O pterígio corresponde a uma proliferação fibrovascular da conjuntiva que avança sobre a superfície da córnea, geralmente a partir da região nasal do olho. Embora apresente comportamento benigno, a lesão pode provocar desconforto ocular, inflamação recorrente, alterações refrativas e, em casos mais avançados, comprometimento da acuidade visual.
Além disso, o crescimento do pterígio pode alterar progressivamente a curvatura da córnea. Consequentemente, alguns pacientes desenvolvem astigmatismo e piora da qualidade visual mesmo antes de a lesão atingir diretamente o eixo visual. Por esse motivo, o médico não deve avaliar apenas a extensão anatômica do tecido, mas também sua progressão, os sintomas, a repercussão refrativa e o impacto funcional.
A exposição crônica à radiação ultravioleta (UV) representa o principal fator ambiental relacionado ao desenvolvimento do pterígio. Por isso, pessoas que trabalham ou permanecem longos períodos ao ar livre apresentam maior risco, especialmente em regiões tropicais e com elevada incidência solar.
O que é pterígio?
O pterígio consiste no crescimento de tecido conjuntival fibrovascular em direção à córnea. Frequentemente, ele apresenta formato triangular, com a base voltada para a conjuntiva e o ápice direcionado ao centro da córnea.

Na maior parte dos pacientes, a alteração surge no lado nasal. Entretanto, alguns indivíduos desenvolvem pterígio temporal ou apresentam lesões nos dois lados da córnea.
Do ponto de vista clínico, o pterígio pode permanecer pequeno e relativamente estável durante anos. Por outro lado, algumas lesões apresentam maior vascularização, inflamação e velocidade de crescimento. Nesses casos, o acompanhamento oftalmológico ganha ainda mais importância.
Além disso, apesar de o pterígio não corresponder a um tumor maligno, outras alterações da superfície ocular podem apresentar aspecto semelhante. Portanto, o médico deve avaliar características atípicas e considerar diagnósticos diferenciais durante o exame oftalmológico.
Quais são as causas do pterígio?
A literatura relaciona o desenvolvimento do pterígio principalmente à exposição ambiental acumulada. Nesse contexto, a radiação ultravioleta ocupa papel central na fisiopatologia da doença.
A exposição repetida à radiação UV pode promover alterações na superfície ocular, além de estimular processos inflamatórios, proliferação celular, remodelamento da matriz extracelular e crescimento fibrovascular. Consequentemente, indivíduos com exposição solar intensa ao longo dos anos apresentam maior probabilidade de desenvolver a lesão.
Além disso, fatores ambientais que irritam continuamente a superfície ocular podem contribuir para o processo inflamatório local. Entretanto, a relação com esses fatores não apresenta a mesma consistência observada para a exposição ultravioleta.
Radiação ultravioleta e exposição solar
A associação entre pterígio e exposição solar aparece de forma consistente em estudos epidemiológicos. Além disso, a prevalência varia significativamente entre diferentes regiões geográficas e pode alcançar valores mais elevados em populações que vivem em áreas tropicais.
Um estudo caso-controle que avaliou trabalhadores expostos ao ambiente externo encontrou associação significativa entre trabalho ao ar livre e pterígio. Portanto, a exposição ocupacional à luz solar merece atenção durante a avaliação clínica e durante a orientação preventiva.
Entre os principais fatores associados ao desenvolvimento do pterígio, destacam-se:
- Exposição frequente à radiação ultravioleta
- Trabalho prolongado ao ar livre
- Maior tempo acumulado de exposição solar durante a vida
- Residência em regiões tropicais ou com alta incidência solar
- Ausência de proteção ocular adequada contra radiação UV
- Idade mais avançada
- Exposição frequente a ambientes que irritam a superfície ocular
Portanto, a anamnese deve incluir informações sobre atividade profissional, exposição ao sol, hábitos de proteção ocular e tempo de evolução da alteração.
Quais são os sintomas do pterígio?
A apresentação clínica varia bastante. Enquanto alguns pacientes percebem apenas uma alteração estética, outros relatam desconforto frequente ou redução progressiva da qualidade visual.
Inicialmente, o paciente pode observar uma pequena membrana ou área avermelhada que cresce em direção à córnea. Além disso, episódios de inflamação podem aumentar a hiperemia e tornar a lesão mais perceptível.
Entre as manifestações mais comuns, o paciente pode apresentar:
- Vermelhidão ocular
- Sensação de corpo estranho
- Ardência
- Irritação
- Lacrimejamento
- Ressecamento ou desconforto ocular
- Alteração estética
- Visão borrada
- Mudanças no grau dos óculos
- Astigmatismo induzido pelo pterígio
Entretanto, a intensidade dos sintomas não acompanha necessariamente o tamanho da lesão. Um pterígio relativamente pequeno e inflamado, por exemplo, pode gerar sintomas importantes. Por outro lado, uma lesão maior pode apresentar poucos sintomas irritativos, mas provocar alterações significativas na topografia da córnea.
Como o pterígio interfere na visão?
O pterígio pode comprometer a qualidade visual por diferentes mecanismos.
