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Decúbito ventral: entenda a posição prona e quando ela é utilizada

Leito hospitalar vazio em ambiente de UTI, com monitor multiparamétrico, suporte de soro e iluminação baixa, representando o cuidado de pacientes em decúbito ventral.

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O decúbito ventral, também conhecido como posição prona, corresponde ao posicionamento do paciente deitado com a face anterior do corpo voltada para baixo. Em outras palavras, o paciente permanece com o tórax e o abdome direcionados para a superfície de apoio, enquanto a região dorsal fica voltada para cima. Embora pareça uma posição simples, o decúbito ventral exige planejamento, monitorização e conhecimento técnico, principalmente em ambientes hospitalares, cirúrgicos e de terapia intensiva.

Na prática médica, essa posição aparece em diferentes contextos. Por um lado, equipes cirúrgicas utilizam o decúbito ventral para permitir acesso adequado à coluna, à região posterior do crânio, ao dorso, aos glúteos e a determinadas estruturas musculoesqueléticas. Por outro lado, equipes de terapia intensiva utilizam a posição prona como recurso terapêutico em pacientes com insuficiência respiratória grave, especialmente na síndrome do desconforto respiratório agudo, conhecida como SDRA. Além disso, a posição também pode aparecer em exames, procedimentos intervencionistas e cuidados específicos de enfermagem.

Entretanto, apesar de sua utilidade, o decúbito ventral não deve ser entendido apenas como “virar o paciente de barriga para baixo”. Pelo contrário, essa posição envolve repercussões respiratórias, cardiovasculares, neurológicas, cutâneas e anestésicas. Portanto, quando a equipe indica a posição prona, ela precisa avaliar o benefício esperado, os riscos envolvidos e as medidas necessárias para proteger o paciente durante todo o período em que ele permanecer nessa posição.

O que é decúbito ventral?

O termo decúbito descreve a posição do corpo quando o paciente se encontra deitado. Assim, no decúbito dorsal, o paciente permanece com as costas apoiadas e a face anterior do corpo voltada para cima. Já no decúbito lateral, o paciente repousa sobre um dos lados do corpo. No decúbito ventral, por sua vez, o paciente permanece apoiado sobre a região anterior do corpo, com a face voltada para baixo ou lateralizada, conforme o contexto clínico e a necessidade de proteção das vias aéreas.

Na posição prona, a equipe deve organizar o alinhamento corporal para evitar compressões inadequadas. Dessa forma, cabeça, pescoço, tórax, pelve, membros superiores e membros inferiores precisam ficar posicionados de maneira segura. Além disso, a equipe deve proteger pontos de pressão, como:

  • Face
  • Região frontal
  • Queixo
  • Tórax
  • Cristas ilíacas
  • Joelhos
  • Dorso dos pés
  • E genitais.

Em pacientes anestesiados, sedados ou com mobilidade reduzida, esse cuidado ganha ainda mais importância, porque o próprio paciente não consegue relatar dor, dormência, compressão ocular ou desconforto.

Na imagem abaixo observa-se posição prona usando o suporte/quadro de Wilson na mesa cirúrgica.

Além disso, o posicionamento dos braços merece atenção. Em algumas situações, a equipe posiciona os braços ao lado do corpo. Em outras, utiliza a chamada posição de “nadador”, com um braço flexionado próximo à cabeça e o outro ao longo do corpo, alternando os lados periodicamente. Essa alternância ajuda a reduzir pressão prolongada sobre estruturas nervosas, articulares e cutâneas. Ainda assim, a equipe precisa evitar abdução excessiva dos ombros, rotação inadequada do pescoço e compressão do plexo braquial.

Por que a posição prona melhora a mecânica respiratória?

A posição prona ganhou destaque na terapia intensiva porque pode melhorar a oxigenação em pacientes com SDRA moderada a grave. Para entender esse efeito, é necessário lembrar que a SDRA provoca inflamação pulmonar difusa, aumento da permeabilidade alveolocapilar, edema, colapso alveolar e alteração importante da relação ventilação-perfusão. Como consequência, parte dos pulmões recebe sangue, mas não recebe ventilação adequada, o que reduz a oxigenação arterial.

No decúbito dorsal, as regiões posteriores dos pulmões, que concentram grande parte do parênquima pulmonar, sofrem maior influência da gravidade, do peso do coração e da pressão abdominal transmitida ao diafragma. Assim, essas áreas tendem a colapsar com mais facilidade, principalmente em pacientes críticos, sedados e ventilados mecanicamente. Além disso, a distribuição da ventilação pode se tornar menos homogênea, enquanto a perfusão permanece relativamente maior nas regiões dorsais. Consequentemente, ocorre piora da relação ventilação-perfusão.

