A febre sem sinais localizatórios representa um desafio frequente na prática pediátrica. A criança apresenta temperatura elevada, porém a anamnese e o exame físico inicial não revelam um foco claro. Na maioria das vezes, uma infecção viral autolimitada explica o quadro. Contudo, o médico precisa reconhecer rapidamente a pequena parcela de pacientes com infecção bacteriana grave, sobretudo infecção do trato urinário, bacteremia, pneumonia oculta ou meningite.
Por isso, a investigação não deve seguir uma lista automática de exames. Em vez disso, o raciocínio clínico deve integrar idade, estado geral, duração e intensidade da febre, vacinação, comorbidades, achados do exame físico e possibilidade de reavaliação. Além disso, a idade muda profundamente o risco: quanto menor a criança, menor a tolerância para uma conduta apenas expectante.
O que caracteriza febre sem sinais localizatórios?
Chamamos de febre sem sinais localizatórios o quadro febril agudo no qual a história clínica e o exame físico completo não identificam a origem da febre. Em crianças de 3 a 36 meses, o conceito geralmente envolve febre com poucos dias de evolução, frequentemente menos de cinco dias. Portanto, o termo não equivale a febre de origem indeterminada.
Febre sem foco não é febre de origem indeterminada
A febre de origem indeterminada descreve um quadro mais prolongado, geralmente com pelo menos uma semana de duração, sem diagnóstico após avaliação clínica e laboratorial inicial. Assim, enquanto a febre sem sinais localizatórios exige triagem de risco e busca por infecção oculta, a febre prolongada exige uma investigação mais ampla, que também considera doenças inflamatórias, reumatológicas, oncológicas e outras causas não infecciosas.
Essa distinção evita dois erros. Por um lado, impede uma investigação excessiva nos primeiros dias de uma provável virose. Por outro lado, reduz o risco de tratar como “virose prolongada” uma febre que já pede outra estratégia diagnóstica.
A primeira etapa: avaliar a gravidade
Antes de solicitar exames, o médico deve responder a uma pergunta central: a criança apresenta bom estado geral? A aparência clínica pesa mais do que a altura isolada da temperatura. Entretanto, uma criança inicialmente estável pode evoluir, razão pela qual o acompanhamento também integra a avaliação de segurança.
A equipe deve procurar sinais de comprometimento sistêmico, perfusão inadequada, alteração neurológica e dificuldade respiratória. Além disso, deve avaliar a interação com o ambiente, o padrão do choro, a capacidade de beber líquidos e a resposta aos cuidadores.
Sinais que exigem investigação imediata
- Prostração intensa ou baixa responsividade
- Irritabilidade inconsolável
- Alteração do nível de consciência
- Perfusão periférica ruim ou extremidades frias
- Taquicardia desproporcional ao grau de febre
- Hipotensão ou sinais de choque
- Dificuldade respiratória, gemência ou cianose
- Petéquias ou púrpura
- Rigidez de nuca, convulsão ou déficit neurológico
- Desidratação moderada ou grave
- Dor intensa ou piora clínica progressiva
Quando a criança apresenta qualquer um desses sinais, o médico deve priorizar estabilização, investigação de infecção bacteriana invasiva e início rápido do tratamento conforme o protocolo institucional. Nesse cenário, a busca pelo foco não pode atrasar medidas de suporte.
Como conduzir a anamnese
Uma boa anamnese reduz exames desnecessários e direciona a investigação. Em primeiro lugar, o médico deve confirmar como o cuidador mediu a temperatura, qual o maior valor registrado e há quanto tempo a febre persiste. Em seguida, deve reconstruir a evolução do quadro e procurar sintomas discretos que a família pode não reconhecer como localizatórios.
História da febre e sintomas associados
É importante perguntar sobre calafrios, recusa alimentar, vômitos, diarreia, tosse, coriza, dificuldade respiratória, dor ao urinar, alteração do odor da urina, redução do volume urinário, dor abdominal, cefaleia, dor osteoarticular e alterações de pele. Contudo, a ausência desses sintomas não exclui infecção, especialmente em lactentes.
Além disso, o padrão de resposta ao antitérmico não diferencia, de forma confiável, uma infecção viral de uma infecção bacteriana. A melhora do conforto após a medicação ajuda no cuidado, mas não encerra o raciocínio diagnóstico.
