A Primavera é a estação do ano que tira os animais da toca e coincide com o aparecimento das folhas e flores nas árvores. É também a época que as pessoas voltam a circular mais na rua, com a despedida do frio. Esse período de transição é propício para o aumento da exposição a pólen, poeira, perfumes, fumaça de cigarro, poluição e outros agentes com que não se tinha contato dentro de casa. Essas substâncias, especialmente o pólen, atacam a mucosa das vias aéreas e provocam as crises alérgicas.

As doenças alérgicas são muito comuns na faixa etária pediátrica, com prevalência de asma, rinite e eczema atópico. O diagnóstico da maioria das doenças é eminentemente clínico, baseado na história clínica e no exame físico do paciente. Além do diagnóstico, esses dois passos da consulta médica são essenciais na semiologia de crianças alérgicas para identificar os possíveis fatores desencadeantes, estabelecer a gravidade e orientar a família sobre o tratamento das reações alérgicas.
A Asma é uma doença crônica caracterizada pela obstrução reversível ao fluxo aéreo, hiper-reatividade brônquica e inflamação das vias respiratórias. A anamnese detalhada, alterações típicas ao exame físico e avaliações laboratoriais podem ser úteis para o diagnóstico. As queixas da asma são episódicas, desencadeadas por exercícios físicos, infecções respiratórias ou exposição à alérgenos. São fatores de risco da doença:
o Sexo masculino
o Presença de história familiar
o Presença de atopia
o Nascimento por parto cesariano
o Exposição pré-natal ao tabaco
o Nascimento prematuro
o Falta de aleitamento materno exclusivo
o Exposição passiva à fumaça de tabaco
o Infecções virais
o Exposição à alérgenos no domicílio

Conforme a faixa etária, a asma pode ser desencadeada ou agravada por múltiplos fatores. Nos lactentes e crianças menores, por exemplo, as infecções das vias respiratórias superiores são importantes desencadeantes de crises, bem como crianças maiores e adolescentes apresentam maior risco de crise com alérgenos inaláveis e mudanças bruscas de temperatura. As crises episódicas são manifestadas por:
- Episódios de tosse
- Dispneia
- Sibilos
- Aperto ou dor no peito
- Dificuldade de fala
- Vômitos
- Alterações do nível de consciência
É fundamental a classificação de gravidade e de controle da asma, frequência de sintomas, orientação sobre o uso correto da medicação de alívio e limitações físicas para determinar o melhor tratamento. A terapia é feita com agentes broncodilatadores e com investigação de fatores etiológicos e/ou desencadeadores das crises.
A Rinite Alérgica (RA) é causada pela inflamação da mucosa do revestimento nasal, mediada por anticorpos IgE após a exposição a alérgenos. Ela é a doença alérgica de maior prevalência na criança e no adulto. A pesquisa dos fatores desencadeantes das crises é importante e deve incluir agentes infecciosos, alérgenos potenciais e doenças que cursam em associação à RA, como otite média e polipose nasal.
A anamnese deve investigar a presença, duração e frequência dos sintomas, assim como seu impacto na qualidade de vida do paciente. Deve-se interrogar a presença de sazonalidade dos sintomas. O tratamento é feito com corticoides, anti-histamínicos, evicção de alérgenos e imunoterapia específica se for necessário. Os sintomas clássicos da rinite alérgica são:
- Episódios recorrentes de prurido
- Espirros
- Coriza: pode causar fungação ou pigarro
- Obstrução nasal uni ou bilateral
- Infecções de repetição
- Sensação de ouvido tapado
- Tosse crônica
- Anorexia
- Fadiga
- Rinoconjuntivite
- Hiperemia
- ‘’Saudação alérgica’’: movimento de coçar o nariz no sentido vertical causa uma marca linear no nariz