Quando a equipe coloca o paciente em decúbito ventral, ocorre redistribuição das forças mecânicas sobre os pulmões. Com isso, as regiões dorsais tendem a recrutar melhor, a ventilação se distribui de forma mais uniforme e a diferença entre áreas dependentes e não dependentes diminui. Além disso, a posição prona pode reduzir a compressão pulmonar pelo coração e favorecer uma expansão alveolar mais homogênea. Portanto, a posição não atua apenas “aumentando o oxigênio”; ela modifica a mecânica pulmonar e melhora a eficiência das trocas gasosas.

Outro ponto importante envolve a proteção pulmonar. Como a posição prona melhora a homogeneidade da ventilação, ela pode reduzir áreas de hiperinsuflação e colapso cíclico. Dessa forma, quando associada a ventilação protetora, com volumes correntes baixos e controle adequado de pressões, a pronação pode contribuir para diminuir lesão pulmonar induzida pelo ventilador. Por isso, em pacientes selecionados, a posição prona representa uma intervenção terapêutica relevante, e não apenas uma manobra postural.

Quando o decúbito ventral é utilizado na terapia intensiva?

Na terapia intensiva, a principal indicação do decúbito ventral envolve pacientes adultos com SDRA moderada a grave, especialmente quando a hipoxemia persiste apesar de ventilação mecânica otimizada. Em geral, a equipe considera a pronação quando o paciente apresenta relação PaO₂/FiO₂ reduzida, necessidade elevada de fração inspirada de oxigênio e sinais de comprometimento importante da oxigenação. Além disso, a decisão costuma considerar o tempo de evolução do quadro, a estabilidade hemodinâmica, a possibilidade de mobilização segura e a experiência da equipe.

A literatura médica consolidou a posição prona como uma das intervenções não farmacológicas mais importantes na SDRA grave. Entretanto, o benefício depende de aplicação adequada. Em muitos protocolos, a equipe mantém o paciente em prona por períodos prolongados, frequentemente em ciclos de aproximadamente 16 horas ou mais, seguidos de retorno ao decúbito dorsal conforme resposta clínica. Além disso, a equipe acompanha parâmetros como saturação periférica de oxigênio, gasometria arterial, complacência respiratória, pressões ventilatórias, necessidade de vasopressores e sinais de complicações.

Ainda assim, a posição prona não substitui outras medidas de suporte. Pelo contrário, ela deve integrar um conjunto de cuidados que inclui ventilação mecânica protetora, ajuste individualizado de PEEP, controle de fluidos, tratamento da causa da SDRA, sedação adequada quando necessária, prevenção de trombose, prevenção de lesões por pressão e monitorização contínua. Portanto, a pronação funciona melhor quando a equipe a insere em um plano amplo de manejo do paciente crítico.

Além da SDRA clássica, a posição prona também recebeu grande atenção durante a pandemia de COVID-19, já que muitos pacientes evoluíam com insuficiência respiratória hipoxêmica grave. Nesse contexto, equipes utilizaram a pronação tanto em pacientes intubados quanto, em alguns cenários, em pacientes acordados sob oxigenoterapia ou suporte ventilatório não invasivo. No entanto, a indicação em pacientes acordados exige avaliação criteriosa, porque a resposta varia e porque a posição não deve atrasar intubação quando o paciente apresenta sinais de falência respiratória.

Como a equipe realiza a pronação com segurança?

A pronação de um paciente crítico exige coordenação. Antes da manobra, a equipe deve revisar tubos, cateteres, drenos, acessos venosos, sondas, eletrodos e dispositivos de monitorização. Além disso, deve garantir sedação, analgesia e bloqueio neuromuscular quando indicados, especialmente em pacientes sob ventilação mecânica invasiva. Também deve aspirar vias aéreas quando necessário, fixar adequadamente o tubo orotraqueal e preparar coxins para proteger áreas de pressão.

Durante a virada, a equipe precisa distribuir funções. Um profissional experiente deve controlar a cabeça e a via aérea, enquanto outros profissionais coordenam tronco, pelve e membros. Essa organização reduz risco de extubação acidental, perda de acessos, desconexão do ventilador, tração de cateteres e instabilidade hemodinâmica. Depois da virada, a equipe deve confirmar posicionamento do tubo, auscultar o tórax quando aplicável, revisar parâmetros ventilatórios, checar pressão do cuff, avaliar capnografia, observar saturação e reposicionar todos os dispositivos.

Depois que o paciente permanece em decúbito ventral, a vigilância continua. A equipe deve alternar a posição da cabeça e dos braços, proteger os olhos, evitar pressão direta sobre globos oculares, avaliar pele, manter alinhamento cervical, observar edema facial e monitorar sinais de compressão nervosa. Além disso, deve manter atenção à região abdominal, porque compressão excessiva pode aumentar pressão intra-abdominal, dificultar excursão diafragmática e comprometer retorno venoso. Por isso, coxins torácicos e pélvicos podem ajudar a deixar o abdome mais livre, principalmente em ambiente cirúrgico ou em pacientes selecionados.

