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Gastroenterologia

Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes: Rastreamento do Câncer Colorretal: Interpretação Clínica e Indicações

A pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF) detecta quantidades microscópicas de sangue nas fezes que não são visíveis macroscopicamente. É o principal método de rastreamento não invasivo do câncer colorretal (CCR) e das lesões precursoras (pólipos adenomatosos avançados) na população geral. Dois métodos são utilizados clinicamente: o teste à base de guaiaco (gFOBT — guaiac Fecal Occult Blood Test), que detecta a atividade pseudoperoxidase da hemoglobina, e o teste imunohistoquímico fecal (FIT — Fecal Immunochemical Test), que usa anticorpos anti-hemoglobina humana, com maior especificidade para sangramento colorretal distal. O FIT é o método atualmente preferencial pelas principais diretrizes internacionais por não requerer restrições dietéticas e apresentar maior especificidade para CCR. Quando positivo, o exame indica a necessidade de colonoscopia para investigação definitiva da fonte de sangramento.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Fezes (amostra fecal coletada em frasco específico fornecido pelo laboratório)
Resultado em
1 a 3 dias úteis
Código TUSS
40306215
Especialidade
Gastroenterologia, Clínica Médica, Medicina de Família

Quando solicitar este exame?

  • Rastreamento de câncer colorretal em indivíduos de risco médio (50-75 anos, sem histórico familiar ou fatores de risco) CID Z12.1
  • Investigação de anemia ferropriva inexplicada em adultos (pesquisa de sangramento digestivo oculto) CID D50.0
  • Investigação de alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação recente) em adultos > 45 anos CID K59.9
  • Triagem em programa de rastreamento colorretal institucional ou de saúde pública CID Z12.1
  • Suspeita de sangramento gastrointestinal oculto (dor abdominal + perda ponderal + anemia) CID K92.1
  • Monitoramento após polipectomia colônica ou ressecção de CCR (em conjunto com outras estratégias) CID Z85.0
  • Investigação de doença inflamatória intestinal com exacerbação ou sangramento CID K51.9
  • Avaliação de pacientes com uso crônico de AINEs ou anticoagulantes com suspeita de sangramento digestivo CID K92.2
  • Investigação de melena ou hematoquezia de pequena monta para localização do sítio de sangramento CID K92.1

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Para gFOBT: evitar carne vermelha, aves, peixes, brócolis, nabo, rábano-silvestre e alimentos ricos em peroxidase por 3 dias antes da coleta (interferência na reação de guaiaco)
  • Para gFOBT: evitar vitamina C (ácido ascórbico) em suplementação 3 dias antes — pode inibir a reação e causar falso negativo
  • Para FIT: não há restrição dietética — é anticorpo específico para hemoglobina humana
  • Evitar coleta durante menstruação, hemorragia digestiva ativa visível, presença de hematúria significativa ou após procedimento anorretal recente
  • Não coletar em presença de diarreia aquosa intensa — a diluição reduz a concentração de hemoglobina fecal
  • Transportar a amostra refrigerada (2-8°C) se não for ao laboratório no mesmo dia — a hemoglobina fecal degrada com o calor
  • Não coletar da água do vaso — coletar diretamente das fezes para evitar diluição e contaminação com urina
  • Registrar uso de AINEs, AAS, anticoagulantes, ferro oral (pode causar escurecimento das fezes e interferir visualmente)

Valores de Referência

Valores de referência do Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes: Rastreamento do Câncer Colorretal
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
gFOBT (guaiaco) — qualitativoNegativo (ausência de reação azul)NegativoNegativoPositivo/Negativo
FIT (imunohistoquímico) — quantitativo< 20 μg Hb/g de fezes = Negativo (ponto de corte varia entre 10-20 μg/g conforme laboratório e programa de rastreamento)< 20 μg Hb/g de fezes = NegativoNão padronizado para rastreamento pediátricoμg Hb/g fezes

