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Kuru: uma doença neurodegenerativa rara e sua importância histórica

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O Kuru ocupa um lugar de destaque entre as diversas doenças que marcaram a história da medicina por sua singularidade e impacto científico. Trata-se de uma rara e fatal doença neurodegenerativa, causada por príons, que são proteínas infecciosas capazes de induzir alterações estruturais em proteínas normais do sistema nervoso.

O Kuru foi identificado entre os membros do povo Fore, na região das Terras Altas da Papua-Nova Guiné, e está diretamente relacionado a práticas culturais específicas, especialmente o ritual do canibalismo funerário.

Seu estudo teve grande importância histórica, pois contribuiu para a descoberta dos príons como agentes infecciosos e ampliou o entendimento sobre doenças neurodegenerativas. Este texto apresenta as principais características do Kuru e seu impacto na medicina moderna.

O que é o Kuru?

Como já mencionado, o Kuru é uma doença neurodegenerativa transmissível, causada por príons, que são proteínas malformadas e infecciosas, desprovidas de material genético.

Essa enfermidade ficou conhecida por estar ligada ao canibalismo ritualístico praticado pela tribo Fore, na Papua-Nova Guiné, onde os familiares consumiam partes do corpo de entes queridos falecidos como parte do luto, prática conhecida como endocanibalismo.

Durante as décadas de 1940 e 1950, o Kuru atingiu altos índices de mortalidade, chegando a até 35 mortes por 1000 habitantes em algumas aldeias. Mulheres e crianças eram as principais vítimas, possivelmente por consumirem o tecido cerebral, onde a concentração de príons é maior. Com o fim dessas práticas na segunda metade do século XX, os casos diminuíram drasticamente.

Embora praticamente erradicado, alguns casos com período de incubação superior a 50 anos foram identificados até o início dos anos 2000. O último registro da doença ocorreu em 2005.

Fisiopatologia do Kuru

Do ponto de vista molecular, o Kuru ocorre quando a proteína príon normal (PrPc), rica em alfa-hélices, é convertida em sua forma patológica (PrPSc), rica em folhas beta e resistente à degradação. Essa isoforma patológica se acumula e induz outras proteínas normais a assumirem a forma mal dobrada, promovendo uma reação em cadeia. Como os príons são proteínas do próprio organismo, não provocam resposta imune ou inflamatória, dificultando sua detecção pelo sistema imunológico.

Além disso, a suscetibilidade ao Kuru está relacionada à genética do hospedeiro, especialmente ao gene PRNP. Indivíduos homozigotos para metionina no códon 129 tendem a desenvolver a doença mais rapidamente, enquanto os heterozigotos são mais resistentes. A heterozigosidade no códon 127 do mesmo gene confere uma proteção ainda mais eficaz, possivelmente completa, contra a infecção pelo príon.

Histopatologia

A histopatologia do Kuru revela alterações cerebrais típicas das doenças priônicas, embora não haja lesões visíveis a olho nu (macroscópicas).

Um dos achados mais característicos é a presença de placas amiloides conhecidas como “placas kuru”, especialmente localizadas no cerebelo, gânglios da base, tálamo e córtex cerebral. Essas placas são arredondadas, com espículas radiantes, e se coram com reagentes como ácido periódico de Schiff (PAS), azul de Alcian e vermelho Congo. No entanto, elas só estão presentes em cerca de 60% dos pacientes.

Microscopicamente, observa-se também:

  • Perda neuronal;
  • Proliferação e hipertrofia de astrócitos;
  • Gliose e vacuolização da substância cinzenta.

Além disso, os neurônios afetados apresentam-se encolhidos e hipercromáticos, com alteração na substância de Nissl. As áreas mais comprometidas incluem:

  • Camadas profundas do córtex, vérmis e lobo floculonodular do cerebelo;
  • Trato córtico-espinhal e espinocerebelar na medula espinhal.

A imuno-histoquímica com anticorpos anti-PrP pode auxiliar na identificação da proteína príonica anormal (PrPSc) nos tecidos cerebrais, confirmando o diagnóstico da doença.

Ademais, destaca-se que não há sinais de inflamação, como desgaste perivascular ou resposta inflamatória clássica, o que diferencia o Kuru de outras encefalopatias de causa infecciosa.

Quadro clínico do Kuru

O Kuru apresenta um quadro clínico característico, com evolução previsível em três fases distintas, tornando-se um modelo claro entre as doenças priônicas.

A doença geralmente inicia-se com uma fase prodrômica pouco específica, marcada por sintomas como dor de cabeça, dor articular (especialmente nos joelhos, tornozelos, cotovelos e punhos), dor abdominal e perda de peso.

Além disso, não há sinais típicos de infecção cerebral, como febre ou convulsões, o que a diferencia de outras causas neurológicas infecciosas.

Fase ambulatorial

Nesta fase inicial, o paciente ainda é capaz de andar, mas já apresenta tremores, ataxia (falta de coordenação) e instabilidade postural. Os tremores lembram calafrios, origem do nome “Kuru”.

Com a progressão, surgem sinais cerebelares como nistagmo, disartria, dismetria e tremor intencional, além de clônus, sinal de Romberg, além de outros movimentos anormais.

