A dislipidemia pediátrica é assintomática, mas deixa marcas precoces na parede arterial. Estudos de necropsia demonstram estrias gordurosas na aorta de crianças a partir dos 10 anos e lesões mais avançadas em adolescentes com múltiplos fatores de risco. O rastreamento identifica crianças com lipoproteína de baixa densidade (LDL) elevado antes que a placa aterosclerótica evolua, permitindo intervenção precoce com mudança de estilo de vida e, em casos selecionados, tratamento farmacológico.
Rastrear não significa medicalizar. Na maioria das crianças, a conduta é não farmacológica e envolve a família. A indicação de estatinas na pediatria é exceção, reservada para dislipidemias graves, como a hipercolesterolemia familiar (HF), que afeta cerca de 1 em 250 a 500 nascidos vivos e permanece subdiagnosticada.
Quando iniciar o rastreamento de colesterol em crianças?
O rastreamento ocorre em duas janelas principais: universal e seletiva, conforme diretrizes do National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI) de 2011, endossadas pela American Academy of Pediatrics e pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Rastreamento universal entre 9 e 11 anos
- Perfil lipídico completo (colesterol total, LDL, lipoproteína de alta densidade [HDL], triglicerídeos) entre 9 e 11 anos, independentemente de fatores de risco.
- Repetir entre 17 e 21 anos, mesmo que o primeiro perfil tenha sido normal.
- Não é necessário jejum para dosagem de colesterol total e HDL; LDL calculado e triglicerídeos são mais confiáveis com jejum de 8 a 12 horas.
Rastreamento seletivo a partir dos 2 anos
Indicado quando há pelo menos um dos seguintes critérios:
| Fator de risco | Definição clínica |
|---|---|
| História familiar de dislipidemia | Parente de primeiro ou segundo grau com LDL ≥ 160 mg/dL ou colesterol total ≥ 240 mg/dL |
| Doença cardiovascular prematura na família | Infarto em homem < 55 anos ou mulher < 65 anos |
| Obesidade ou sobrepeso | Índice de massa corporal ≥ percentil 85 com circunferência abdominal aumentada |
| Hipertensão arterial | Pressão arterial ≥ percentil 90 para idade, sexo e estatura |
| Diabetes mellitus tipo 1 ou 2 | Rastrear a partir do diagnóstico |
| Doença renal crônica ou síndrome nefrótica | Causas de dislipidemia secundária |
| Hipotireoidismo | Elevação de colesterol total e LDL |
| Doença inflamatória crônica | Lúpus eritematoso sistêmico, artrite idiopática juvenil |
| Uso de medicações | Corticoides, isotretinoína, antirretrovirais |
| Exposição a tabagismo | Fumo passivo ou ativo |
| Sinais clínicos de dislipidemia familial | Xantomas tendinosos ou tuberosos, arco corneano antes dos 45 anos |
Na prática clínica, o rastreamento seletivo isolado falha em identificar mais de um terço das crianças com LDL elevado que não apresentam nenhum fator de risco documentado. Por isso, o rastreamento universal na idade escolar é a estratégia mais eficaz.
Como interpretar o perfil lipídico pediátrico?
Os valores de referência pediátricos diferem dos adultos. As tabelas abaixo seguem os pontos de corte do NHLBI de 2011, aceitos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e pela Diretriz Brasileira de Dislipidemias na Infância e Adolescência.
Colesterol total, LDL e HDL em mg/dL
| Parâmetro | Aceitável | Limítrofe | Alterado |
|---|---|---|---|
| Colesterol total | < 170 | 170 a 199 | ≥ 200 |
| LDL | < 110 | 110 a 129 | ≥ 130 |
| HDL | > 45 | 40 a 45 | < 40 |
| Não-HDL | < 120 | 120 a 144 | ≥ 145 |
Triglicerídeos em mg/dL conforme faixa etária
| Faixa etária | Aceitável | Limítrofe | Alterado |
|---|---|---|---|
| 0 a 9 anos | < 75 | 75 a 99 | ≥ 100 |
| 10 a 19 anos | < 90 | 90 a 129 | ≥ 130 |
O LDL é o principal alvo terapêutico. Crianças com LDL acima do percentil 95 para idade e sexo, confirmado em duas dosagens com intervalo de 2 semanas a 3 meses, devem ser avaliadas para causas secundárias antes do diagnóstico de dislipidemia primária.
