Hipoglicemia na emergência: confira o caso clínico e estude para esse tema tão importante para sua prática na emergência!
Caso clínico
- Nome: João da Silva
- Idade: 65 anos
- Sexo: Masculino
- História Médica: Diabetes mellitus tipo 2, hipertensão, insuficiência renal crônica.
- Medicações: Metformina, glibenclamida, enalapril, aspirina.
Queixa principal
João da Silva foi trazido à emergência por familiares após ser encontrado desorientado e com sudorese intensa.
História da doença atual
Os familiares relatam que o paciente estava bem pela manhã, mas após o almoço, começou a apresentar fraqueza, tremores e sudorese. Cerca de uma hora após o almoço, ele ficou confuso e incapaz de responder perguntas adequadamente, o que levou os familiares a trazerem-no ao hospital. Eles informam que João toma suas medicações regularmente, mas não se lembram se ele se alimentou corretamente durante o dia.
Exame físico
- Estado Geral: paciente em estado de confusão, desorientado, com sudorese intensa.
- Sinais Vitais:
- Pressão arterial: 140/90 mmHg
- Frequência cardíaca: 95 bpm
- Temperatura: 36,5°C
- Frequência respiratória: 18 rpm
- Cabeça e pescoço: pupilas isocóricas e reativas à luz, mucosas úmidas
- Cardiovascular: ritmo cardíaco regular, sem sopros
- Respiratório: murmúrios vesiculares presentes e simétricos, sem ruídos adventícios
- Abdome: flácido, indolor à palpação, sem visceromegalias
- Neurológico: confuso, desorientado no tempo e espaço, sem déficits motores evidentes.
Exames laboratoriais
- Glicemia capilar: 42 mg/dL
- Hemograma: Hb 13,2 g/dL, Ht 39%, Leucócitos 6.000/mm³, Plaquetas 220.000/mm³
- Eletrólitos: Na+ 140 mEq/L, K+ 4,2 mEq/L, Cl- 100 mEq/L
- Função renal: Ureia 60 mg/dL, Creatinina 2,0 mg/dL
- Gasometria arterial: pH 7,38, pCO2 40 mmHg, pO2 90 mmHg, HCO3- 24 mEq/L
Hipoglicemia
A hipoglicemia, ou baixa de açúcar no sangue, é uma condição que pode afetar qualquer pessoa, mas é especialmente preocupante para aqueles que têm diabetes e fazem uso de insulina ou outros medicamentos hipoglicemiantes.
A hipoglicemia ocorre quando os níveis de glicose no sangue caem abaixo do normal, geralmente abaixo de 70 mg/dL. Dessa forma, a glicose é a principal fonte de energia do corpo e é essencial para o funcionamento adequado dos órgãos, especialmente do cérebro. Quando os níveis de glicose caem, o corpo começa a apresentar uma série de sintomas que podem variar de leves a graves.
Fisiopatologia da hipoglicemia
A glicose é a principal fonte de energia para as células do corpo, especialmente para o cérebro, que depende quase exclusivamente de glicose para seu funcionamento.
O corpo mantém níveis adequados de glicose no sangue através de um equilíbrio entre a ingestão de carboidratos, a produção endógena de glicose bem como a utilização de glicose pelas células. Os principais mecanismos envolvidos incluem:
- Gliconeogênese: produção de glicose a partir de precursores não-carboidratos, como aminoácidos e glicerol, principalmente no fígado
- Glicogenólise: degradação do glicogênio armazenado no fígado e músculos para liberar glicose
- Regulação hormonal: hormônios como insulina e glucagon desempenham papéis cruciais. A insulina promove a captação de glicose pelas células, enquanto o glucagon estimula a liberação de glicose pelo fígado.
Etiologia da hipoglicemia
A hipoglicemia pode ocorrer devido a vários fatores que interferem nesses mecanismos de manutenção da glicose.