Uso do decúbito ventral em cirurgia e anestesia

No centro cirúrgico, a posição prona permite acesso a áreas anatômicas posteriores. Assim, cirurgias de coluna, procedimentos neurocirúrgicos posteriores, cirurgias anorretais específicas, procedimentos em dorso, glúteos e membros inferiores podem exigir esse posicionamento. Além disso, alguns procedimentos intervencionistas guiados por imagem também utilizam o decúbito ventral para melhorar acesso técnico e segurança anatômica.

Entretanto, o contexto cirúrgico traz desafios próprios. O paciente anestesiado perde reflexos de proteção, tônus muscular e capacidade de ajustar a própria posição. Consequentemente, a equipe anestésica e cirúrgica precisa proteger olhos, vias aéreas, nervos periféricos, pele, mamas, genitais e articulações. Além disso, precisa garantir que o tubo orotraqueal permaneça fixo e acessível, já que o acesso à via aérea se torna mais difícil depois que o paciente fica em prona.

A posição também pode influenciar a ventilação durante a anestesia. Dependendo do suporte utilizado, da pressão abdominal e do tipo de cirurgia, o decúbito ventral pode alterar complacência respiratória, retorno venoso e pressão arterial. Por isso, a equipe deve monitorar ventilação, oxigenação, pressão arterial, perdas sanguíneas e perfusão. Em cirurgias longas, o risco de lesões por pressão aumenta, e a equipe deve reforçar medidas preventivas desde o início do posicionamento.

Outro cuidado importante envolve os olhos. A pressão direta sobre a região ocular pode causar lesões graves. Portanto, a equipe deve posicionar a cabeça de modo estável, evitar compressão ocular e checar periodicamente a ausência de pressão sobre os olhos. Além disso, deve evitar rotação cervical extrema, porque essa posição pode comprometer circulação, gerar tensão muscular e aumentar risco de lesão neurológica.

Principais riscos e complicações da posição prona

Embora o decúbito ventral ofereça benefícios em situações específicas, ele também pode causar complicações. Entre os riscos mais relevantes estão lesões por pressão, edema facial, lesões de córnea, compressão ocular, deslocamento de tubo orotraqueal, perda de acessos venosos, obstrução de dispositivos, instabilidade hemodinâmica, vômitos, aspiração, compressão nervosa e dificuldade de acesso rápido à via aérea.

Em pacientes críticos, a equipe também precisa considerar risco de arritmias, queda de pressão arterial, dessaturação durante a manobra e dificuldade para realizar reanimação cardiopulmonar. Além disso, pacientes com obesidade, gestação avançada, trauma instável, hipertensão intracraniana não controlada, instabilidade hemodinâmica grave ou feridas extensas na região anterior do corpo podem exigir avaliação ainda mais cuidadosa antes da pronação.

Ainda assim, muitos riscos diminuem quando a equipe segue protocolos, treina a manobra e utiliza checklists. Portanto, a segurança da posição prona depende menos da posição em si e mais da indicação correta, da preparação adequada e da execução coordenada. Em hospitais que utilizam pronação com frequência, a criação de times treinados melhora a padronização e reduz eventos adversos.

Quando evitar ou ter cautela com o decúbito ventral?

A equipe deve avaliar contraindicações absolutas e relativas conforme o cenário. Em geral, instabilidade de coluna não controlada, trauma facial importante, queimaduras ou feridas extensas na região ventral, instabilidade hemodinâmica grave, arritmias não controladas e dificuldade extrema de manejo da via aérea podem limitar ou contraindicar a posição. Além disso, algumas condições não impedem automaticamente a pronação, mas exigem adaptações, como obesidade, gestação, dispositivos abdominais, drenos, cirurgias recentes e hipertensão intracraniana.

Na prática, a decisão deve equilibrar risco e benefício. Por exemplo, um paciente com SDRA grave e hipoxemia refratária pode se beneficiar muito da pronação, mesmo quando apresenta fatores que aumentam a complexidade da manobra. Entretanto, se a equipe não consegue proteger via aérea, acessos e estabilidade hemodinâmica, o risco pode superar o benefício. Portanto, a indicação deve envolver avaliação multiprofissional, especialmente em UTI e centro cirúrgico.

Cuidados após o retorno ao decúbito dorsal

Depois de um ciclo em posição prona, a equipe deve reavaliar o paciente em decúbito dorsal. Essa etapa inclui checagem de pele, face, olhos, cavidade oral, dispositivos, tubo orotraqueal, cateteres, drenos e parâmetros ventilatórios. Além disso, a equipe deve comparar oxigenação antes, durante e depois da pronação. Essa comparação ajuda a definir se novos ciclos serão necessários.

Também é importante avaliar sinais de lesão por pressão, edema, dor, alteração neurológica periférica e alterações hemodinâmicas. Em pacientes acordados, a equipe deve perguntar sobre desconforto, dormência, dor cervical, dor nos ombros ou alterações visuais. Em pacientes sedados, por outro lado, a equipe precisa inspecionar ativamente os pontos de pressão e manter vigilância contínua.

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Referências bibliográficas

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