proviral |
| Efeitos adversos tardios do condicionamento | Malignidade secundária, insuficiência endócrina, infertilidade |
O que muda nos protocolos atuais de terapia antirretroviral
Nada muda no manejo padrão. A terapia antirretroviral combinada continua sendo o pilar do tratamento da infecção pelo HIV. Os casos de remissão representam uma prova de conceito essencial para pesquisa translacional, mas não constituem alternativa terapêutica escalável para a população de vivendo com HIV.
O desafio translacional é identificar estratégias que mimetizem a ausência de CCR5 funcional sem a necessidade de transplante alogênico com seus riscos associados.
Quais são as estratégias translacionais mais promissoras para cura funcional do HIV
Edição gênica de CCR5 com CRISPR-Cas9 em células autólogas
A edição gênica ex vivo de células-tronco hematopoiéticas autólogas com deleção do gene CCR5 usando CRISPR-Cas9 já foi testada em fase I/II. Essa abordagem elimina o risco de doença do enxerto contra hospedeiro e a dependência de doador alogênico, mas ainda enfrenta desafios:
- Eficiência de edição bialélica limitada (5% a 8% em ensaio clínico chinês com 27 pacientes)
- Segurança oncológica em seguimento de longo prazo
- Custo operacional elevado
- Desenvolvimentos recentes em vetores de base editing e prime editing prometem aumentar eficiência
Imunoterapia com bloqueio de CCR5
Investiga-se a combinação de transplante de células-tronco depletadas de linfócitos T naive com inibidores de checkpoint imune. Essa estratégia poderia reduzir a necessidade de condicionamento mieloablativo, diminuir o risco de GVHD e ampliar a elegibilidade de pacientes com HIV.
Estratégias immunológicas complementares
As frentes de pesquisa incluem três eixos convergentes:
- Shock and kill: agentes reversores de latência expõem o vírus latente, combinados com estratégias imunes que eliminam células produtoras de vírus
- Block and lock: silenciar permanentemente o provírus integrado, tornando-o transcricionalmente inerte
- Bloqueio de receptores: anticorpos monoclonais anti-CCR5, como o leronlimabe, que bloqueiam o receptor de forma competitiva, embora sem efeito sobre reservatórios já estabelecidos
Se aprofunde em: Transplante de células-tronco hematopoiéticas
Recomendações para o clínico quando há necessidade de transplante em pessoa vivendo com HIV
Quando um paciente vivendo com HIV necessita de transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas por neoplasia hematológica, recomenda-se as seguintes condutas:
- Realizar triagem de tropismo viral antes do procedimento (ensaio genotípico ou fenotípico) para excluir cepas X4-trópicas
- Buscar ativamente doador compatível com mutação CCR5-delta32 em homozigose
- Considerar condicionamento menos tóxico quando possível, balanceando eficácia e segurança
- Manter TARV por período prolongado no pós-transplante, conforme diretrizes da European AIDS Clinical Society e do grupo internacional IciStem
- Implementar monitoramento virológico intensificado, incluindo RNA plasmático ultra-sensível e DNA proviral em biópsias de tecido linfoide
- Documentar quimerismo completo do doador no sistema hematopoiético
Essas recomendações constam nas diretrizes da European AIDS Clinical Society e do grupo IciStem, que coordena a coorte internacional de pacientes transplantados.
Fatores determinantes para remissão pós-transplante com CCR5-delta32
| Fator | Relevância clínica |
|---|---|
| Homozigose CCR5-delta32 no doador | Essencial; é o pré-requisito molecular para bloqueio da entrada viral |
| Condicionamento mieloablativo | Elimina grande parte do reservatório viral ao destruir linfócitos T CD4+ infectados |
| Quimerismo completo do doador | Garante que toda a população hematopoiética seja refratária a cepas R5-trópicas |
| Tropismo viral R5 exclusivo | Evita escape viral por uso de CXCR4 após o transplante |
| Duração prolongada de TARV pós-transplante | Minimiza risco de reativação viral durante reconstituição imune |
| Ausência de GVHD grave | Permite sobrevida longa o suficiente para documentar remissão sustentada |
Pontos-chave
- Todos os 13 casos de remissão sustentada do HIV documentados até 2026 utilizaram doadores homozigotos para a mutação CCR5-delta32 em contexto de transplante alogênico para neoplasia hematológica
- O mecanismo central é a substituição do sistema hematopoiético por células refratárias à entrada do HIV-1 R5-trópico, combinada à ablação prévia dos reservatórios virais por condicionamento mieloablativo
- A terapia antirretroviral combinada continua sendo o padrão-ouro de tratamento; o transplante com doador CCR5-delta32 não é indicado isoladamente para tratar HIV
- A busca ativa por doador CCR5-delta32 é recomendada quando o transplante é necessário por indicação onco-hematológica em pessoa vivendo com HIV
- A triagem de tropismo viral é obrigatória para excluir cepas X4-trópicas antes do transplante
- A edição gênica de CCR5 com CRISPR-Cas9 em células autólogas é a estratégia translacional mais promissora, mas ainda em fase experimental com eficiência de edição limitada
- A prevalência extremamente baixa de doadores homozigotos CCR5-delta32 fora da população caucasiana europeia é uma limitação geográfica e étnica relevante que reduz aplicabilidade global
- A morbimortalidade do transplante alogênico (10% a 40% no primeiro ano) impede sua aplicação em pacientes sem neoplasia hematológica associada
- Doença do enxerto contra hospedeiro, infecções oportunistas e complicações tardias do condicionamento são obstáculos clínicos significativos à reprodução da estratégia
- O monitoramento virológico intensificado, incluindo RNA ultra-sensível e DNA proviral, é obrigatório para documentar remissão sustentada.
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Referências bibliográficas
- GUPTA, R. K.; ABDUL-JAWAD, S.; MCCOY, L. E. et al. HIV-1 remission following CCR5Δ32/Δ32 haematopoietic stem-cell transplantation. Nature, v. 568, n. 7751, p. 244-248, 2019.
- JENSEN, B. E. O.; SORENSEN, S. S.; VINNER, L. et al. In-depth virological and immunological characterization of HIV-1 cure after CCR5Δ32/Δ32 allogeneic hematopoietic stem cell transplantation. Nature Medicine, v. 29, n. 3, p. 583-587, 2023.
- DICKTER, J. K.; SATHER, B. D.; TEMM, C. J. et al. HIV-1 remission after allogeneic hematopoietic stem cell transplantation with CCR5Δ32/Δ32 donor cells: the City of Hope case. Cell, v. 185, n. 15, p. 2681-2695, 2022.