Em pessoas com diabetes, a administração excessiva de insulina ou de medicamentos que aumentam a secreção de insulina (como sulfonilureias) pode levar à hipoglicemia. Além disso, doenças hepáticas severas, como cirrose, podem comprometer a produção e liberação de glicose pelo fígado.
A falta de ingestão de alimentos por períodos prolongados pode esgotar as reservas de glicogênio hepático, bem como reduzir a disponibilidade de precursores para a gliconeogênese.
Manifestações clínicas
Primeiramente, os sintomas de hipoglicemia podem surgir de forma súbita, começando com sinais que indicam a ativação do sistema nervoso autônomo. Esses sintomas são o primeiro alerta do corpo de que algo está errado.
Tremores são comuns e frequentemente acompanhados de sudorese intensa. Além disso, o paciente pode sentir palpitações e uma sensação de ansiedade inexplicável. Esses sintomas resultam da liberação de adrenalina em resposta à queda dos níveis de glicose.
Se a hipoglicemia não for corrigida rapidamente, os níveis de glicose no sangue continuam a cair, afetando o sistema nervoso central (SNC). Nesse ponto, surgem os sintomas neuroglicopênicos, que são mais graves.
Além disso, a confusão mental é um dos primeiros sinais, seguida por tontura e visão turva; com o tempo, o paciente pode apresentar irritabilidade e dificuldade para se concentrar. Se os níveis de glicose continuarem a cair, pode haver perda de consciência ou, em casos extremos, convulsões.
Como manejar um paciente com hipoglicemia na emergência?
O manejo de um paciente com hipoglicemia na emergência exige uma abordagem rápida e sistemática para corrigir a hipoglicemia e prevenir complicações.
Avaliação inicial
Deve-se verificar o nível de consciência e sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e temperatura).
Além disso, coletar-se informações sobre o histórico médico do paciente, medicações em uso (especialmente insulina ou hipoglicemiantes orais), tempo desde a última refeição, sintomas apresentados e eventos precedentes.
Outro fator importante é utilizar um glicosímetro para confirmar a hipoglicemia (glicemia < 70 mg/dL).
Medidas iniciais
Para pacientes conscientes e capazes de engolir, a administração de 15-20 g de carboidratos de rápida absorção é o primeiro passo. Isso pode incluir 120 mL de suco de frutas, 3-4 comprimidos de glicose, ou uma colher de sopa de açúcar ou mel.
Após 15 minutos, é necessário reavaliar a glicemia capilar. Se os níveis de glicose ainda estiverem abaixo de 70 mg/dL, a administração de carboidratos deve ser repetida para garantir a estabilização.
Por outro lado, para pacientes inconscientes ou incapazes de engolir, a administração intravenosa de glicose é fundamental. Assim, 25-50 mL de solução de glicose a 50% (D50W) devem ser administrados em bolus. Alternativamente, se não houver acesso IV imediato, pode-se administrar 1 mg de glucagon intramuscular (IM) ou subcutâneo (SC).
Além disso, após a administração, é importante monitorar a glicemia e o estado de consciência do paciente para avaliar a eficácia do tratamento.
Reavaliação e monitoramento
Nesse contexto, além do tratamento inicial, a reavaliação contínua da glicemia é essencial. A glicemia capilar deve ser medida a cada 15 minutos até que os níveis se estabilizem acima de 70 mg/dL. Além disso, os sinais vitais e o estado neurológico do paciente devem ser monitorados constantemente para detectar qualquer alteração.
Assim, após a estabilização inicial dos níveis de glicose, é recomendado iniciar uma infusão contínua de solução glicosada, como D5W ou D10W. Isso ajuda a manter os níveis de glicose adequados e prevenir recorrências de hipoglicemia.
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Referência bibliográfica
- VELASCO, Irineu Tadeu et al. Medicina de emergência: abordagem prática. . Barueri, SP: Manole. . Acesso em: 01 jul. 2024.