Recentemente, no início do mês de maio, o país mais vacinado do mundo, as Ilhas Seychelles, sofreu com um grande aumento de casos de coronavírus, e isso ocorreu mesmo após cerca de 60% da população já ter sido totalmente imunizada.
Esse fato tem sido utilizado por algumas pessoas que duvidam da eficácia das vacinas, mas deveria ser observado um pouco mais a fundo antes de se chegar a qualquer conclusão.
Histórico das Ilhas Seychelles durante a pandemia
Talvez você nunca tenha ouvido falar do pequeno arquipélago das Ilhas Seychelles, um pequeno e paradisíaco país localizado ao leste da África, no meio do oceano Índico, com uma população de quase 100 mil pessoas.
Esse pequeno país está entre os mais ricos da África e tem no turismo sua principal fonte de renda, e, como você pode imaginar, foi fortemente afetado pela pandemia. A necessidade de turistas de ter alguma fonte de renda foi um dos motivos que geraram essa grande agilidade na vacinação da sua população. O início da imunização aconteceu com doses da vacina chinesa Sinopharm, doadas pelos Emirados Árabes Unidos, e depois foram utilizadas também doses da AstraZeneca.
Contudo, mesmo com 70% da população tendo recebido alguma dose da vacina e 63% da população totalmente vacinada, o país vivenciou um grande aumento do número de casos de COVID-19. Foram detectados cerca de 400 novos casos ao dia no mês de maio, um grande crescimento em comparação ao mês de abril, no qual foram registrados cerca de 50 novos casos por dia. O que levou o país a retornar com medidas restritivas para conter o avanço da doença.
Causas para o aumento de casos
Existem algumas explicações para esse crescimento repentino de infecções, primeiramente o fato de a população ter baixado sua guarda. Isto ocorreu porque nos meses anteriores, especialmente durante todo o ano de 2020, a população viu poucas pessoas sendo infectadas, estas que chegavam a ser infectadas não desenvolviam casos mais sérios, não chegavam a ter complicações e foram raros os casos de morte. Isso levou a que a população não visse problemas em realizar reuniões sem tomar as devidas precauções.
Há também a reabertura do país para o turismo. Como foi dito anteriormente, as Ilhas Seychelles dependem do turismo para ter receita, então, após a queda do número de infecções, houve um grande crescimento do número de visitantes ao país, chegando a 14 mil pessoas. Esses visitantes tinham que apresentar um teste negativo para Covid, e também existiam restrições para certos países, mas não havia necessidade de quarentena. Esses turistas podem ter sido vias de transmissão da doença de seus países de origem, especialmente por não existir uma quarentena prévia para a entrada no país, o que também contribui para um aumento nos casos.
Outro fator crucial, que é mais difícil inclusive de ser previsto, foi o surgimento de uma variante sul-africana que chegou as Seychelles. E a vacina de Oxford-AstraZeneca, responsável por mais de 40% das vacinações das ilhas, mostrou que tem uma proteção menor contra esta variante, especialmente contra casos mais leves e moderados da doença.
O levantamento das medidas restritivas no país foi mais um dos inúmeros fatores que contribuíram para esse crescimento repentino nas infecções. Devido ao estágio avançado da vacinação no país, o governo acreditou que o problema já tinha passado, e realizou uma grande redução das medidas restritivas, a exemplo da reabertura de restaurantes e escolas.
Esse problema é similar ao ocorrido no Chile; o país com a maior velocidade de vacinação também enfrentou um grande aumento no número de casos após uma reabertura que alguns consideraram rápida e também um relaxamento da população. E esta reabertura acabou por levar a um aumento do contato da população e por consequência do contágio, também devido ao fato de que as principais vacinas utilizadas no país, a Sinopharm e AstraZeneca, não são 100% eficazes contra a COVID-19, ambas ainda permitem que as pessoas desenvolvam quadros da doenças, especialmente as mais leves, o que ainda permite que as pessoas continuem sendo pontos de contágio e transmissão mesmo após vacinadas, ainda que o risco de complicações e morte tenda a zero após a vacinação.
Como foi dito anteriormente, a taxa de proteção reduzida das vacinas também foi um dos diversos fatores que contribuíram para a continuação das infecções, especialmente após o surgimento da variante sul-africana, contra a qual a vacina AstraZeneca demonstrou ter apenas uma proteção mínima contra sua forma leve e moderada.
Conclusão
Diante desses fatores conclui-se que o crescimento das infecções por COVID-19 nas Ilhas Seychelles, mesmo sendo o país com o melhor nível de vacinação no mundo, não é decorrente de um único fator, sendo consequência de pelo menos: descuido por parte da população, reabertura do país para o turismo, surgimento de uma variante mais resistente a vacina, levantamento rápido das medidas restritivas e, por fim, da menor taxa de proteção das vacinas.
É importante ressaltar que, das pessoas contaminadas durante este pico, dois terços tiveram apenas sintomas leves ou até mesmo não sentiram nada, apenas testaram positivo; daqueles que precisaram de algum nível de atendimento hospitalar, cerca de 80% eram pessoas que ainda não tinham sido vacinadas – o que fala favor da vacinação da população, uma vez que, mesmo durante essa onda de contágio, as pessoas que tiveram acesso à vacina precisaram de menos atendimentos em hospitais e tiveram menos sintomas, demonstrando a capacidade das vacinas de evitarem infecções mais graves.
De toda forma, o ocorrido nas Ilhas Seychelles mostra que vacinas não são uma solução mágica, o coronavírus não irá simplesmente desaparecer instantaneamente após vacinarmos a todos, a vida irá gradativamente voltando ao normal, e não de forma súbita.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Restrictions return in Seychelles, forcing schools to close, ban on sports, groups- http://www.seychellesnewsagency.com/articles/14781/Restrictions+return+in+Seychelles%2C+forcing+schools+to+close%2C+ban+on+sports%2C+groups
The Seychelles is 60% vaccinated, but still infections are rising. That’s not as bad as it sounds- https://edition.cnn.com/2021/05/14/africa/seychelles-covid-vaccination-infection-intl-hnk-dst/index.html
Covid: por que Seychelles, país mais vacinado no mundo, registra aumento de casos de coronavírus- https://www.bbc.com/portuguese/geral-57207566
Por que o país que mais vacinou no mundo teve aumento de casos de Covid?- https://veja.abril.com.br/saude/por-que-o-pais-que-mais-vacinou-no-mundo-teve-aumento-de-casos-de-covid/
Covid: por que Seychelles, país mais vacinado no mundo, registra aumento de casos de coronavírus- https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/05/24/covid-por-que-seychelles-pais-mais-vacinado-no-mundo-registra-aumento-de-casos-de-coronavirus.ghtml
Covid-19 avança nas ilhas Seychelles, país mais vacinado do mundo- https://www.infomoney.com.br/economia/covid-19-avanca-nas-ilhas-seychelles-pais-mais-vacinado-do-mundo/