O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno que reúne uma série de sintomas, os quais variam em grau de acordo com cada indivíduo. Em geral, há dificuldades na linguagem e interações sociais, sendo que os tratamentos se orientam na busca por estimular habilidades comunicativas e sociais para maior integração na sociedade.
A utilização das artes, em especial as artes visuais, tem se mostrado importante nesse desenvolvimento cognitivo, social e linguístico, uma vez que explora a integração sensorial do indivíduo, assim como o deixa livre para se expressar. A seguir, serão abordados aspectos do TEA e como intervenções artísticas podem ter função terapêutica e serem trabalhadas interdisciplinarmente com as características do transtorno.
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno comportamental e mental, de forma que seus sintomas envolvem déficits de interrelações pessoais, de comunicação e presença de comportamentos estereotipados e repetitivos. O TEA apresenta padrões heterogêneos, possuindo, assim, diferentes diagnósticos segundo a presença e gravidade dos sintomas, a citar: transtorno autista, síndrome de Asperger, transtorno desintegrativo da infância, síndrome de Rett e o transtorno global do desenvolvimento (sem outras especificações). Pessoas portadoras do TEA possuem dificuldades para desenvolver habilidades sociais, cognitivas e comunicativas, apresentando, em geral, problemas em alterar suas rotinas (rigidez comportamental). Além disso, a doença ainda pode estar associada a uma deficiência intelectual ou a outras comorbidades (epilepsia, por exemplo).
Transtorno autista
Atualmente, o transtorno autista é classificado como um dos transtornos invasivos do desenvolvimento (TIDs), e apresenta uma grande heterogeneidade no que diz respeito às características de cada indivíduo – o diagnóstico e tratamento não são gerais e, sim, individuais para cada necessidade. Não necessariamente todos os sintomas estarão presentes, assim como eles podem variar desde grais mais leves aos mais graves. Alguns dos sintomas mais comuns relacionados à doença são:
- Prejuízos nas interações sociais;
- Ausência ou anormalidades da fala;
- Comportamentos estereotipados;
- Falta de contato visual;
- Aparência de surdez (pela falta de comunicação verbal);
- Ecolalia imediata e ecolalia tardia;
- Inversão pronominal;
- Dificuldade para entender humor e sarcasmo – interpretação literal do que foi dito;
- Dificuldades em aceitar mudanças na rotina – pode desencadear atitudes agressivas;
- Atividades repetitivas;
- Preferência por raciocínio fragmentado e repetitivo;
- Hiper ou hipossensibilidade a estímulos sensoriais.
Diagnóstico
O diagnóstico se dá nos três primeiros anos de vida. É importante salientar que o diagnóstico é dado com a análise individual, uma vez que os indivíduos autistas possuem diferenças entre seus sintomas e a severidade com que eles se apresentam. Crianças com maior déficit cognitivo e menor grau de funcionamento são mais isoladas e não desenvolvem a linguagem, enquanto que, quanto menor o déficit cognitivo, maior possibilidade de interação social. Todavia, o comportamento pode mudar ao longo do desenvolvimento, de forma que pode haver melhora na comunicação e interações sociais, melhora essa associada à identificação precoce do transtorno, assim como ao(s) tratamento(s) adequado(s).
Etiologia
Especialistas acreditam que disfunções do Sistema Nervoso Central (SNC) são as desencadeadoras do autismo, resultando nos sintomas característicos. Atualmente, há muitas pesquisas que procuram entender possíveis alterações genéticas que contribuem para o fenótipo da doença, porém ainda não se sabe concretamente os genes específicos que atuam nesse sentido.
Tratamento
Como citado anteriormente, são inúmeros os sintomas e diagnósticos a serem estabelecidos, o que também, consequentemente, resulta na inexistência de um tratamento específico. De acordo com a capacidade comunicativa, intelectual, idade, interações sociais e gravidade dos sintomas, serão abordados tratamentos diferentes. Na verdade, torna-se necessária uma visão multiprofissional, com envolvimento de neurologistas, psicólogos, terapeutas, psicopedagogos e familiares a fim de escolher a melhor abordagem de acordo com cada necessidade. Os tratamentos, por sua vez, podem modificar-se ao longo do desenvolvimento do indivíduo para atender novas demandas que surgirem, como por exemplo:
- Criança – foco no desenvolvimento da fala/linguagem, interações sociais;
- Adolescentes – foco na sexualidade, terapia ocupacional e interações sociais;
Os pais devem estar cientes de que não há um tratamento específico que irá curar o autismo, assim como diferentes abordagens podem resultar em diferentes impactos na criança. Em resumo, as abordagens visam:
- Estimular a comunicação e interações sociais;
- Desenvolver o aprendizado e solução de problemas;
- Diminuir comportamentos que atrapalham no cotidiano;
- Apoiar as famílias durante o processo.
