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Febre tifoide: quadro clínico, diagnóstico e tratamento

Mulher com febre tifoide verifica a temperatura corporal com um termômetro.

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A febre tifoide consiste em uma infecção bacteriana sistêmica que exige reconhecimento precoce, investigação microbiológica adequada e tratamento orientado pelo perfil de resistência antimicrobiana. A Salmonella enterica sorotipo Typhi, ou Salmonella Typhi, causa a doença e utiliza exclusivamente o ser humano como reservatório.

A transmissão ocorre, sobretudo, pela ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes de indivíduos doentes ou portadores. Por isso, a febre tifoide mantém relação direta com saneamento inadequado, dificuldade de acesso à água potável e falhas na higiene dos alimentos. No Brasil, a doença ocorre principalmente em áreas com condições sanitárias precárias, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

Embora o uso de antibióticos tenha reduzido a letalidade, a emergência de cepas multirresistentes e extensivamente resistentes tornou a escolha terapêutica mais complexa. Portanto, além de reconhecer as manifestações clínicas, o médico deve investigar viagens recentes, coletar culturas e solicitar testes de sensibilidade aos antimicrobianos sempre que possível.

O que causa a febre tifoide?

A Salmonella Typhi atravessa a mucosa intestinal após a ingestão. Em seguida, a bactéria alcança o tecido linfoide, sobrevive dentro de macrófagos e dissemina-se pela corrente sanguínea. Consequentemente, o paciente pode apresentar acometimento de múltiplos órgãos, incluindo fígado, baço, medula óssea, vesícula biliar e intestino.

Além disso, a bactéria pode colonizar a vesícula biliar e retornar ao intestino por meio da bile. Esse mecanismo contribui tanto para a eliminação fecal quanto para o desenvolvimento do estado de portador crônico, sobretudo em pessoas com litíase ou alterações estruturais da via biliar.

O período de incubação varia, em geral, entre seis e 30 dias. Entretanto, esse intervalo depende da carga bacteriana ingerida, da virulência da cepa, do estado imunológico e da acidez gástrica do paciente.

Quando suspeitar de febre tifoide?

O médico deve considerar a hipótese diante de febre persistente ou progressiva associada a manifestações sistêmicas e gastrointestinais. Contudo, como nenhum achado clínico apresenta especificidade suficiente, a avaliação epidemiológica ocupa uma posição central no raciocínio diagnóstico.

Nesse sentido, a anamnese deve explorar:

  • Viagem recente para áreas endêmicas
  • Consumo de água sem tratamento
  • Ingestão de alimentos crus ou mal cozidos
  • Contato com pessoa que apresentou febre tifoide
  • Trabalho com manipulação de alimentos
  • Exposição a ambientes sem saneamento adequado
  • Uso prévio de antimicrobianos
  • Imunossupressão, especialmente infecção pelo HIV
  • Histórico de vacinação contra febre tifoide

Além disso, o médico deve perguntar quando os sintomas começaram e como evoluíram. A febre tifoide costuma apresentar início insidioso, diferentemente de diversas infecções bacterianas agudas que provocam deterioração clínica abrupta.

Qual é o quadro clínico da febre tifoide?

Manifestações iniciais

Nas primeiras fases, o paciente geralmente desenvolve febre progressiva, cefaleia, astenia, anorexia, mal-estar e mialgia. Além disso, pode relatar dor abdominal difusa, náuseas, tosse seca e alterações do hábito intestinal.

A constipação aparece com frequência em adultos. Por outro lado, crianças e pessoas imunossuprimidas podem apresentar diarreia com maior frequência. Portanto, a ausência de diarreia não afasta o diagnóstico.