Além disso, o paciente pode apresentar instabilidade emocional e episódios de risos incontroláveis, razão pela qual o Kuru também foi apelidado de “doença do riso”.

Fase sedentária

A progressão leva à perda da capacidade de caminhar, obrigando o paciente a permanecer sentado com apoio. Além disso, a ataxia, os tremores e a disartria tornam-se mais intensos.

Também observam-se movimentos involuntários, como mioclonias, coreoatetose, opsoclonia e distonia. Ademais, a hiperreflexia torna-se evidente, mas o reflexo plantar permanece flexor.

Estágio terminal

O paciente fica completamente acamado, desenvolvendo disfagia, incontinência e posturas anormais como atetose e coreia. Apesar de não responder ao ambiente, geralmente ainda está consciente.

Há presença de reflexos profundos exacerbados, mas o sinal de Babinski continua ausente. Embora possa haver comprometimento cognitivo, a demência não é tão marcante como em outras encefalopatias espongiformes. A morte geralmente ocorre por pneumonia aspirativa ou infecções secundárias, como as causadas por úlceras de decúbito.

O tempo entre a infecção e o início dos sintomas pode variar amplamente, de 4 até mais de 50 anos, evidenciando um período de incubação extremamente longo. Uma vez iniciados os sintomas, o curso da doença é irremediavelmente fatal, levando à morte em 9 a 24 meses.

Diagnóstico do Kuru

O diagnóstico do Kuru baseia-se principalmente na avaliação clínica, considerando:

  • História do paciente.
  • Contexto epidemiológico.
  • Progressão típica dos sintomas neurológicos.

Não há exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmar de forma definitiva a doença durante a vida.

O líquido cefalorraquidiano (LCR) geralmente é normal, sem alterações sugestivas de infecção ou inflamação. Já o eletroencefalograma (EEG) costuma apresentar anormalidades inespecíficas, mas não exibe os complexos periódicos de ondas agudas frequentemente encontrados em outras encefalopatias priônicas, como a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ).

A confirmação diagnóstica definitiva só é possível por meio da análise patológica do tecido do sistema nervoso central (SNC). Os achados histopatológicos típicos, como vacuolização (aspecto espongiforme) e deposição de príons, são essenciais para o diagnóstico pós-morte.

Tratamento e prognóstico do Kuru

As enfermidades priônicas que afetam os seres humanos são invariavelmente letais, independentemente da forma clínica apresentada. Até hoje, não existe cura ou terapias específicas eficazes para essas doenças.

Portanto, o manejo é exclusivamente de suporte, focando em aliviar os sintomas e proporcionar conforto ao paciente durante a progressão da enfermidade.

Ademais, o prognóstico é ruim: a morte geralmente ocorre dentro de 24 meses após o início dos sintomas, com redução significativa da qualidade de vida e crescente dependência dos familiares na fase avançada da doença.

Importância histórica do Kuru

O Kuru possui grande relevância histórica por ter sido a primeira doença priônica humana identificada, contribuindo significativamente para o entendimento de outras enfermidades neurodegenerativas transmissíveis.

Detectada nas tribos Fore da Papua-Nova Guiné nos anos 1950 por D. Carleton Gajdusek e Vincent Zigas, a doença estava associada ao canibalismo ritualístico, que favorecia sua transmissão.

Apesar de hoje ser considerada extinta, o Kuru foi fundamental para o avanço do conhecimento sobre outras doenças priônicas, como a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), sua variante (DCJv), a insônia familiar fatal (FFI) e a doença de Gerstmann-Sträussler-Scheinker (GSS). Essas doenças compartilham características clínicas e patológicas com o Kuru, o que permitiu traçar paralelos importantes para compreender sua patogênese.

Além disso, casos identificados décadas após o fim das práticas canibais indicaram que o Kuru pode apresentar períodos de incubação extremamente longos, superiores a 50 anos, o que reforçou o entendimento sobre a persistência e a complexidade das doenças priônicas.

Relação entre o Kuru e outras doenças priônicas

É fundamental distinguir o Kuru de outras doenças neurodegenerativas, especialmente aquelas potencialmente tratáveis ou reversíveis, que também podem apresentar sintomas semelhantes, como alterações cerebelares. Para isso, utilizam-se exames como neuroimagem, testes sorológicos, avaliações genéticas e análises histopatológicas.

Dentro do grupo das doenças priônicas, a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é a mais comum. Ela costuma manifestar-se com demência precoce, mioclonias e sinais de comprometimento do neurônio motor superior, o que contrasta com o Kuru, no qual a demência é um sintoma mais tardio.

Outra enfermidade relacionada é a insônia fatal familiar, que diferencia-se por um quadro clínico dominado por insônia severa, disfunção autonômica e mioclonia.

Por fim, a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker (GSS) apresenta um curso clínico mais variado, com sintomas cerebelares, paraparesia espástica e déficits cognitivos que lembram os da doença de Alzheimer.

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Referências

  • APPLEBY, B. S.; COHEN, M. L. Diseases of the central nervous system caused by prions. UpToDate, 2025.
  • MAHAT, S.; ASSUNÇÃO, R. M. D. Kuru. National Library of Medicine, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK559103/. Acesso em: 08 jun 2025.

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