Como calcular o LDL quando triglicerídeos estão elevados?
O LDL é usualmente calculado pela fórmula de Friedewald quando triglicerídeos são inferiores a 400 mg/dL:
LDL = Colesterol total – HDL – (Triglicerídeos ÷ 5)
Quando os triglicerídeos excedem 400 mg/dL, deve-se dosar o LDL diretamente ou utiliza-se o não-HDL como alvo alternativo. O não-HDL tem a vantagem de dispensar jejum e não sofrer interferência de triglicerídeos elevados.
Como avaliar o risco cardiovascular na criança com dislipidemia?
A estratificação de risco norteia a intensidade da intervenção. Na prática pediátrica, existem dois grupos principais que definem as condutas.
Menor risco cardiovascular
Crianças sem história familiar de doença cardiovascular prematura e sem fatores de risco associados, com LDL entre 110 e 129 mg/dL. Para elas, a conduta é orientação dietética e reavaliação em 6 a 12 meses.
Alto risco cardiovascular
Inclui crianças com história familiar de HF ou de evento cardiovascular prematuro, obesidade grave, diabetes, hipertensão ou doença renal crônica. Nesse grupo, LDL ≥ 130 mg/dL já indica intervenção dietética estruturada, e LDL ≥ 160 mg/dL com história familiar positiva ou com um fator de risco maior justifica considerar estatina.
Critérios formais para iniciar tratamento farmacológico
| Situação clínica | Valor de LDL (mg/dL) |
|---|---|
| Sem fatores de risco associados | ≥ 190 |
| Com história familiar de doença cardiovascular prematura ou ≥ 2 fatores de risco | ≥ 160 |
| Com diabetes, doença renal crônica ou HF confirmada | ≥ 130 |
| HF homozigótica | ≥ 110 |
A idade mínima recomendada para início de estatina é 8 anos na HF heterozigótica. Na HF homozigótica, a idade de início pode ser menor e exige manejo em centro especializado, frequentemente com aférese de LDL.
Quais exames complementares estão indicados?
A maioria das crianças não necessita exames além do perfil lipídico. Em situações específicas, a avaliação adicional é útil:
- Lipoproteína(a): dosar em crianças com história familiar de doença cardiovascular prematura, pois níveis elevados constituem fator de risco independente para aterosclerose precoce.
- Apolipoproteína B e não-HDL: equivalentes ao LDL e mais acurados na presença de hipertrigliceridemia.
- Ultrassom de carótidas com medida de espessura médio-intimal: ferramenta de pesquisa, não recomendada de rotina.
- Teste genético para HF: indicado quando a história familiar é forte e o diagnóstico clínico é incerto, ou para cascata de rastreamento familiar.
Não recomenda-se exames de imagem para aterosclerose subclínica na avaliação inicial. O escore de cálcio coronariano e a avaliação de placa por ultrassom carecem de validação pediátrica no manejo de rotina.
Como tratar dislipidemia em crianças?
O tratamento segue uma sequência escalonada, iniciando sempre pela intervenção no estilo de vida. O uso de estatinas exige critérios claros, dosagem ajustada ao peso e monitorização periódica.
Primeira etapa: modificação do estilo de vida
A terapia nutricional é a base e deve envolver toda a família, não apenas a criança. As metas dietéticas seguem princípios da Diet Portfolio adaptados à infância, com redução de gordura saturada para menos de 7% do valor calórico total e colesterol dietético abaixo de 200 mg/dia.
| Recomendação nutricional | Aplicação prática |
|---|---|
| Frutas, verduras e legumes | Mínimo 5 porções ao dia |
| Fibras solúveis | Aveia, cevada, feijões, maçã, cenoura; 10 a 15 g/dia |
| Gorduras insaturadas | Azeite, abacate, castanhas, peixes ricos em ômega-3 |
| Reduzir alimentos ultraprocessados | Refrigerantes, sucos industrializados, biscoitos, salgadinhos |
| Carne vermelha e embutidos | Limitar a 2 porções por semana |
| Leite e derivados | Versões desnatadas após os 2 anos, desde que o crescimento seja adequado |
A atividade física deve ser de 60 minutos ou mais por dia, com intensidade moderada a vigorosa. Reduzir o tempo de tela para menos de 2 horas diárias é meta associada a melhores outcomes. Em crianças com obesidade, uma perda de 5% a 10% do peso já reduz mensuravelmente LDL e triglicerídeos.
