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Hipertermia maligna: fisiopatologia, prevenção e condutas emergenciais

Hipertermia maligna

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A hipertermia maligna é uma complicação rara e potencialmente fatal da anestesia. Trata-se de uma síndrome hipermetabólica desencadeada em indivíduos geneticamente predispostos quando expostos a anestésicos voláteis ou succinilcolina. Apesar de rara, sua gravidade exige que médicos anestesiologistas, cirurgiões e intensivistas dominem sua fisiopatologia, adotem estratégias de prevenção e estejam preparados para condutas emergenciais imediatas.

Fisiopatologia da hipertermia maligna

A HM decorre de mutações nos genes RYR1 e CACNA1S, que codificam proteínas reguladoras da homeostase do cálcio no músculo esquelético. O gene RYR1, por exemplo, codifica o receptor de rianodina, canal fundamental para a liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático. Mutantes desse canal tornam-se instáveis, liberando cálcio de forma contínua quando estimulados por anestésicos desencadeantes.

Embora o padrão de herança seja autossômico dominante, a penetrância varia, o que explica porque alguns indivíduos com a mutação nunca manifestam a síndrome. Além disso, doenças como miopatia de núcleo central e síndrome de King-Denborough apresentam forte associação com HM.

Assim, a suscetibilidade genética precisa sempre ser considerada na anamnese, pois muitas vezes o único indício é um histórico familiar de morte súbita em anestesia.

Mecanismos moleculares

O excesso de cálcio intracelular leva a contração muscular sustentada. Essa contração, por sua vez, aumenta o consumo de ATP, eleva a produção de calor e causa depleção energética. Como consequência, há acúmulo de lactato, acidose mista e hipertermia.

Além disso, a ruptura da integridade das fibras musculares leva à rabdomiólise, liberando potássio, mioglobina e enzimas musculares na circulação. A hiperpotassemia resultante provoca arritmias graves, enquanto a mioglobinúria pode causar insuficiência renal aguda.

Portanto, a HM deve ser entendida como uma cascata metabólica autossustentada: quanto mais cálcio liberado, maior a contração muscular e a produção de calor, agravando o ciclo até a falência orgânica múltipla.

Manifestação clínica da hipertermia maligna

Os sinais clássicos incluem:

  • aumento abrupto do ETCO₂ (capnografia) não explicado por ventilação inadequada;
  • taquicardia persistente;
  • rigidez muscular generalizada, frequentemente com espasmo massetérico;
  • acidose metabólica e respiratória simultâneas;
  • hipertermia de rápida progressão (chegando a >41 °C em poucos minutos).

Dessa forma, se não tratada, a evolução inclui arritmias ventriculares, coagulação intravascular disseminada (CIVD), insuficiência renal e colapso circulatório.

Prevenção da hipertermia maligna

A prevenção começa na anamnese. Perguntas-chave incluem:

  • Algum parente apresentou complicações graves ou morte súbita durante anestesia?
  • O paciente já apresentou febre alta, rigidez ou rabdomiólise após anestesia?
  • Existe histórico de doenças musculares hereditárias?

Embora testes confirmatórios como o CHCT (caffeine-halothane contracture test) sejam o padrão-ouro, sua disponibilidade é restrita. Testes genéticos ajudam, mas também apresentam limitações, já que nem todas as mutações são conhecidas.

Portanto, na prática clínica, qualquer suspeita deve ser suficiente para classificar o paciente como suscetível e adotar medidas preventivas.

Protocolos anestésicos seguros

Em pacientes com risco de HM:

  • Evite anestésicos desencadeantes: todos os halogenados e a succinilcolina
  • Prefira anestesia total intravenosa (TIVA) com propofol, opioides e relaxantes não despolarizantes
  • Monitore continuamente ETCO₂, temperatura central e gases sanguíneos.

