Hidradenite supurativa: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
A hidradenite supurativa é uma doença dermatológica inflamatória crônica, que afeta as glândulas sudoríparas apócrinas, localizadas principalmente nas regiões axilar, inguinal, perianal, sob os seios e na região submamária. Sua característica mais marcante são lesões dolorosas e recorrentes, como abscessos, fístulas e cicatrizes, que podem comprometer significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Embora a hidradenite seja uma condição comum, muitas vezes ela é subdiagnosticada e mal interpretada, sendo confundida com outras doenças da pele, como furunculose ou acne.
Este texto oferece uma visão detalhada sobre o diagnóstico, as opções de tratamento e o impacto dessa doença na qualidade de vida dos pacientes, a fim de proporcionar maior compreensão e orientar a gestão clínica de quem enfrenta essa condição.
O que é hidradenite supurativa?
A hidradenite supurativa é uma doença inflamatória crônica das glândulas sudoríparas apócrinas. Essas glândulas são responsáveis pela produção de suor, mas também estão associadas à secreção de substâncias lipídicas e proteicas, sendo mais abundantes em áreas do corpo com pele mais espessa e propensa à fricção, como axilas, virilha, área perianal e sob os seios.
Em indivíduos com HS, ocorre uma obstrução e inflamação dos ductos das glândulas sudoríparas apócrinas, o que leva à formação de nódulos, abscessos dolorosos, fístulas (canais anormais entre as camadas da pele) e cicatrizes. Embora a doença seja crônica, sua gravidade pode variar amplamente entre os pacientes, desde episódios leves, com poucas lesões, até formas mais graves e debilitantes, com destruição extensa da pele.
Diagnóstico da hidradenite supurativa
O diagnóstico de hidradenite supurativa é essencialmente clínico e se baseia na identificação de sinais e sintomas característicos. Inicialmente, a presença de nódulos dolorosos ou abscessos recidivantes nas áreas típicas do corpo já levanta a suspeita. À medida que a doença progride, outras manifestações podem surgir, como fístulas, que são canais subcutâneos que conectam diferentes áreas afetadas pela doença.
A avaliação do quadro clínico do paciente deve incluir a classificação de Hurley, que divide a hidradenite supurativa em três estágios:
- Estágio I: lesões isoladas, como nódulos ou abscessos, sem fístulas ou cicatrizes. É a forma mais inicial da doença.
- Estágio II: lesões recorrentes e drenantes, com presença de fístulas e cicatrizes, embora as áreas afetadas ainda sejam bem delimitadas.
- Estágio III: a doença avançada, com múltiplas fístulas interconectadas e cicatrização extensa, levando à destruição da pele e formação de grandes cicatrizes.
Embora o diagnóstico seja em grande parte visual, exames complementares podem ser solicitados em casos de dúvida ou para descartar outras condições. Indica-se cultura microbiológica para identificar infecções secundárias causadas por bactérias, como Staphylococcus aureus, que frequentemente coloniza as lesões.
Além disso, é importante diferenciar a hidradenite de outras condições que podem apresentar sintomas semelhantes, como furunculose, acne conglobata e fístulas perianais associadas a doenças inflamatórias intestinais.
Tratamento da hidradenite supurativa
O tratamento da hidradenite supurativa visa controlar a inflamação, prevenir infecções secundárias e melhorar a qualidade de vida do paciente. Embora não exista uma cura definitiva, a combinação de estratégias médicas e, em alguns casos, cirúrgicas, pode ajudar a controlar os sintomas e prevenir a progressão da doença.
Tratamento médico
O manejo clínico envolve principalmente o uso de medicamentos para controlar a inflamação, prevenir complicações e aliviar a dor associada às lesões.