Leia mais: Como a exposição prolongada às telas afeta o desenvolvimento infantil?
Quando iniciar estatina na criança?
O tratamento farmacológico está indicado conforme os critérios formais listados, sempre após 6 meses de intervenção dietética estruturada sem resposta adequada. Na HF heterozigótica, devido ao risco elevado de evento coronariano precoce, pode-se iniciar a estatina aos 8 anos mesmo sem tentativa prévia prolongada de dieta.
As estatinas são fármacos de primeira linha. A pravastatina e a lovastatina têm aprovação a partir dos 8 anos, enquanto atorvastatina e rosuvastatina são aprovadas a partir dos 10 anos, com evidências robustas de segurança em seguimento de até 20 anos.
| Estatina | Dose inicial | Dose máxima | Idade mínima |
|---|---|---|---|
| Pravastatina | 10 mg/dia | 20 a 40 mg/dia | 8 anos |
| Lovastatina | 10 a 20 mg/dia | 40 mg/dia | 10 anos |
| Atorvastatina | 5 a 10 mg/dia | 20 mg/dia | 10 anos |
| Rosuvastatina | 5 mg/dia | 20 mg/dia | 10 anos |
A meta terapêutica em crianças é LDL < 130 mg/dL; na HF homozigótica, a meta é LDL < 100 mg/dL. O ajuste de dose ocorre com base na resposta do LDL após 4 a 6 semanas, com incrementos a cada 4 a 12 semanas.
Monitorização durante o uso de estatinas em crianças
- Dosar creatinina quinase (CK), aspartato aminotransferase (AST) e alanina aminotransferase (ALT) antes do início e após 4 a 12 semanas do início ou do ajuste de dose.
- Repetir perfil lipídico, CK e transaminases a cada 6 a 12 meses.
- Orientar a criança e responsável a relatar mialgia, fraqueza ou dor muscular.
- Interromper a estatina temporariamente em doença aguda grave, desidratação ou uso de medicação que interfira no metabolismo da droga.
- Não há necessidade de interromper estatina em adolescentes que iniciam vida sexual, exceto se houver possibilidade de gestação pelo risco teratogênico.
A ezetimiba é opção de segunda linha em crianças com 10 anos ou mais, especialmente na HF homozigótica ou quando a estatina isolada não atinge a meta. Colestiramina, sequestrante de ácidos biliares, caiu em desuso pela baixa tolerância e interações medicamentosas.
Como abordar a hipertrigliceridemia em crianças?
A hipertrigliceridemia pediátrica responde bem à redução de carboidratos refinados e à perda de peso. Triglicerídeos acima de 500 mg/dL em crianças com obesidade ou diabetes indicam risco de pancreatite aguda e podem justificar o uso de fibrato em casos selecionados, sempre com acompanhamento especializado.
Se aprofunde em: Resumo de pancreatite aguda: definição, epidemiologia e mais
Quais são as principais armadilhas no rastreamento e tratamento?
- Rastrear apenas crianças com história familiar. Mais de um terço das crianças com LDL elevado não apresenta fator de risco identificável; o rastreamento universal entre 9 e 11 anos é a única estratégia que cobre essas crianças.
- Não confirmar o resultado em segunda dosagem. LDL elevado em coleta única deve ser confirmado antes de rotular a criança como dislipidêmica.
- Iniciar estatina sem investigar causa secundária. Hipotireoidismo, síndrome nefrótica e diabetes são condições tratáveis que elevam LDL e triglicerídeos.
- Usar valores de referência de adulto. Pontos de corte pediátricos são diferentes e específicos por idade e sexo.
- Atrasar o diagnóstico de HF. Criança com LDL ≥ 190 mg/dL ou LDL ≥ 160 mg/dL com história familiar positiva deve ser encaminhada ao especialista, pois o risco de evento coronariano precoce é alto.