A Dermatite Atópica (DA) é uma doença inflamatória crônica da pele caracterizada por prurido cutâneo intenso e lesões cutâneas recorrentes. A idade de início, a frequência de aparecimento dos sintomas e fatores de piora são informações importantes para estabelecer um plano de tratamento desses pacientes. As características e a localização das lesões modificam-se com a idade:
- Infância: lesões exsudativas e as vezes crostrosas na face e couro cabeludo
- Pré-escolar e escolar: lesões menos exsudativas com tendência a liquenificação nas regiões flexurais
- Puberdade e vida adulta: xerose (pele seca) apresenta-se em áreas de flexão como mãos e pés
A Urticária e o Angioedema são manifestações cutâneas comuns a vários tipos de doenças alérgicas. De acordo com sua duração, ela pode ser classificada em aguda (até 6 semanas de duração) ou crônica (mais de 6 semanas). As lesões urticarianas se limitam à derme superficial e se apresentam como pápulas eritematosas bem-delimitadas e geralmente com prurido intenso e distribuição universal. Elas são resultado do extravasamento de líquido de pequenos vasos para a derme. Quando há o acometimento do tecido celular subcutâneo, há o desenvolvimento de edema subcutâneo (denominando o quadro angioedema), que não é pruriginoso e raramente é doloroso.
Na avaliação do paciente com urticária e/ou angioedema, deve-se ter informações sobre a ingestão recente de alimentos e medicamentos, realização de exames ou picadas de insetos. Além das causas relacionadas com os episódios agudos, há que se avaliar a possibilidade de fenômenos de auto-imunidade, neoplasias e fatores emocionais. O anti-histamínico H1 não sedativo é o tratamento de primeira linha por 2-4 semanas e os meios não farmacoterapêuticos para minimizar a pele hiper-responsiva também são importantes e recomendados, como a prevenção da secagem da pele, a prevenção do banho quente, a lavagem das áreas afetadas e a exposição excessiva ao sol.
A Dermatite de contato é uma doença com predominância em adultos, mas pode se manifestar em crianças. Ela é caracterizada pela presença de lesões eczematosas desenvolvidas por contato direto com o agente causador. Essas lesões são limitadas aos locais de exposição.
A Alergia Ocular está muito associada à rinite alérgica, mas pode se desenvolver de forma isolada. Ela acomete principalmente indivíduos que utilizam lentes de contato e em regiões de clima temperado. As manifestações são: hiperemia ocular uni ou bilateral, lacrimejamento e prurido intenso.

A Anafilaxia é uma reação sistêmica aguda grave que acomete vários órgãos e sistemas simultaneamente que exige atendimento médico emergencial para revertê-la. Ela é determinada pela atividade de mediadores liberados por mastócitos e basófilos, estimulados diante da presença de um antígeno ‘’nocivo’’ para o organismo (houve sensibilização prévia). Os principais agentes são medicamentos, agentes diagnósticos, alimentos e veneno de insetos.
A intensidade da liberação destas substâncias e a sensibilidade individual determinam a repercussão clínica do fenômeno, podendo levar à óbito. O quadro clínico é caracterizado por comprometimento dos aparelhos respiratórios, cardiovascular, sistema nervoso e trato gastrointestinal. A base para o sucesso no tratamento de um episódio agudo de anafilaxia é a rapidez das ações. Para isso, é necessário que o médico e a equipe de emergência estejam familiarizados com a identificação dos primeiros sinais e sintomas dessa condição e com os procedimentos terapêuticos para controlá-la. A imediata intervenção para o acesso às vias aéreas e à circulação, com o objetivo principal da manutenção adequada dos sinais vitais, é o primeiro passo na conduta emergencial. Desta forma, o médico deve necessariamente:
1. Manter as vias aéreas pérvias
2. Avaliar os sinais vitais
3. Administrar adrenalina
4. Oxigenioterapia
5. Manter o paciente em posição supina com elevação dos pés
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
1. Ng ML, Warlow RS, Chrishanthan N, et al. Preliminary criteria for the definition of allergic rhinitis: a systematic evaluation of clinical parameters in a disease cohort (I). Clin Exp Allergy 2000; 30:1314.
2. Shazo, RD, KEMP SF. Pathogenesis of allergic rhinitis (rhinosinusitis). UpToDate. Apr 09, 2021
3. Shazo, RD, KEMP SF. Patient education: Trigger avoidance in allergic rhinitis (Beyond the Basics). UpToDate. Jan 20, 2020.4. Correia Junior MA, Sarinho ES, Rizzo JA, Sarinho SW. Lower prevalence and greater severity of asthma in hot and dry climate. J Pediatr (Rio J). 2017 Mar-Apr;93(2):148-155. doi: 10.1016/j.jped.2016.05.006. Epub 2016 Aug 5. PMID: 27500595.