Antibióticos utilizados na hidradenite supurativa
Nos estágios iniciais ou em casos com infecção bacteriana secundária, antibióticos tópicos, como a clindamicina, ou antibióticos orais, como as tetraciclinas (doxiciclina, minociclina), são frequentemente utilizados. Eles têm efeitos anti-inflamatórios e antimicrobianos, ajudando a reduzir a inflamação e controlar infecções. Em alguns casos, pode-se utilizar antibióticos de espectro mais amplo, como clindamicina ou rifampicina, em associação.
Retinoides
O uso de acitrretino, um retinoide oral, pode ser eficaz no controle da HS moderada a grave, reduzindo a produção de sebo e a formação de lesões. No entanto, os efeitos colaterais dos retinoides, como secura cutânea e teratogenicidade, exigem cautela no seu uso
Imunossupressores e corticosteroides
Em casos de surtos graves, pode-se prescrever os corticosteroides para reduzir a inflamação rapidamente. No entanto, evita-se o uso prolongado de esteroides devido aos riscos de efeitos colaterais, como atrofia cutânea e distúrbios metabólicos.
Em situações mais graves, medicamentos imunossupressores, como metotrexato, podem ser considerados, embora seu uso seja restrito devido aos potenciais efeitos adversos.
Terapias biológicas
A introdução de terapias biológicas mudou significativamente o tratamento da hidradenite supurativa grave. Medicamentos como os inibidores do TNF-alfa (adalimumabe e infliximabe) e os inibidores da IL-12/23 (ustekinumabe) têm mostrado resultados promissores na redução da inflamação e prevenção das lesões.
Indica-se esses medicamentos principalmente para pacientes com HS de moderada a grave que não respondem a tratamentos convencionais.
Tratamento cirúrgico
Em casos graves ou em pacientes com doença que não responde aos tratamentos clínicos, a cirurgia pode ser necessária. O tratamento cirúrgico pode envolver:
- Drenagem de abscessos: nos estágios iniciais ou durante surtos, pode-se realizar a drenagem de abscessos para aliviar a dor e reduzir a infecção local
- Ressecção de pele afetada: em casos mais graves, necessita-se remover áreas extensamente afetadas pela doença, como fístulas ou grandes cicatrizes. Esse procedimento visa melhorar a qualidade estética e funcional da pele
- Procedimentos de reconstrução: em estágios avançados, após a remoção de tecido afetado, podem ser necessárias técnicas de reconstrução para restaurar a funcionalidade e a estética da área afetada, utilizando enxertos ou retalhos de pele.

Impacto na qualidade de vida
A hidradenite supurativa, além de causar dor e desconforto físico, tem um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. As lesões visíveis e a dor crônica podem afetar a autoestima e levar ao isolamento social. Muitos pacientes relatam que a condição os impede de realizar atividades cotidianas, como praticar exercícios, usar roupas adequadas para o clima e até mesmo interagir socialmente com confiança.
O impacto psicológico da HS também é significativo. Estudos mostram que a hidradenite supurativa está associada a altos níveis de depressão, ansiedade e transtornos de imagem corporal. O sofrimento emocional pode ser exacerbado pela natureza recorrente da doença e pela falta de uma cura definitiva.
Além disso, o tempo gasto com consultas médicas frequentes, tratamentos e possíveis hospitalizações pode afetar negativamente a vida profissional e acadêmica do paciente. Por essas razões, é essencial que o tratamento da hidradenite supurativa seja multidisciplinar, envolvendo não apenas o dermatologista, mas também outros profissionais de saúde, como psicólogos e fisioterapeutas, para oferecer um suporte completo ao paciente.
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Referências bibliográficas
- GRAHAM, Alexander J.; NORMAN, Richard A. Hidradenite supurativa: diagnóstico e tratamento. São Paulo: Editora Médica, 2018.
- JONES, Sophie L.; SMITH, Eleanor H.; BRADSHAW, Sarah E. Hidradenite Supurativa: Epidemiologia e impacto na qualidade de vida. Journal of Dermatological Research, v. 45, n. 4, p. 342-348, 2020.
