Definição
Segundo a definição do Simpósio Internacional de Atlanta, 1992: pancreatite aguda (PA) nada mais é que um processo agudo inflamatório do pâncreas, com acometimento variável das estruturas peripancreaticas e órgãos à distância.
Na qual essa pode produzir um abdome agudo inflamatório, tendo alta letalidade (na forma grave), patogênese não completamente conhecida e pode causar SIRS.
Principais causas de pancreatite aguda:
As principais causas em orem decrescente de pancreatite são de causa biliar, alcoólica, medicamentosa e idiopática. Segue a seguir na figura 1 as outras causas menos comuns de pancreatite:
*OBS.: adicionada a tabela aranha marrom, como causa de pancreatite aguda por animal peçonhento.
Quadro clínico
Dor insidiosa, de caráter progressivo durante 1– 2horas, exacerbada pelo decúbito dorsal e aliviada pelo sentar-se, irradiação provoca dor epigástrica, acompanhando os rebordos costais até o dorso (em linha reta ou em faixa).
Manifestações clinicas polimórficas: náuseas, vômitos, distensão abdominal ou parada na eliminação de gases e fezes (íleo paralitico), paciente inquieto. Pode-se apresentar ao exame físico equimose periumbilical (sinal de Cullen), equimose em flancos (sinal de Grey Turner), sinal de Fox (Equimose em região inguinal e base do pênis), murmúrio vesicular diminuído nas bases pulmonares, massas abdominais, defesa de parede na palpação abdominal superior.
Figura 2: Sinais de Grey Tuner e Cullen.

Diagnóstico
Critérios diagnostico: Dois ou mais dos itens a seguir:
- Clínica: ANAMNESE e EXAME FÍSICO: dor em faixa + náuseas e vômitos + SIRS (febre, taquicardia, taquipneia, hipotensão, dessaturação, oliguria, rebaixamento nível de consciência);
- EXAME LABORATORIAL: elevação das enzimas pancreáticas > 3x o limite superior normal (lipase e amilase);
- IMAGEM: tomografia= edema do pâncreas, borramento gordura peripancreatica; pode visualizar ainda complicações como coleções liquidas/liquido livre e necrose;
Figura 4: Relação dos marcadores séricos da PA (amilase e lipase) e alguns diagnósticos diferenciais.
Amilase sérica: A dosagem de amilase sérica maior que 3 vezes ao limite superior da normalidade, ocorre geralmente em 2 a 12 horas após início dos sintomas, e pode durar 3 a 6 dias após o início, seus níveis normalizam. Ela é mais associada à pancreatite biliar, e o seu grau de elevação não faz paralelo com gravidade do episódio agudo. Se permanecer elevada após uma semana, sugere-se presença de inflamação ou complicação.
Lipase sérica: Aumenta junto com a amilase, porém permanece elevada quando os níveis de amilase se normalizam. Ajuda no diagnóstico após dias do início do quadro. Mais associada a pancreatite alcoólica. Pouco sensível muito específica.
Laboratorial: Hemograma Completo = ↑ Hematócrito (> 44%); ↑ Hemoglobina;
↑ Leucócitos (Desvio a esquerda – 15.000 a 20.000/ml); Trombocitopenia; ↑ Glicemia;
↑ Bilirrubinas Séricas (> 4mg/dl) – obstrução mecânica; ↑ Creatinina e ureia séricas;
↓ Albumina Sérica; ↓ Cálcio; Mediadores inflamatórios refletem a gravidade do ataque.
Hipertrigliceridemia; Alcalose metabólica hipoclorêmica.
Imagem:
- RAIO X: pouco útil, porem pode apresentar: derrame pleural à esquerda, alça sentinela, sinal do Cut Off colônico (A inflamação da pancreatite faz com que a ação das enzimas no retroperitônio promova um espasmo da flexura colônica com distensão segmentar, geralmente do transverso) e o sinal de Gobiet (distensão do transverso);
- USG: edema, inflamação, calcificações, pseudocistos, lesões expansivas além de visualizar cálculos biliares (identificando a etiologia).
- TC: Melhor exame para estudar o pâncreas, revela: edema mínimo, edema de maior volume, coleções líquidas, hemorragias, necrose, etc. Avalia com eficácia as complicações da pancreatite, como abscesso ou pseudocisto.
- CPRE: permite a visualização do sistema ducto pancreático – biliar.
- COLANGIOPANCREATOGRAFIA COM RM: excelente imagem do ducto pancreático não –invasivo.
Classificação da pancreatite aguda
Forma clínica:
- Pancreatite aguda edematosa: apresenta edema focal ou difuso, podendo apresentar liquido Peri pancreático.
- Pancreatite aguda necrotizante: ocorre pancreático ou dos tecidos subjacentes.
Complicações:
- Locais: inflamação local, persistindo nas dores locais. Coleções liquidas, locais, ou tecido necrótico agudo ou encapsulado.
- Sistêmicos: falência orgânica secundaria a inflamação ou piora de doenças pré-existentes por conta da SIRS.
Gravidade:
- Pancreatite leve: sem alterações orgânicas e sem complicações.
- Pancreatite moderada: apresenta disfunção orgânica <48h, podendo ter ou não complicações.
- Pancreatite grave: apresenta disfunção orgânica >48h, com envolvimento de um ou mais órgãos.
Critérios de gravidade:
A seguir estão os principais escores utilizados na pancreatite aguda.
Figura 5: Critérios para diagnostico de SIRS.
Figura 6: escore de Marshall classifica disfunção orgânica
*Obs.: Uma pontuação ≥ 2 sugere presença de disfunção orgânica, classificada em transitória (resolução em < 48 horas) ou persistente (mantém-se por > 48 horas)
Figura 7: Critérios de Ranson, apresentando ≥ 3 pontos é classificada PA grave.
*Obs.: Os critérios de Ranson podem ser interpretados de acordo com a pontuação, sendo 0 e 2 representa 2% de mortalidade, 3 e 4, apresenta 15% de mortalidade, entre 5 e 6 aumenta para 40% e por fim entre 7 e 8 pontos podendo chegar a até 100% de mortalidade
Figura 8: critérios de Apache II
*Obs.: apresentando escore ≥ 8 é considerado PA grave.
Autor: Vitor Boutros Carvalho – @vitorboutros
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Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Velasco IT, Brandão Neto RA, Souza HP de, Marino LO, Marchini JFM, Alencar JCG de. Medicina de emergência: abordagem prática. 2019;
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M Carneiro, Márcio Cavalcante e Siqueira-Batista, RodrigoO mosaico patogênico da pancreatite aguda grave. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões [online]. 2004, v. 31, n. 6 [Acessado 16 Setembro 2021] , pp. 391-397. Disponível em:
Coelho BFL, Murad LS, Bragança RD. Manual de Urgências e Emergências. Rede de Ensino Terzi, 2020, acessível em: https://blog.curem.com.br/topicos/cirurgia-geral/manifestacoes-clinicas-diagnostico-e-manejo-da-pancreatite-aguda/
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FERREIRA, Alexandre de Figueiredo et al. ACUTE PANCREATITIS GRAVITY PREDICTIVE FACTORS: WHICH AND WHEN TO USE THEM?. ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo) [online]. 2015, v. 28, n. 3 [Acessado 16 Setembro 2021] , pp. 207-211. Disponível em:
Coelho BFL, Murad LS, Bragança RD. Manual de Urgências e Emergências. Rede de Ensino Terzi, 2020 Acessivel em: https://blog.curem.com.br/topicos/medicina-de-emergencia/classificacao-de-gravidade-da-pancreatite-aguda-na-emergencia/