Além disso, a máquina de anestesia deve ser preparada com antecedência. Recomenda-se:

  • Remover vaporizadores;
  • Realizar flush com fluxo de gás fresco de alto volume por pelo menos 20 minutos
  • Instalar filtros de carvão ativado nos circuitos, capazes de reduzir traços de halogenados em segundos.

Preparação institucional

A prevenção vai além do anestesiologista. É essencial que o hospital adote protocolos escritos e realize treinamentos regulares da equipe multiprofissional.

Além disso, outro ponto importante é o estoque de dantrolene. Assim, a Malignant Hyperthermia Association of the United States (MHAUS) recomenda manter ao menos 36 frascos, suficientes para tratar uma crise inicial em paciente adulto de 70 kg. Sem esse medicamento, a chance de sobrevida cai drasticamente.

Condutas Emergenciais na hipertermia maligna

O sucesso do tratamento depende do diagnóstico imediato. Os primeiros sinais são sutis e podem ser confundidos com outras complicações anestésicas. Entre eles:

  • Elevação progressiva do ETCO₂ (>55 mmHg)
  • Taquicardia inexplicável
  • Queda de saturação de oxigênio
  • Rigidez muscular intensa.

A hipertermia surge de forma mais tardia, mas sua progressão é rápida e alarmante. Assim, confiar apenas na temperatura corporal pode atrasar o diagnóstico.

Intervenção imediata

Uma vez suspeitada HM, a equipe deve agir em segundos:

  1. Suspender imediatamente todos os agentes anestésicos desencadeantes
  2. Ventilar com O₂ 100% em alto fluxo (≥10 L/min)
  3. Administrar dantrolene IV na dose inicial de 2,5 mg/kg; repetir até dose máxima de 10 mg/kg conforme resposta clínica
  4. Resfriar ativamente o paciente:
    • fluidos frios intravenosos (15 ml/kg até 4 °C);
    • bolsas de gelo em axilas, pescoço e virilhas;
    • lavagem gástrica, vesical ou peritoneal com solução gelada, se disponível.

A rapidez da administração de dantrolene é o fator que mais impacta na sobrevida.

Medidas de suporte e tratamento das complicações

Além do tratamento específico, diversas complicações devem ser manejadas de forma paralela:

  • Acidose metabólica: corrigir com bicarbonato de sódio (1–2 mEq/kg)
  • Arritmias: preferir amiodarona ou lidocaína. Evitar bloqueadores de canal de cálcio, pois interagem com dantrolene e agravam a instabilidade hemodinâmica
  • Hipercalemia: manejar com glicose + insulina, bicarbonato e, se necessário, beta-agonistas
  • Rabdomiólise: garantir diurese ≥2 ml/kg/h com manitol ou furosemida, prevenindo insuficiência renal
  • Coagulopatia: monitorar coagulograma e repor hemoderivados conforme necessidade.

Monitoramento em UTI

Mesmo após estabilização, o risco de recrudescência da HM é significativo, ocorrendo em até 25% dos casos. Por isso, o paciente deve permanecer em UTI por 24 a 48 horas, com monitorização contínua de:

  • Gasometria arterial
  • Eletrólitos séricos
  • Função renal
  • Creatina quinase (CK)
  • Parâmetros de coagulação.

Além disso, recomenda-se manter dantrolene por via intravenosa em doses menores (1 mg/kg a cada 4–6 horas ou infusão contínua de 0,25 mg/kg/h) durante as primeiras 24 horas, especialmente em casos graves ou de difícil controle.

Papel da equipe multiprofissional

O manejo da HM envolve anestesiologistas, cirurgiões, intensivistas, enfermeiros e farmacêuticos. A coordenação entre essas áreas permite:

  • Administração rápida do dantrolene
  • Execução de medidas de resfriamento
  • Monitoramento laboratorial ágil
  • Comunicação eficiente com familiares.

Treinamentos periódicos em simulação realística ajudam a reduzir falhas e a melhorar o tempo de resposta, aumentando as chances de sobrevida.

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Referência bibliográfica

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