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Leishmaniose Tegumentar Americana | Colunistas

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Definição

A leishmaniose tegumentar americana, conhecida popularmente como ferida brava ou úlcera de bauru. É uma antropozoonose tropical negligenciada, causada por protozoários do gênero leishmania, sendo uma doença não contagiosa de transmissão por vetor, o mosquito-palha (Ordem Diptera; Família Psychodidae; Sub-Família Phlebotominae).

A doença atinge principalmente a região da pele e de mucosas.

Atualmente é de conhecimento da ciência 7 espécies de Leishmania que causam doença em seres humanos e mais de 200 espécies de flebótomos que podem exercer o fator vetorial.

É uma doença endêmica em todo país, e a maioria dos casos concentram-se nas regiões norte e nordeste, contudo as demais regiões também apresentam casos autóctones com perfis epidemiológicos diferentes.

Mosquito vetor da leishmaniose tegumentar americana. Fonte: SUCEN – Superintendência de Controle de Endemias

No Brasil, inicialmente, os casos de leishmaniose tegumentar americana sempre eram atribuídos ao L. braziliensis, contudo, com o surgimento de novas técnicas de análise e o aprimoramento de outras, a partir da década de oitenta, mais seis espécies foram descritas e registradas totalizando às sete existentes atualmente no país.

As mais importantes no aspecto epidemiológico e clínico são:  Leishmania (Leishmania) amazonensis, L. (Viannia) guyanensis e L.(V.) braziliensis.

  • A L. amazonensis, distribui-se principalmente na região norte do Brasil e em parte da Bahia, Goiás e Minas Gerais, ocorre principalmente em áreas de florestas e várzeas, está presente também na Amazônia internacional, em países como Paraguai, Bolívia e Colômbia. O principal hospedeiro dessa leishmania é um roedor conhecido como rato-soiá, cientificamente chamado de Proechimys sp e o principal vetor é o mosquito L. flaviscutellata, que apresenta hábito noturno, porém com pouca atração por humanos. No seres humanos a L. amazonensis causa a forma cutânea e cutâneo-mucosa da doença, além da forma cutânea difusa anérgica, um quadro mais grave e sem tratamento.
  • A L.braziliensis se distribui por todo o país e foi identificada principalmente em roedores silvestres, é também a espécie mais encontrada em cães (principalmente nos estados do nordeste e sudeste). Seu principal vetor é P. wellcomei, um mosquito diuturno, extremamente antropofílico e com preferência por climas quentes e úmidos. Causa nos homens as formas cutânea e cutâneo-mucosa da doença.
  • A L.guyanensis, como sugere o nome, encontra-se principalmente na região das Guianas, e nos países do norte da América do Sul, no Brasil sua prevalência se dá principalmente ao norte do rio Amazonas, seus hospedeiros mais comuns são a preguiça e o tamanduá. Seus vetores principais são o Lu. umbratilis e o Lu. anduzei, eles tem característica diurnas e causam lesões características chamadas de pian-bois, no homem a doença se manifesta na forma cutânea com múltiplas lesões.
Ciclo biológico da Leishmania (em espanhol). Fonte: Wikipedia.

Diferentemente da leishmania visceral que acomete o homem de forma sistêmica, atacando o sistema linfomonocitário e que muitas vezes ocorre com evolução fatal, a leishmaniose tegumentar americana, acometem de forma mais branda, com cronificação do problema, atingindo tanto o homem como seus animais domesticados. Contudo, quando descoberta e tratada a evolução da patogenia é positiva.

No mundo estima-se 1,5 milhão de novos casos, com algo em torno de 40 mil mortes, No brasil a forma mais comum de leishmaniose e a forma cutânea, sendo responsável por 90% dos casos, a forma mucosa possui algo em torno de 5% de prevalência e a forma difusa costuma ser mais rara.

No período, 2010 – 2019, segundo o dataSUS, o brasil teve 202652 casos de leishmaniose tegumentar americana confirmados.

2010 23.770
2011 22.935
2012 25.198
2013 19.656
2014 21.989
2015 20.694
2016 13.936
2017 18.940
2018 17.812
2019 16.135
Casos confirmados segundo Ano Diagnóstico Período: 2010-2019. Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

O número de casos vem reduzindo consideravelmente ano após ano, no período de dez anos houve uma redução de 31,1% no número de casos confirmados e isso ocorre, principalmente, devido às medidas de prevenção à doença. Contudo, esse problema ainda não está devidamente controlado sendo necessário dar continuidade a luta para erradicar essa doença negligenciada.

O Pará, com 33690 casos, em primeiro lugar, a Bahia, com 29400 casos, em segundo lugar e o Mato Grosso, com 23199 casos em terceiro lugar são os estados mais acometidos, no Brasil, nessa década (2010-2019).

Quadro Clínico

Os principais achados clínicos (sinais e sintomas) vão ocorrer na pele, nas mucosas ou em ambas.