As manifestações mais frequentes incluem:

  • Febre persistente
  • Cefaleia
  • Mal-estar e prostração
  • Anorexia
  • Dor abdominal
  • Constipação ou diarreia
  • Náuseas e vômitos
  • Tosse seca
  • Hepatomegalia ou esplenomegalia

Classicamente, alguns pacientes apresentam dissociação entre a temperatura e a frequência cardíaca, fenômeno conhecido como bradicardia relativa. Entretanto, esse achado possui sensibilidade e especificidade limitadas. Assim, o médico não deve utilizá-lo isoladamente para confirmar ou excluir a doença.

Roséolas tíficas

As roséolas tíficas correspondem a lesões maculopapulares discretas, róseas e transitórias, geralmente localizadas no tronco. Embora os textos clássicos destaquem esse sinal, somente uma parcela dos pacientes o apresenta. Além disso, as lesões podem passar despercebidas em peles mais pigmentadas.

Portanto, a presença das roséolas reforça a suspeita clínica, mas sua ausência não reduz substancialmente a probabilidade diagnóstica.

Evolução sem tratamento

Sem tratamento adequado, a febre pode persistir por semanas. Paralelamente, o paciente pode desenvolver perda ponderal, distensão abdominal, hepatoesplenomegalia e comprometimento progressivo do estado geral.

Além disso, complicações graves costumam surgir após duas ou três semanas de doença. A ulceração das placas de Peyer no íleo terminal pode provocar hemorragia gastrointestinal ou perfuração intestinal. Nesses casos, o paciente pode apresentar dor abdominal súbita, sinais de irritação peritoneal, queda da hemoglobina, instabilidade hemodinâmica ou sangramento digestivo.

Outras complicações possíveis incluem:

  • Encefalopatia
  • Choque
  • Miocardite
  • Hepatite
  • Colecistite
  • Pneumonia
  • Injúria renal aguda
  • Coagulação intravascular disseminada
  • Infecções focais em ossos, articulações ou sistema nervoso central

Além disso, pessoas com HIV avançado podem desenvolver doença mais grave e maior risco de recaída. Dessa maneira, o médico deve considerar testagem para HIV quando o contexto clínico ou epidemiológico justificar a investigação.

Como diagnosticar a febre tifoide?

Hemocultura

A hemocultura representa o principal método diagnóstico na prática clínica. Portanto, o médico deve coletá-la antes do início do antibiótico sempre que essa conduta não atrasar o tratamento de um paciente grave.

Como a sensibilidade de uma única amostra não alcança 100%, a coleta de múltiplos conjuntos pode aumentar o rendimento. Além disso, o volume adequado de sangue influencia diretamente a recuperação do microrganismo.

O laboratório deve identificar o sorotipo e realizar o teste de sensibilidade aos antimicrobianos. Atualmente, essa etapa orienta a conduta porque a resistência às fluoroquinolonas, às cefalosporinas de terceira geração e a outros antibióticos varia conforme a região geográfica.

Cultura de medula óssea

A cultura de aspirado de medula óssea apresenta sensibilidade superior à hemocultura e pode permanecer positiva mesmo após o início do tratamento. Estudos relatam sensibilidade próxima de 80% em determinados contextos.

Entretanto, o caráter invasivo limita seu uso rotineiro. Assim, o médico pode considerar o exame quando a suspeita clínica permanece elevada, mas as culturas convencionais resultam negativas, principalmente após exposição prévia a antibióticos.

Coprocultura e urocultura

A coprocultura costuma apresentar menor sensibilidade durante a fase inicial. Contudo, seu rendimento pode aumentar ao longo da evolução, à medida que a bactéria retorna ao intestino pela bile.

Já a urocultura oferece rendimento ainda menor. Portanto, hemocultura, coprocultura e urocultura não ocupam posições equivalentes na investigação inicial.

Testes sorológicos

O teste de Widal apresenta limitações importantes, incluindo reações cruzadas, resultados falso-positivos e dificuldade para distinguir infecção atual, infecção prévia e resposta vacinal. Por isso, o médico não deve utilizar esse teste como método confirmatório isolado. O CDC não recomenda a sorologia de Widal devido à elevada frequência de falsos positivos.