O tratamento medicamentoso é de responsabilidade do neurologista/psiquiatra, podendo ser indicado, por exemplo, em casos de comportamento hiperativo, autodestrutivo ou para distúrbios do sono. Já o tratamento não medicamentoso envolve profissionais como psicólogos e psicopedagogos, podendo explorar diferentes abordagens para treinar e melhorar habilidades cognitivas, comunicativas e sociais do paciente. Nesse contexto, uma das abordagens exploradas envolve a utilização de intervenções artísticas e terapia artística como coadjuvante no tratamento, o que será descrito a seguir.
Terapia artística e intervenções artísticas
A terapia artística é uma das abordagens exploradas como coadjuvante no tratamento do autismo, de forma que tem mostrado auxiliar o indivíduo na melhora das habilidades comunicativas e sociais, uma vez que ele encontra na arte uma forma de se expressar.
Intervenções artísticas tais como pinturas, desenhos, vídeos ou fotografias estimulam o desenvolvimento viso espacial, assim como promove um processo criativo que pode melhorar funções cognitivas, motoras e perceptivas/simbólicas, contornando as limitações da linguagem.
Artes e autismo
A arte tem grande importância durante o desenvolvimento infantil: a criança consegue explorar sua criatividade através de diferentes formas, esquemas e símbolos, expressando artisticamente do seu interior aquilo que vive e sente do mundo exterior. É esse mundo exterior que é responsável por estimular os comportamentos, de modo que privações sensoriais limitam esse estímulo. A limitação das experiências da criança pode contribuir para o atraso do desenvolvimento da linguagem e problemas de comunicação. A arte, por sua vez, permite o uso da expressão não verbal, de modo que oferece novas experiências sensoriais que permitem às crianças autistas uma maior autoconsciência e conhecimento, assim como, à sua maneira, a percepção do mundo ao seu redor.
Nesse sentido, a utilização de intervenções artísticas em meios educacionais tem se mostrado de grande relevância para o desenvolvimento biopsicossocial da criança, uma vez que estimula habilidades cognitivas, sociais e integração sensorial. Além disso, há o desenvolvimento de aptidões motoras, já que as diferentes ferramentas artísticas, seja através da colagem, montagem ou argila, permitem a comunicação de diferentes sentidos e capacidades.
De maneira geral, os benefícios das intervenções artísticas para indivíduos autistas podem ser resumidos nos seguintes tópicos:
- Desenvolvimento de novas experiências sensoriais e formas diferentes de ver e representar o mundo ao seu redor;
- Alternativa para a comunicação verbal, já que, em geral, indivíduos autistas apresentam dificuldade na comunicação/linguagem;
- Exploração de novos sentidos e texturas, promovendo integração sensorial e melhorando a experiência tátil e visual;
- Melhora das relações sociais pela interação com as obras de arte dos colegas, aumentando a percepção da perspectiva do outro;
Conclusão
A partir do exposto, pode-se concluir que a arte tem grande importância para o desenvolvimento da criança autista, já que explora suas habilidades cognitivas, sociais e comunicativas por meio de diferentes texturas, formas e símbolos. Assim, a criança pode expressar do seu ponto de vista o mundo ao seu redor, assim como interagir com a perspectiva do colega e de como suas visões se diferem, estimulando aceitação e interação social.
Durante o processo, o envolvimento dos familiares, psicopedagogos, terapeutas e psicólogos é fundamental para que as intervenções artísticas sejam trabalhadas em sintonia com a necessidade de cada indivíduo, explorando e incentivando seus talentos. Assim, é possível promover crescimento emocional, social, sensorial e comunicativo de maneira leve e divertida.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
1. Art Therapy as an Intervention for Autism: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/07421656.2004.10129500
2. The Value Of Art Therapy For Those On The Autism Spectrum: https://the-art-of-autism.com/the-value-of-art-therapy-for-those-on-the-autism-spectrum/
3. Discovering good practice for art therapy with children who have Autism Spectrum Disorder: The results of a small scale survey: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0197455616301113?via%3Dihub
4. Autismo: intervenções psicoeducacionais: https://www.scielo.br/j/rbp/a/FPHKndGWRRYPFvQTcBwGHNn/?lang=pt&format=pdf
5. Autismo e síndrome de Asperger: uma visão geral: https://www.scielo.br/j/rbp/a/jMZNBhCsndB9Sf5ph5KBYGD/?format=pdf⟨=pt
6. Diagnosticando o transtorno autista: aspectos fundamentais e considerações práticas: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000100010
7. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) E AS ARTES: O ENSINO DA ARTE NO UNIVERSO AUTISTA: https://domalberto.edu.br/wp-content/uploads/sites/4/2017/07/Transtorno-do-Espectro-Autista-TEA-e-as-Artes-O-Ensino-da-Arte-no-Universo-Autista.pdf
8. Desenvolvendo habilidades com arteterapia: https://neuroconecta.com.br/desenvolvendo-habilidades-com-arteterapia/