A febre de origem indeterminada (FOI), também chamada de febre de origem obscura, é uma síndrome clínica que tem como principal manifestação a febre, que apesar de esforços para identificação da causa, permanece sem uma etiologia esclarecida.
Foi definida por Petersdorf e Beeson, em 1961, através de 3 critérios:
- Temperatura axilar superior a 37,8 em diversas ocasiões;
- Duração mínima de 3 semanas;
- Ausência de diagnóstico etiológico após uma semana de investigação hospitalar.
Essa definição foi utilizada por mais de 30 anos e tinha como principal objetivo excluir pacientes com doenças autolimitadas, normalmente com infecções de origem viral, que duravam menos de 3 semanas para resolução, e pacientes com doenças de diagnóstico simples após realização de exames laboratoriais.
Contudo, com o avanço da prática clínica, maior facilidade de diagnósticos ambulatoriais rápidos e maior acesso a exames laboratoriais e de imagem, alguns autores sugerem a redução do tempo de investigação para 3 dias de investigação hospitalar ou três consultas ambulatoriais.
Caso não haja esclarecimento diagnóstico neste período, o paciente se enquadra nos critérios de FOI. Porém, ponderando as dificuldades de acesso a consulta e exames no Brasil, principalmente na rede pública de saúde, este novo conceito é considerado inadequado para a realidade da população.
Etiologias da Febre de Origem Indeterminada (FOI)
Várias possíveis etiologias estão relacionadas a FOI. As principais são infecções, doenças inflamatórias não infecciosas, como doenças do tecido conjuntivo, e neoplasias malignas.
A febre ocorre devido a presença de pirógenos agindo no centro termorregulador do hipotálamo, levando a um aumento no limiar de temperatura, proporcionando respostas metabólicas para produção e conservação de calor, como vasoconstrição periférica, aumento do metabolismo e tremores.
Quando a temperatura corporal supera o novo limiar de temperatura a resposta metabólica é direcionada para dissipação do calor, na tentativa de reduzir a temperatura, como vasodilatação periférica e sudorese.
Assim, apesar da temperatura basal encontrar-se aumentada na febre, a termorregulação do organismo se mantém, respeitando até mesmo o ritmo circadiano fisiológico, no qual a temperatura mínima é alcançada entre 4 e 6 horas e a temperatura máxima entre 16 e 20 horas.
Existe uma grande diversidade de pirógenos exógenos, como drogas, microorganismos, complexos imunes e antígenos não microbianos. Por outro lado, existe apenas uma pequena quantidade de pirógenos exógenos identificados, a citar IL-1, IL-6, IL-8, TNF, IFN e MIP-1.
O mecanismo pelo qual os pirógenos endógenos levam a febre não está completamente esclarecida, mas sabe-se que o IL-1, TNF, IFN e IL-6, ao atingirem a circulação, estimulam a produção de prostaglandina E2 em macrófagos e células endoteliais na porção ântero-ventral do terceiro ventrículo, localizado próximo ao hipotálamo.
A prostaglandina E2 chega então ao hipotálamo e estimula a produção de AMP cíclico, que aumenta o limiar de temperatura e leva a respostas metabólicas de conservação de calor. Já a IL-8 e o MIP-1 tem ação independente de prostaglandina, através do fator liberador do ACTH que age estimulando as vias simpáticas de produção de calor.
Alterações metabólicas da febre |
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Alteração metabólica |
Importância clínica |
Aumento do metabolismo em 13% para cada ºC de elevação de temperatura |
Necessária hiperalimentação em doenças febris prolongadas. |
Aumento da perda insensível de água |
Necessidade de aumento de hidratação |
Aumento da frequência cardíaca em 15bpm para cada ºC de elevação de temperatura |
Possível indução de insuficiência cardíaca ou angina |
Hiperventilação na fase inicial |
Possibilidade de alcalose respiratória |
Depleção eletrolítica |
Possibilidade de necessidade de reposição de Na+, K+ e Cl+ |
Menor disponibilidade de zinco e ferro séricos |
Possibilidade de anemia de doença crônica |