Antecedentes que modificam o risco
O médico também deve investigar:
- Idade exata, especialmente nos primeiros 90 dias de vida
- Prematuridade e intercorrências neonatais
- Situação vacinal, com atenção às vacinas pneumocócica e contra Haemophilus influenzae tipo b
- Uso recente de antibióticos
- Infecção urinária prévia ou anomalia do trato urinário
- Imunodeficiência, doença falciforme ou uso de imunossupressores
- Cirurgias, dispositivos invasivos ou internações recentes
- Contato com pessoas doentes
- Viagens, contato com animais e exposição a água ou alimentos de risco
- Uso de medicamentos que podem causar febre
- Capacidade da família de observar a criança e retornar ao serviço
Essas informações modificam a probabilidade pré-teste. Por exemplo, uma criança com vacinação incompleta pode apresentar risco maior de bacteremia oculta do que uma criança plenamente imunizada. Da mesma forma, uma condição imunossupressora retira o paciente dos algoritmos destinados a crianças previamente saudáveis.
O exame físico precisa ser completo e repetido
A ausência de foco no primeiro exame não encerra a avaliação. Pelo contrário, alguns sinais aparecem ao longo das horas. Portanto, o médico deve examinar a criança por completo e, quando necessário, repetir o exame após hidratação, controle do desconforto ou período de observação.
O exame deve incluir avaliação do estado geral, sinais vitais, hidratação, perfusão, pele, mucosas, fontanela, ouvidos, orofaringe, pescoço, linfonodos, aparelho respiratório, sistema cardiovascular, abdome, região lombar, genitais, articulações e sistema neurológico. Além disso, o profissional deve despir a criança para não perder lesões cutâneas, edema articular ou sinais de trauma.
Achados discretos que podem revelar o foco
Uma taquipneia persistente pode apontar pneumonia, mesmo sem tosse exuberante. Do mesmo modo, dor à palpação lombar ou suprapúbica pode sugerir infecção urinária. Lesões orais, exantemas, adenomegalias, limitação de movimento e dor óssea também podem reorganizar completamente as hipóteses.
Ainda assim, o médico deve evitar atribuir a febre a um achado pouco convincente. Uma orofaringe discretamente hiperemiada, por exemplo, não explica automaticamente uma febre alta. Nesse contexto, a coerência entre história, exame e evolução clínica importa mais do que um achado isolado.
A idade orienta a intensidade da investigação
Crianças com menos de 3 meses
Qualquer temperatura de 38 °C ou mais em um lactente com menos de 3 meses exige avaliação médica imediata. Nos primeiros 28 dias, o risco de infecção bacteriana invasiva justifica uma abordagem particularmente cautelosa. Além disso, mesmo um lactente com boa aparência pode apresentar uma infecção relevante.
Entre 29 e 90 dias, protocolos específicos combinam idade, exame clínico, urina e marcadores inflamatórios para classificar o risco. Conforme os resultados, a equipe pode solicitar hemocultura, cultura de urina, análise do líquido cefalorraquidiano e outros exames.
Como os critérios mudam entre faixas etárias e serviços, o médico deve seguir um protocolo validado e garantir reavaliação próxima. Além disso, os algoritmos destinados a crianças de 3 a 36 meses não se aplicam diretamente aos lactentes mais jovens.
Crianças de 3 a 36 meses
Nessa faixa etária, o estado geral e a vacinação ocupam posição central. Em uma criança bem-disposta, plenamente imunizada e sem fatores de risco, a vacinação reduziu de forma importante a ocorrência de bacteremia oculta. Consequentemente, o médico não precisa solicitar hemograma e hemocultura de rotina para toda criança com febre sem foco.
Por outro lado, a infecção do trato urinário continua entre as principais infecções bacterianas ocultas. Portanto, a análise de urina e a urocultura merecem atenção, sobretudo quando a criança apresenta fatores de risco, febre alta ou persistente e ausência completa de outro foco.
Se a criança apresenta aparência doente, vacinação incompleta, comorbidades ou dificuldade de acompanhamento, o limiar para ampliar a investigação deve cair. Nesses casos, o médico pode incluir hemograma, proteína C reativa, procalcitonina, hemocultura, radiografia de tórax e punção lombar, conforme o quadro clínico.
Crianças com mais de 36 meses
Em crianças maiores, a história e o exame físico costumam localizar melhor o problema. Ainda assim, a ausência de foco exige atenção à duração da febre, aos sintomas sistêmicos e às exposições. Assim, o médico deve direcionar os exames para as hipóteses mais prováveis, em vez de solicitar painéis amplos sem uma pergunta clínica definida.