Primeiramente, conforme o tecido avança sobre a córnea, ele pode modificar sua curvatura. Como consequência, o paciente pode desenvolver astigmatismo ou aumentar um astigmatismo preexistente.
Além disso, lesões maiores podem causar irregularidade da superfície corneana. Consequentemente, a refração pode sofrer alterações, e o paciente pode perceber piora da nitidez visual.
Estudos com topografia corneana demonstram relação entre pterígio, astigmatismo e alterações da regularidade da superfície corneana. Além disso, pesquisas que acompanharam pacientes após a cirurgia observaram melhora de parâmetros topográficos e da acuidade visual em determinados grupos.
Por fim, quando a lesão cresce em direção ao eixo visual, ela pode provocar comprometimento ainda mais importante da visão. Portanto, o médico deve observar a distância entre a cabeça do pterígio e o centro da córnea durante o acompanhamento.
Como diagnosticar o pterígio?
O oftalmologista estabelece o diagnóstico principalmente a partir da história clínica e do exame ocular.
Durante a avaliação, o médico analisa a localização, o tamanho, a vascularização, o aspecto do tecido, o grau de inflamação e a extensão da lesão sobre a córnea. Além disso, comparar exames realizados em diferentes momentos permite identificar crescimento progressivo.
Dependendo do quadro, o oftalmologista também pode avaliar:
- Acuidade visual
- Refração
- Grau de astigmatismo
- Biomicroscopia na lâmpada de fenda
- Topografia ou tomografia corneana
- Extensão do pterígio sobre a córnea
- Mobilidade ocular
- Presença de alterações suspeitas na superfície ocular
Além disso, documentação fotográfica pode ajudar a acompanhar a progressão da lesão.
Quais são os principais diagnósticos diferenciais?
Embora o aspecto típico facilite o diagnóstico, algumas condições da superfície ocular podem simular características do pterígio.
Entre elas, o médico deve considerar pinguecula, pannus corneano, alterações inflamatórias e determinadas lesões neoplásicas ou pré-neoplásicas da conjuntiva.
Por isso, lesões com aparência atípica, crescimento incomum, características suspeitas ou localização pouco habitual exigem avaliação oftalmológica detalhada.
Todo paciente com pterígio precisa de cirurgia?
Não. Na realidade, muitos pacientes permanecem em acompanhamento clínico durante longos períodos sem necessidade de procedimento cirúrgico.
Quando o pterígio apresenta pequeno tamanho, pouca progressão e ausência de prejuízo visual significativo, o oftalmologista pode optar pelo acompanhamento periódico.
Além disso, o tratamento clínico pode controlar sintomas relacionados à irritação da superfície ocular. Entretanto, medicamentos não eliminam o tecido fibrovascular nem revertem o crescimento já estabelecido.
Tratamento clínico do pterígio
O manejo conservador busca principalmente reduzir desconforto e inflamação.
De acordo com o quadro clínico, o médico pode considerar medidas como:
- Lubrificação da superfície ocular
- Controle de fatores que aumentam a irritação ocular
- Proteção adequada contra radiação ultravioleta
- Acompanhamento da progressão da lesão
- Tratamento oftalmológico dos episódios inflamatórios quando necessário
Em alguns pacientes com inflamação importante, o oftalmologista pode utilizar medicamentos tópicos por períodos específicos. Contudo, a escolha do medicamento e o tempo de uso dependem da avaliação individual, principalmente porque determinados colírios exigem controle médico.
Portanto, o tratamento clínico controla sintomas, enquanto o acompanhamento identifica possíveis mudanças na extensão ou no comportamento da lesão.
Quando indicar cirurgia para pterígio?
A presença do pterígio, isoladamente, não determina a necessidade de cirurgia. Em vez disso, o oftalmologista considera o conjunto de alterações anatômicas, funcionais e sintomáticas.
Entre os principais cenários que podem levar à indicação cirúrgica, destacam-se:
- Crescimento progressivo em direção ao eixo visual
- Comprometimento ou ameaça ao eixo visual
- Redução da acuidade visual relacionada ao pterígio
- Astigmatismo significativo induzido pela lesão
- Alteração progressiva da curvatura corneana
- Irritação persistente apesar do tratamento clínico adequado
- Restrição da motilidade ocular
- Alteração estética importante após discussão individual dos riscos e benefícios
O UpToDate destaca principalmente a progressão da lesão, o impacto sobre a visão e os sintomas relevantes durante a decisão terapêutica. Da mesma forma, a American Academy of Ophthalmology inclui irritação persistente, crescimento progressivo, alteração visual provocada por astigmatismo e comprometimento da motilidade ocular entre os critérios que favorecem a cirurgia.
Crescimento em direção ao eixo visual
A progressão em direção ao centro da córnea representa um dos critérios mais relevantes.
Isso acontece porque lesões maiores tendem a exercer impacto crescente sobre a curvatura corneana. Além disso, esperar até que o tecido alcance o eixo visual pode aumentar a repercussão funcional.