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes: Rastreamento do Câncer Colorretal
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
PSOF negativo em paciente assintomático de rastreamentoResultado normal — baixa probabilidade de CCR ou pólipo avançado sangrante no momento Repetir anualmente (FIT) ou a cada 1-3 anos (gFOBT); resultados negativos consecutivos reduzem progressivamente o risco
PSOF positivo em qualquer métodoPresença de sangramento gastrointestinal oculto — necessita investigação colonoscópica obrigatória Colonoscopia em até 6-8 semanas (idealmente < 4 semanas); NÃO repetir o PSOF — PSOF positivo sempre exige colonoscopia independentemente de repetição negativa
PSOF positivo + colonoscopia normalSangramento sem lesão colônica identificada — possível sangramento de trato GI superior, intestino delgado, ou lesão perdida na colonoscopia Investigar TGI alto com EDA; se EDA normal, considerar cápsula endoscópica para intestino delgado; repetir colonoscopia se preparação foi inadequada
PSOF positivo + anemia ferroprivaSangramento digestivo oculto crônico — causa mais provável de perda de ferro Colonoscopia urgente; se normal, EDA; investigar completamente o TGI — câncer colorretal e gástrico devem ser excluídos; repor ferro concomitantemente
PSOF positivo + pólipo adenomatoso na colonoscopiaLesão precursora identificada — risco de progressão para CCR se não tratada Polipectomia durante a colonoscopia; vigilância colonoscópica conforme características do pólipo (tamanho, histologia, número); rastreamento com colonoscopia (não PSOF) nos anos seguintes
PSOF positivo + massa colônica na colonoscopiaCâncer colorretal com sangramento Biópsia colonoscópica; estadiamento com TC abdome/tórax/pelve; CEA basal; encaminhamento urgente à cirurgia oncológica e oncologia clínica
FIT quantitativo com hemoglobina fecal entre 10-30 μg/g (zona cinzenta)Resultado limítrofe — sensibilidade do método e ponto de corte do laboratório são determinantes A maioria dos protocolos indica colonoscopia para qualquer valor acima do limiar; discutir com o paciente o balanço risco-benefício; considerar repetição com nova amostra se resultado muito próximo ao ponto de corte
PSOF positivo em usuário crônico de AAS ou AINEsPossível sangramento por lesão de mucosa gástrica ou duodenal induzida por AINE, além de causa colônica Colonoscopia prioritária; se normal, EDA para identificar gastropatia por AINE, úlcera péptica; considerar proteção gástrica e revisão da indicação dos AINEs

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes: Rastreamento do Câncer Colorretal
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
PSOF positivo + colonoscopia sem lesão + EDA sem lesãoSangramento de intestino delgado: tumor, angiodisplasia, doença de CrohnCápsula endoscópica, enteroscopia de duplo balão, TC enterografiaGastroenterologia
PSOF positivo + anemia ferropriva em mulher pré-menopausaSangramento menstrual vs. sangramento GI ocultoCorrelação com ciclo menstrual, PSOF repetido após período menstrual, colonoscopia se PSOF persiste positivoClínica Médica, Gastroenterologia, Ginecologia
PSOF positivo + calprotectina fecal elevada + diarreia crônicaDoença inflamatória intestinal (RCU, Crohn), colite infecciosaColonoscopia com biópsia, coprocultura, parasitológico de fezes, PCR-DIIGastroenterologia
PSOF positivo + perda de peso + CEA elevadoCâncer colorretal ou gástricoColonoscopia urgente, EDA, TC abdome/tórax, estadiamento oncológicoOncologia, Gastroenterologia
gFOBT positivo + FIT negativo na mesma amostraSangramento do TGI alto (estômago, esôfago) — a hemoglobina se degrada antes de atingir o cólonEDA prioritáriaGastroenterologia
PSOF positivo em paciente anticoaguladoSangramento digestivo induzido pela anticoagulação vs. lesão estrutural sangranteTP/INR, colonoscopia, EDA; avaliação de reversão temporária do anticoagulante para procedimento endoscópicoGastroenterologia, Clínica Médica