Quando a febre persiste por vários dias, surgem perda de peso, sudorese noturna, dor óssea, artrite, adenomegalias, hepatoesplenomegalia ou alterações hematológicas, o raciocínio deve ultrapassar as infecções agudas comuns.
Quais exames complementares considerar?
Urina tipo 1 e urocultura
A infecção urinária ocupa papel central na investigação da febre sem foco. O médico deve considerar idade, sexo, circuncisão, duração e intensidade da febre, histórico de infecção urinária e presença de anomalias urológicas. Além disso, uma criança sem qualquer outro foco clínico apresenta maior probabilidade relativa de infecção urinária.
A qualidade da amostra importa. Em crianças sem controle esfincteriano, a equipe deve preferir cateterismo vesical ou punção suprapúbica quando precisa confirmar o diagnóstico por cultura. O saco coletor pode ajudar em estratégias de triagem em alguns contextos, porém sua alta taxa de contaminação limita o valor de uma cultura positiva.
A urinálise ajuda na decisão inicial, enquanto a urocultura confirma o diagnóstico e orienta o tratamento. Contudo, um resultado inicial pouco alterado não elimina totalmente a hipótese quando a suspeita clínica permanece alta.
Hemograma, proteína C reativa e procalcitonina
O hemograma pode contribuir para a avaliação, mas a contagem de leucócitos isolada apresenta desempenho limitado. Por isso, o médico deve interpretar neutrófilos, proteína C reativa e procalcitonina em conjunto com idade, aparência clínica e evolução.
A procalcitonina pode ajudar na identificação de maior risco de infecção bacteriana invasiva, especialmente em protocolos para lactentes jovens. Entretanto, nenhum biomarcador substitui o exame clínico, e nenhum resultado isolado garante segurança para alta.
Hemocultura
A hemocultura ganha importância quando a criança apresenta aparência tóxica, vacinação incompleta, imunossupressão, marcadores inflamatórios elevados ou suspeita de sepse.
Em contrapartida, a baixa frequência atual de bacteremia oculta em crianças bem-dispostas e plenamente imunizadas reduz o benefício da coleta rotineira nessa população. Um estudo da era pós-vacina pneumocócica encontrou mais culturas contaminadas do que casos verdadeiros de bacteremia entre crianças de 3 a 36 meses avaliadas por febre sem foco.
Além disso, culturas contaminadas podem gerar internações, antibióticos e novos exames sem necessidade. Portanto, o médico deve solicitar hemocultura quando o resultado realmente puder modificar a conduta.
Radiografia de tórax
A radiografia de tórax não integra a investigação automática da febre sem foco. O médico deve solicitá-la quando encontra taquipneia, hipoxemia, esforço respiratório, ausculta alterada ou outros elementos que sustentem pneumonia.
Em situações selecionadas, febre alta associada a leucocitose importante também pode aumentar a suspeita de pneumonia oculta. Contudo, a imagem não substitui a avaliação clínica e pode revelar achados inespecíficos. Assim, a indicação precisa responder a uma hipótese clara.
Punção lombar
A punção lombar entra na investigação quando o médico suspeita de meningite ou infecção bacteriana invasiva. Alteração neurológica, irritabilidade intensa, convulsão, rigidez de nuca, abaulamento de fontanela e instabilidade clínica aumentam essa preocupação.
Em lactentes jovens, protocolos específicos podem indicar análise do líquido cefalorraquidiano mesmo sem sinais meníngeos clássicos. Por outro lado, em crianças maiores, bem-dispostas e sem alterações neurológicas, a equipe não realiza o exame de rotina.
Quando a criança mantém estabilidade clínica, a equipe deve coletar as culturas necessárias antes do antibiótico. Entretanto, diante de sinais de sepse, choque ou meningite bacteriana, a investigação não deve atrasar o tratamento.
Testes virais
Testes para influenza, SARS-CoV-2 e outros vírus podem ajudar durante períodos de circulação elevada, sobretudo quando o resultado modifica isolamento, tratamento ou acompanhamento.
Ainda assim, um teste viral positivo não exclui completamente uma coinfecção bacteriana, principalmente infecção urinária em lactentes. Portanto, o médico deve interpretar o resultado dentro do contexto clínico.