Do mesmo modo, testes rápidos sorológicos apresentam desempenho variável. Portanto, quando o contexto permitir, a cultura continua como referência para confirmação e avaliação da resistência.

Exames complementares

O hemograma pode mostrar leucopenia, anemia e plaquetopenia. Entretanto, o paciente também pode apresentar leucocitose, principalmente diante de perfuração intestinal ou infecção secundária. Além disso, as aminotransferases podem aumentar de forma leve a moderada.

Essas alterações ajudam a avaliar gravidade e complicações, mas não confirmam a etiologia. Consequentemente, o médico deve interpretar os exames complementares em conjunto com a história epidemiológica, o quadro clínico e as culturas.

Quais diagnósticos diferenciais devem ser considerados?

Como a febre tifoide provoca uma síndrome febril inespecífica, o diagnóstico diferencial varia conforme a região, a exposição e as manifestações predominantes.

Entre as principais possibilidades, destacam-se:

  • Malária
  • Dengue e outras arboviroses
  • Leptospirose
  • Brucelose
  • Tuberculose
  • Riquetsioses
  • Infecção aguda pelo HIV
  • Hepatites virais
  • Endocardite infecciosa
  • Abscessos profundos
  • Leishmaniose visceral
  • Infecções por Salmonella Paratyphi

Em viajantes com febre, o médico deve excluir malária rapidamente quando houver exposição relevante. Além disso, diante de dor abdominal intensa ou sinais peritoneais, deve investigar perfuração intestinal e outras causas de abdome agudo.

Como tratar a febre tifoide?

O tratamento combina antimicrobianos, hidratação, suporte clínico e monitoramento de complicações. No entanto, a escolha do antibiótico exige avaliação individualizada, pois o padrão de resistência varia de acordo com o local de aquisição da infecção.

Antes de iniciar a terapia, o médico deve:

  • Avaliar a gravidade clínica
  • Obter hemoculturas, se possível
  • Investigar viagens e procedência geográfica
  • Verificar o uso prévio de antibióticos
  • Consultar dados locais de resistência
  • Considerar gestação, idade, alergias e função renal
  • Planejar o ajuste após o antibiograma

Doença não complicada

Em pacientes clinicamente estáveis, sem alteração do nível de consciência, sangramento, choque ou sinais de perfuração, a azitromicina constitui uma opção empírica oral em muitos cenários. A ceftriaxona também representa uma alternativa, especialmente quando o paciente não tolera medicamentos por via oral ou necessita de observação hospitalar.

Contudo, o médico deve considerar a procedência da infecção. Cepas resistentes à ceftriaxona já circulam em alguns países, particularmente Paquistão e Iraque. Por outro lado, ceftriaxona e azitromicina continuam adequadas como opções empíricas para infecções adquiridas na maioria dos demais países, conforme a orientação clínica do CDC.

A duração do tratamento varia conforme o medicamento, a gravidade, a resposta clínica e o perfil de sensibilidade. Em geral, esquemas com azitromicina utilizam cerca de sete dias, enquanto a ceftriaxona pode exigir de 10 a 14 dias. Entretanto, o médico deve seguir protocolos institucionais atualizados e ajustar o esquema ao antibiograma.

Doença complicada ou grave

Pacientes com choque, encefalopatia, perfuração intestinal, hemorragia significativa, incapacidade de hidratação oral ou disfunção orgânica exigem internação. Além disso, a equipe deve solicitar avaliação cirúrgica imediata diante de suspeita de perfuração.

Em infecções graves com risco de Salmonella Typhi extensivamente resistente, um carbapenêmico, como o meropeném, pode constituir a opção empírica inicial. Posteriormente, o médico deve descalonar o tratamento quando a cultura e o antibiograma permitirem.