Portanto, o médico deve acompanhar a velocidade de crescimento, e não apenas verificar se o pterígio já alcançou o centro da córnea. Na imagem abaixo observa-se o pterígio estendendo-se ao longo do eixo visual:

Astigmatismo e queda da qualidade visual
Mesmo sem atingir o eixo visual, o pterígio pode alterar a topografia corneana.
Consequentemente, pacientes com astigmatismo progressivo, irregularidade corneana ou perda de acuidade visual relacionada à lesão podem apresentar benefício com a abordagem cirúrgica.
Além disso, estudos mostram redução do astigmatismo e melhora de determinados parâmetros visuais depois da retirada do pterígio em grupos selecionados.
Sintomas persistentes
Alguns pacientes mantêm sensação de corpo estranho, hiperemia ou irritação apesar do tratamento clínico adequado.
Nesse cenário, o médico deve avaliar outros fatores que também podem causar sintomas de superfície ocular. Entretanto, quando a avaliação relaciona claramente os sintomas ao pterígio e o tratamento conservador não proporciona controle satisfatório, a cirurgia pode representar uma alternativa.
Indicação por motivo estético
A alteração estética também pode gerar incômodo importante para determinados pacientes.
Contudo, como qualquer procedimento cirúrgico, a retirada do pterígio envolve riscos e possibilidade de recorrência. Portanto, médico e paciente devem discutir expectativas, benefícios e limitações antes de optar pelo procedimento apenas por razões cosméticas.
Como funciona a cirurgia de pterígio?
A cirurgia busca remover o tecido fibrovascular que cresce sobre a córnea e reduzir a probabilidade de recorrência.
Atualmente, técnicas que associam a retirada do pterígio ao autoenxerto conjuntival ocupam papel importante no tratamento cirúrgico. Nesse procedimento, o cirurgião utiliza tecido conjuntival do próprio paciente para recobrir a região após a retirada da lesão.
Além disso, algumas situações específicas permitem o uso de membrana amniótica. Entretanto, ensaios clínicos encontraram taxas de recorrência maiores com membrana amniótica do que com autoenxerto conjuntival em determinados grupos de pacientes.
Por outro lado, técnicas que deixam grande área de esclera exposta após a retirada do pterígio apresentam maior risco de recorrência. Por isso, a escolha da técnica cirúrgica influencia diretamente o resultado em longo prazo.
O cirurgião também pode considerar agentes adjuvantes em situações específicas. Entretanto, esses recursos exigem seleção criteriosa devido ao potencial de complicações.
O pterígio pode voltar depois da cirurgia?
Sim. A recorrência representa uma das principais preocupações após o tratamento cirúrgico.
Por isso, a escolha da técnica, o manejo adequado do tecido e o acompanhamento pós-operatório exercem papel importante nos resultados.
Além disso, pterígios recorrentes podem apresentar comportamento fibrovascular mais intenso. Consequentemente, uma nova abordagem cirúrgica pode exigir planejamento mais complexo.
Ensaios clínicos demonstram que técnicas com autoenxerto conjuntival conseguem reduzir a recorrência em comparação com abordagens menos eficazes em determinados contextos. Entretanto, nenhum procedimento elimina completamente esse risco.
Como prevenir o pterígio?
Como a exposição ultravioleta representa o principal fator ambiental modificável, a prevenção deve priorizar proteção ocular adequada.
Nesse sentido, o paciente pode adotar medidas simples no cotidiano:
- Utilizar óculos de sol com proteção adequada contra radiação UV
- Usar chapéus ou bonés que reduzam a exposição direta dos olhos ao sol
- Reforçar a proteção durante atividades profissionais ao ar livre
- Evitar exposição solar desnecessária durante períodos de alta radiação
- Utilizar equipamentos de proteção adequados em ambientes com poeira e partículas irritantes
- Manter acompanhamento oftalmológico quando já existe pterígio
Além disso, pessoas que trabalham ao ar livre merecem atenção especial, já que estudos epidemiológicos demonstram associação entre exposição ocupacional externa e maior ocorrência de pterígio.
Portanto, medidas de proteção não tratam uma lesão já formada, mas podem reduzir a exposição aos principais fatores ambientais relacionados ao seu desenvolvimento e progressão.
Quando o paciente com pterígio deve procurar um oftalmologista?
O paciente deve procurar avaliação oftalmológica quando percebe crescimento de tecido sobre a córnea, principalmente quando observa progressão, sintomas persistentes ou alterações visuais.
Além disso, a consulta ganha maior importância diante de:
- Crescimento perceptível da lesão
- Piora da visão
- Mudanças frequentes no grau dos óculos
- Irritação ocular persistente
- Inflamação recorrente
- Dificuldade para movimentar o olho
- Alterações incomuns na aparência da lesão
Nesse contexto, o acompanhamento permite diferenciar pterígios estáveis de lesões progressivas e, consequentemente, ajuda o médico a escolher o momento adequado para intervir.
Referências bibliográficas
- JACOBS, Deborah S. Pterygium. In: UpToDate. Waltham: UpToDate, 2026. Revisão da literatura atualizada até jun. 2026. Conteúdo atualizado em 12 maio 2026. Acesso em: 11 ago. 2026.