- Negligenciar o rastreamento em cascata. Ao diagnosticar uma criança com HF, os pais e irmãos devem ser testados; em cerca de 50% dos casos, um dos genitores também é afetado.
- Tratar apenas a criança. A adesão à dieta é inviável se a família não modifica o padrão alimentar conjuntamente.
Como incorporar a prevenção cardiovascular na consulta pediátrica?
A consulta de puericultura é o momento oportuno para incorporar a avaliação de risco cardiovascular. Além do perfil lipídico nas janelas recomendadas, a aferição de pressão arterial em toda consulta a partir dos 3 anos, o registro de índice de massa corporal e a investigação de história familiar de dislipidemia ou doença cardiovascular prematura são ações de baixo custo que identificam a criança em risco.
A prevenção precede o rastreamento: aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, introdução alimentar saudável, evitar alimentos ultraprocessados nos primeiros anos e manter a atividade física tornaram-se medidas que reduzem a incidência de obesidade e dislipidemia em longo prazo.
Perguntas frequentes na prática clínica
A partir de que idade é possível dosar colesterol em criança?
O perfil lipídico pode ser dosado a partir dos 2 anos em rastreamento seletivo. Não há indicação de dosagem de rotina antes dessa idade, exceto em suspeita de HF homozigótica, que cursa com LDL acima de 400 mg/dL e xantomas já nos primeiros anos de vida.
Criança com doença cardiovascular em avó aos 70 anos precisa de rastreamento seletivo?
Não. A doença cardiovascular prematura é definida por evento em homem antes dos 55 anos ou mulher antes dos 65 anos. História em avós acima dessas idades não configura fator de risco para rastreamento seletivo. A criança ainda é contemplada pelo rastreamento universal aos 9 anos.
Estatina em criança interfere no crescimento?
Não há evidência de que estatinas afetem crescimento ou desenvolvimento puberal. Estudos de seguimento de longo prazo com pravastatina e atorvastatina em crianças e adolescentes não demonstraram interferência na velocidade de crescimento, maturação sexual ou função cognitiva.
Qual é a conduta para criança com HDL baixo e LDL normal?
HDL baixo isolado, na ausência de obesidade, sedentarismo ou tabagismo passivo, tem significado clínico incerto na infância. A conduta é reforço de atividade física, controle de peso e reavaliação periódica. Não há indicação de tratamento farmacológico para elevar HDL.
Margarina vegetal com fitosteróis é recomendada para crianças?
Pode-se oferecer alimentos enriquecidos com fitosteróis a crianças acima de 5 anos com dislipidemia confirmada, sempre dentro de um plano dietético estruturado. Não recomenda-se para crianças sem dislipidemia, pois não há benefício comprovado na prevenção primária.
Pontos-chave
- O rastreamento universal do perfil lipídico ocorre entre 9 e 11 anos e é repetido entre 17 e 21 anos, independentemente de fatores de risco.
- O rastreamento seletivo a partir dos 2 anos é indicado em crianças com história familiar de dislipidemia, doença cardiovascular prematura, obesidade, hipertensão, diabetes ou doença renal crônica.
- Valores de referência pediátricos diferem dos adultos, dividindo-se em aceitável, limítrofe e alterado para colesterol total, LDL, HDL, não-HDL e triglicerídeos.
- Deve-se confirmar LDL elevado em segunda dosagem antes do diagnóstico de dislipidemia.
- A base do tratamento é a modificação do estilo de vida envolvendo toda a família, com restrição de gordura saturada, aumento de fibras e atividade física diária de 60 minutos.
- Estatina está indicada em crianças a partir dos 8 anos com LDL ≥ 190 mg/dL sem fatores de risco, ou LDL ≥ 160 mg/dL com história familiar de doença cardiovascular prematura ou múltiplos fatores de risco, ou LDL ≥ 130 mg/dL na presença de diabetes, doença renal ou HF.
- Ao diagnosticar dislipidemia familiar, realize rastreamento em cascata dos pais e irmãos; em cerca de 50% dos casos, um dos genitores também é afetado.
- Hipertrigliceridemia grave (> 500 mg/dL) pode exigir fibrato após falha de intervenção dietética, mas responde bem à redução de carboidratos refinados e à perda de peso.
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Referências bibliográficas
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