Medicamentos e Interferentes

  • Carne vermelha, aves e peixes (gFOBT): contêm hemoglobina animal que reage com guaiaco — causar falso positivo
  • Vitamina C em suplementação alta (gFOBT): inibe a reação de oxidação — causa falso negativo
  • Vegetais ricos em peroxidases (brócolis, nabo, rábano) (gFOBT): causam falso positivo
  • Menstruação: sangue menstrual pode contaminar a amostra — evitar coleta durante o período
  • Hemorroidas ativas: sangue hemorroidário pode ser fonte de positividade sem lesão proximal
  • Constipação severa com esforço: pode causar microtrauma mucoso e pequeno sangramento sem lesão patológica
  • Ferro oral: escurece as fezes visualmente, mas não interfere na reação do FIT; pode interferir na interpretação visual do gFOBT
  • AINEs e AAS: aumentam risco real de sangramento de mucosa — resultado positivo com essas medicações ainda requer investigação
  • Alta temperatura durante transporte: degrada a hemoglobina fecal, causando falso negativo no FIT
  • Amostra retirada da água do vaso: diluição da hemoglobina pode causar falso negativo

Contextos Clínicos Especiais

Rastreamento de risco médio (50-75 anos)

As diretrizes americanas (USPSTF, ACS) e as europeias (ESGE) recomendam rastreamento com FIT anual como alternativa à colonoscopia a cada 10 anos para adultos de risco médio entre 45-75 anos. O rastreamento com PSOF em programas organizados reduz a mortalidade por CCR em 15-33%. Qualquer resultado positivo requer colonoscopia diagnóstica. Após colonoscopia com resultado normal, o paciente passa ao rastreamento por colonoscopia (10 anos) — não é necessário continuar PSOF anual.

Pacientes com anemia ferropriva

Em adultos acima de 50 anos com anemia ferropriva inexplicada, o sangramento gastrointestinal oculto crônico é a causa mais comum a ser descartada. O PSOF tem utilidade na triagem, mas colonoscopia e EDA são mandatórias em homens com qualquer anemia ferropriva e em mulheres pós-menopausa — independentemente do resultado do PSOF. Em mulheres pré-menopausa, a investigação GI completa é indicada se o PSOF for positivo ou se a anemia ferropriva persistir após exclusão de sangramento menstrual.

Alto risco para CCR (histórico familiar, síndrome de Lynch, PAF)

Pacientes com histórico familiar de CCR em parente de 1° grau, síndrome de Lynch ou polipose adenomatosa familiar NÃO são candidatos ao rastreamento com PSOF — devem ser encaminhados diretamente para colonoscopia de vigilância, que começa mais cedo (40 anos ou 10 anos antes do caso mais jovem na família) e com intervalos menores (1-5 anos). O PSOF tem valor limitado nessa população de alto risco onde a colonoscopia é obrigatória.

Pacientes com DII

A pesquisa de sangue oculto nas fezes tem papel limitado no manejo da DII — a colonoscopia com biópsia é o padrão de avaliação de atividade. Em pacientes com DII longa (> 8-10 anos de RCU extensa ou pancolite de Crohn), o rastreamento de displasia e CCR é realizado por colonoscopia de vigilância com cromoscopia ou biópsia aleatória — não por PSOF. O PSOF positivo em paciente com DII pode refletir simplesmente atividade inflamatória sem neoplasia.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. US Preventive Services Task Force. Colorectal Cancer: Screening. JAMA. 2021;325(19):1965-1977. 10.1001/jama.2021.6238
  2. Zauber AG, et al. Colonoscopic polypectomy and long-term prevention of colorectal-cancer deaths. N Engl J Med. 2012;366(8):687-696. 10.1056/NEJMoa1100370
  3. Ministério da Saúde, Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo-retal. Rio de Janeiro: INCA, 2015. https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/diretrizes-brasileiras-para-o-rastreamento-do-cancer-do-colo-retal
  4. Robertson DJ, Lee JK, Boland CR, et al. Recommendations on Fecal Immunochemical Testing to Screen for Colorectal Neoplasia: A Consensus Statement by the US Multi-Society Task Force on Colorectal Cancer. Gastroenterology. 2017;152(5):1217-1237. 10.1053/j.gastro.2016.08.053
  5. Buskermolen M, et al. False-positive fecal immunochemical test results: clinical consequences, lifestyle factors and psychological impact. Scand J Gastroenterol. 2018;53(6):774-781. 10.1080/00365521.2018.1459092

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