Na pele, as lesões podem apresentar-se de forma localizada ou sistêmica, contudo na maior parte dos casos a lesão ulcerada é única, essa úlcera tem bordas altas, fundo áspero, com presença, em grande parte, de exsudato, que pode ser, serosanguinolento ou seropurulento, normalmente essas úlceras são indolores e podem estar acompanhada de outros achados como lesões impetigoides, tuberosas, verrucosas, vegetantes e crostosas.

Podem surgir também pápulas nas mãos e a lesão na pele frequentemente é precedida por uma inflamação dos linfonodos e uma adenopatia satélite.

As lesões da mucosa, em sua maioria, vão ser secundárias às lesões da pele, tendo originado-se tempos após a resolução das lesões cutâneas, suas áreas de tropismo são o nariz, a faringe, a boca e a laringe, podendo causar até mutilação de órgãos como o nariz ou então de partes do corpo como dos lábios.

As queixas mais comuns vão ser a rinorreia e as epistaxes, a odinofagia, a rouquidão e tosse e as feridas na boca e nos lábios. Nessas feridas pode-se observar ulceração, infiltração, perfuração do septo nasal e lesões de características vegetantes, crostosas e destrutivas.

Em ambos os tipos de leishmaniose tegumentar americana, pode ocorrer comprometimento linfonodal, seja ele enfartamento da cadeia antes da lesão ou enfartamento da cadeia após a lesão, normalmente esse comprometimento é apenas local.

Úlcera característica da Leishmaniose Tegumentar americana. Fonte: Manual de Vigilância da Leishmaniose Tegumentar Americana.

Diagnóstico

O padrão ouro para o diagnóstico de leishmaniose tegumentar americana é a pesquisa direta, ela é a mais recomendada devido a ser mais rápida, ser de fácil execução e ter um baixo custo, esse exame deve ser realizado o mais rápido pois sua sensibilidade diminui à medida que a lesão evolui com o tempo.

Esse exame é realizado a partir de uma biópsia, de um esfregaço ou de uma punção aspirativa da lesão ulcerosa para a busca do parasita na forma amastigota.

Outro exame muito importante é o IDRM, também chamado de teste intradérmico ou intradermorreação de Montenegro e consiste em observar a ocorrência da resposta de hipersensibilidade celular retardada. Esse teste não é tão recomendado pois ele pode positivar em casos de lesão cutânea já tratada ou curada espontaneamente e até em exposição ao parasita, mas sem surgimento da doença, principalmente em áreas endêmicas.

Por fim, como exame sorológico, tem-se exames que detectam anticorpos anti-Leishmania circulantes no sangue do paciente, o exame disponível atualmente é a imunofluorescência indireta, contudo ele não deve ser utilizado isoladamente e sim como forma de apoio a outros exames, como o exame direto e a Intradermorreação de Montenegro.

O teste ELISA, atualmente vem sendo utilizado em pesquisas clínicas mas não encontra-se disponível comercialmente.

Protozoário Leishmania. Fonte: Agência Fiocruz de Notícias.

Tratamento

O tratamento consiste no uso de remédio antimonial, o principal e o antimoniato de N-metilglucamina, além disso deve-se manter a higienização e os cuidados locais com a(s) lesão(ões).

Bula do Antimoniato de N-Metilglucamina. Fonte: Secretaria de Estado de Saúde Governo do Estado de Goiás
Tratamento de Leishmaniose. Fonte: Secretaria de Estado de Saúde Governo do Estado de Goiás

Caso não ocorra a resolução do problema e a cicatrização completa em um período de até 3 meses, deve-se repetir novamente o esquema terapêutico por 30 dias, caso não se tenha uma resposta satisfatória esse paciente deve ser referenciado para um serviço mais avançado.

Referências

  1. Leishmaniose tegumentar americana: histórico, epidemiologia e perspectivas de controle – https://www.scielosp.org/article/rbepid/2004.v7n3/328-337/#ModalArticles
  2. Leishmaniose tegumentar americana: perfil epidemiológico, diagnóstico e tratamento-http://www.rbac.org.br/artigos/leishmaniose-tegumentar-americana-perfil-epidemiologico-diagnostico-e-tratamento/
  3. Leishmaniose tegumentar americana – casos confirmados notificados no sistema de informação de agravos de notificação – Brasil http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sinannet/cnv/ltabr.def
  4. Leishmaniose Tegumentar Americana I MedicinaNET – https://www.medicinanet.com.br/conteudos/biblioteca/2169/leishmaniose_tegumentar_americana.htm
  5. Secretaria de Estado de Saúde Governo do Estado de Goiás I Leishmaniose Tegumentar Americana – https://www.saude.go.gov.br/biblioteca/7343-leishmaniose-tegumentar-americana
  6. Manual de Vigilância da Leishmaniose Tegumentar Americana 2ª edição atualizada I Ministerio da Saúde – Secretaria de Vigilancia em Saude – https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_vigilancia_leishmaniose_tegumentar_americana.pdf


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


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