Além da antibioticoterapia, o manejo pode incluir:

  • Reposição criteriosa de fluidos e eletrólitos
  • Monitoramento hemodinâmico
  • Correção de distúrbios metabólicos
  • Suporte nutricional
  • Transfusão em casos selecionados de hemorragia
  • Avaliação cirúrgica diante de perfuração
  • Monitoramento do nível de consciência e da função orgânica

Em casos selecionados de doença grave com choque refratário ou encefalopatia, equipes especializadas podem considerar corticosteroides. Contudo, essa decisão exige cautela, pois a evidência disponível deriva de estudos antigos e não justifica o uso rotineiro.

Por que evitar fluoroquinolonas como terapia empírica?

Durante muitos anos, ciprofloxacino e outras fluoroquinolonas ocuparam posição central no tratamento. Entretanto, a redução de suscetibilidade disseminou-se em diversas regiões.

Consequentemente, mesmo cepas classificadas por métodos antigos como sensíveis podem apresentar resposta clínica lenta, falha terapêutica ou recaída. Por isso, o CDC desaconselha o uso empírico de fluoroquinolonas. Ainda assim, o antibiograma pode sustentar seu uso em situações específicas, desde que o laboratório aplique pontos de corte atualizados.

Da mesma forma, cloranfenicol, ampicilina e trimetoprima-sulfametoxazol não devem orientar a terapia empírica apenas porque diretrizes antigas os recomendavam. Contudo, esses medicamentos podem recuperar utilidade quando o antibiograma comprova sensibilidade e o contexto clínico favorece sua escolha.

Como avaliar a resposta ao tratamento?

Mesmo com antibiótico adequado, a febre pode persistir por três a cinco dias. Portanto, a ausência de defervescência imediata não indica necessariamente falha terapêutica.

Entretanto, se a febre persistir além desse período ou o quadro piorar, o médico deve reavaliar:

  • Adesão ao tratamento
  • Absorção do medicamento
  • Resistência antimicrobiana
  • Dose e duração do esquema
  • Formação de foco infeccioso
  • Perfuração ou hemorragia intestinal
  • Diagnóstico alternativo

Além disso, aproximadamente 10% dos pacientes que recebem tratamento inadequado podem apresentar recaída uma a três semanas depois da recuperação inicial. Nessa situação, o médico deve repetir culturas e definir um novo esquema conforme o antibiograma.

Portador crônico e controle da transmissão

Uma parcela dos pacientes mantém a eliminação de Salmonella Typhi por mais de um ano. O estado de portador crônico associa-se, sobretudo, à doença biliar e à litíase.

Por isso, o seguimento pode exigir coproculturas seriadas, especialmente em manipuladores de alimentos, profissionais de saúde e trabalhadores que cuidam de crianças ou pessoas vulneráveis. Além disso, as autoridades sanitárias locais podem determinar critérios específicos para afastamento e retorno ao trabalho.

O tratamento do portador crônico depende do perfil de sensibilidade. Entretanto, alterações estruturais da vesícula podem dificultar a erradicação. Em pacientes selecionados com litíase e persistência bacteriana, a equipe pode discutir colecistectomia associada ao tratamento antimicrobiano.

A febre tifoide integra a lista nacional de doenças de notificação compulsória. Portanto, diante de caso suspeito ou confirmado, o profissional deve comunicar a vigilância epidemiológica conforme o fluxo local.

O que não pode faltar na conduta médica?

A febre tifoide exige mais do que a prescrição de um antibiótico. Primeiramente, o médico precisa reconhecer o contexto epidemiológico. Em seguida, deve obter culturas e avaliar a gravidade. Posteriormente, precisa iniciar terapia compatível com a resistência provável e ajustá-la conforme os resultados microbiológicos.

Além disso, o acompanhamento deve abranger complicações, recaída e possível estado de portador. Finalmente, medidas de higiene, segurança alimentar, notificação e investigação de contatos reduzem a transmissão.

Dessa forma, a combinação entre raciocínio clínico, diagnóstico microbiológico e uso criterioso de antimicrobianos oferece a melhor estratégia para diminuir complicações, mortalidade e disseminação de cepas resistentes.

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Referências bibliográficas

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