Um painel molecular amplo, sem impacto esperado na conduta, pode aumentar custos e identificar vírus que não explicam todo o quadro. Assim, o profissional deve solicitar o teste quando ele responder a uma pergunta clínica relevante.
Quando a duração da febre muda a investigação?
A evolução temporal funciona como um dado diagnóstico. Nos primeiros dias, muitas viroses ainda não apresentam sinais específicos. Por isso, uma reavaliação bem programada pode localizar o foco posteriormente e evitar exames precoces de baixo rendimento.
Entretanto, a persistência da febre por sete dias ou mais exige uma revisão completa da história e do exame. Quando o quadro alcança cerca de oito dias sem explicação após avaliação inicial, o médico deve considerar febre de origem indeterminada e ampliar as hipóteses.
Investigação da febre prolongada
Nessa etapa, o médico deve revisar viagens, contato com animais, exposição a tuberculose, medicamentos, imunizações, antecedentes familiares, padrão da febre, perda de peso, sudorese, dor articular e sintomas gastrointestinais.
Além disso, deve repetir o exame físico em busca de linfonodos, visceromegalias, sopros, alterações oculares, lesões cutâneas e sinais musculoesqueléticos. A repetição do exame possui grande valor porque algumas manifestações aparecem apenas durante a evolução.
Os exames iniciais podem incluir:
- Hemograma completo com diferencial e revisão do esfregaço
- Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação
- Função renal e eletrólitos
- Enzimas hepáticas, bilirrubinas e albumina
- Urina tipo 1 e urocultura
- Hemoculturas conforme o padrão febril e a suspeita clínica
- Radiografia de tórax
- Testes dirigidos pela epidemiologia, exposição e achados clínicos
Em seguida, os resultados devem orientar exames mais específicos. Assim, o médico evita uma “varredura” indiscriminada, que aumenta falsos positivos e pode desviar o raciocínio.
Além disso, a equipe deve considerar infecções localizadas, doenças inflamatórias, doença de Kawasaki, síndromes autoinflamatórias, neoplasias e febre medicamentosa, conforme a idade e o contexto clínico.
A reavaliação faz parte da investigação
Uma conduta ambulatorial segura exige critérios claros. A criança precisa manter bom estado geral, hidratação adequada e capacidade de ingerir líquidos. Além disso, a família precisa compreender os sinais de alerta e ter acesso a retorno rápido.
O médico deve orientar nova avaliação quando ocorrer:
- Piora do estado geral
- Sonolência excessiva ou irritabilidade intensa
- Dificuldade respiratória
- Redução importante da diurese
- Recusa persistente de líquidos
- Convulsão
- Petéquias ou manchas arroxeadas
- Dor localizada nova
- Febre que persiste além do período combinado
- Qualquer preocupação relevante do cuidador
Além disso, o serviço precisa acompanhar resultados pendentes, especialmente culturas. A responsabilidade não termina na alta. Pelo contrário, um sistema confiável de contato e reavaliação reduz atrasos no tratamento.
Roteiro prático para o raciocínio clínico
Diante de uma criança com febre sem sinais localizatórios, o médico pode organizar a abordagem em cinco movimentos:
- Confirmar a febre, sua duração e o método de aferição
- Avaliar aparência, perfusão, respiração, hidratação e estado neurológico
- Classificar o risco pela idade, vacinação, comorbidades e possibilidade de retorno
- Procurar infecção urinária e solicitar outros exames quando a probabilidade clínica justificar
- Definir acompanhamento, sinais de alerta e prazo de reavaliação
Em resumo, a investigação eficaz não depende do maior número possível de exames. Ao contrário, ela depende de uma seleção coerente, orientada pelo risco e reavaliada ao longo do tempo.
Estude Pediatria com o SanarFlix
Estude Pediatria com o SanarFlix e transforme conteúdo em confiança para a prática.

Referências bibliográficas
- ALLEN, Coburn H. Fever without a source in children 3 to 36 months of age: evaluation and management. In: UPTODATE. Waltham, MA: UpToDate, 2026. Atualizado em: 5 jan. 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/fever-without-a-source-in-children-3-to-36-months-of-age-evaluation-and-management. Acesso em: 31 jul. 2026.
- PALAZZI, Debra L. Fever of unknown origin in children: evaluation. In: UPTODATE. Waltham, MA: UpToDate, 2025. Atualizado em: 15 ago. 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/fever-of-unknown-origin-in-children-evaluation. Acesso em: 31 jul. 2026.