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Endocrinologia

Insulina basal e HOMA-IR: Interpretação Clínica e Indicações

A dosagem de insulina basal (insulina de jejum) e o cálculo do HOMA-IR (Homeostasis Model Assessment of Insulin Resistance) são ferramentas fundamentais na avaliação da resistência insulínica na prática clínica. A insulina basal reflete a secreção pancreática de insulina em condições basais, enquanto o HOMA-IR é um índice matemático derivado da fórmula (glicemia de jejum [mg/dL] × insulina de jejum [μU/mL]) / 405, que estima a sensibilidade periférica à insulina. Este exame é clinicamente relevante para identificar indivíduos com resistência insulínica, um componente central da síndrome metabólica e fator de risco para desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2, esteatose hepática não alcoólica e doença cardiovascular aterosclerótica. É indicado para pacientes com sobrepeso/obesidade, acantose nigricans, dislipidemia aterogênica (HDL baixo e triglicerídeos elevados) ou história familiar de diabetes tipo 2. Sinônimos incluem: insulina de jejum, índice HOMA, HOMA-IR.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo com gel separador
Resultado em
4–8 horas (método quimioluminescência imunoensaio)
Jejum
Sim
Código TUSS
40322237
Especialidade
Endocrinologia / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de resistência insulínica em paciente com obesidade abdominal (circunferência da cintura > 94 cm em homens, > 80 cm em mulheres) e acantose nigricans. CID E66
  • Avaliação de síndrome metabólica em paciente com hipertensão arterial, HDL-colesterol baixo e triglicerídeos elevados. CID E88.81
  • Monitoramento de resposta à intervenção terapêutica (dieta, exercício, metformina) em paciente com pré-diabetes (glicemia de jejum alterada ou tolerância à glicose diminuída). CID R73.0
  • Investigação de esteatose hepática não alcoólica (EHNA) em paciente com elevação de TGP e ecografia abdominal sugestiva de fígado gorduroso. CID K76.0
  • Avaliação de mulher com síndrome dos ovários policísticos (SOP) e hirsutismo, para estratificação de risco metabólico. CID E28.2
  • Investigação de dislipidemia aterogênica (HDL < 40 mg/dL em homens, < 50 mg/dL em mulheres e triglicerídeos > 150 mg/dL) em paciente normotenso. CID E78.5
  • Avaliação de paciente com história familiar de diabetes mellitus tipo 2 em primeiro grau e IMC > 25 kg/m². CID Z83.3
  • Monitoramento de resistência insulínica em paciente em uso crônico de corticoides (ex: prednisona > 10 mg/dia por mais de 1 mês). CID E24.2
  • Investigação de hiperandrogenismo em mulher com acne grave e alopecia androgênica, sem critérios completos de SOP. CID L70.0
  • Avaliação de paciente com doença cardiovascular prematura (IAM < 55 anos em homens, < 65 anos em mulheres) e sem dislipidemia clássica. CID I25.1

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Jejum inadequado (< 8 horas) — causa elevação da insulina pós-prandial e superestimação do HOMA-IR.
  • Hemólise da amostra — interfere na dosagem de insulina por liberação de proteases, podendo causar resultados falsamente baixos.
  • Lipemia intensa — interfere na leitura espectrofotométrica, causando pseudo-elevação da insulina em alguns métodos.
  • Coleta em tubo com EDTA — anticoagulante quelante de cálcio pode interferir no imunoensaio, invalidando a amostra.
  • Tempo prolongado entre coleta e centrifugação (> 2 horas) — degradação da insulina por proteases séricas, reduzindo o resultado.
  • Uso de heparina não fracionada como anticoagulante — interfere na ligação antígeno-anticorpo no imunoensaio, causando resultados imprecisos.
  • Exposição da amostra a temperaturas > 25°C por mais de 4 horas — desnaturação da insulina, reduzindo o resultado.

Valores de Referência

Valores de referência do Insulina basal e HOMA-IR
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Insulina basal (jejum)2,6 – 24,92,6 – 24,92,6 – 24,9 (acima de 1 ano, sem diferença por sexo)μU/mL
HOMA-IR< 2,5< 2,5< 2,5 (acima de 1 ano, sem diferença por sexo)índice

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Insulina basal e HOMA-IR
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
HOMA-IR > 2,5 com insulina basal elevada (> 24,9 μU/mL)Resistência insulínica significativa, associada a alto risco de síndrome metabólica e progressão para diabetes tipo 2. Solicitar perfil lipídico completo, ecografia abdominal para esteatose hepática e iniciar intervenção no estilo de vida (dieta e exercício).
HOMA-IR > 2,5 com insulina basal normal (2,6 – 24,9 μU/mL)Resistência insulínica leve a moderada, possivelmente em fase inicial ou com secreção compensatória de insulina preservada. Avaliar circunferência da cintura e pressão arterial; solicitar HbA1c para rastrear pré-diabetes.
HOMA-IR < 2,5 com insulina basal elevada (> 24,9 μU/mL)Possível erro no cálculo (glicemia de jejum muito baixa) ou insulinoma raro; revisar coleta e contexto clínico. Repetir a dosagem com jejum rigoroso de 12 horas; se persistir, investigar insulinoma com teste de jejum prolongado.
HOMA-IR < 2,5 com insulina basal baixa (< 2,6 μU/mL)Baixa secreção de insulina, sugestivo de deficiência de células beta (diabetes tipo 1 ou LADA) ou pancreatite crônica. Solicitar peptídeo C, anticorpos anti-GAD e anti-IA-2 para diferenciar diabetes tipo 1 de tipo 2.
HOMA-IR entre 2,0 e 2,5 (zona limítrofe)Resistência insulínica borderline, requer monitoramento e avaliação de outros componentes da síndrome metabólica. Avaliar pressão arterial, perfil lipídico e circunferência da cintura; repetir em 6–12 meses se fatores de risco presentes.
HOMA-IR > 5,0Resistência insulínica grave, frequentemente associada a obesidade mórbida, esteatose hepática avançada ou síndrome de Cushing. Solicitar cortisol livre urinário, ecografia abdominal e considerar início de metformina se contraindicações ausentes.
Insulina basal > 100 μU/mLHiperinsulinemia marcante, sugestiva de insulinoma, resistência insulínica extrema ou síndrome de ovários policísticos grave. Investigar insulinoma com teste de jejum prolongado e imagem abdominal (TC ou RM); avaliar SOP com dosagem de testosterona livre.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Insulina basal e HOMA-IR
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
HOMA-IR elevado (> 2,5) com obesidade e acantose nigricansSíndrome metabólica, diabetes tipo 2 incipiente, esteatose hepática não alcoólicaHbA1c, perfil lipídico, ecografia abdominal, elastografia hepática (FibroScan)Endocrinologia
HOMA-IR elevado com hirsutismo e oligomenorreiaSíndrome dos ovários policísticos, hiperplasia adrenal congênita, tumor ovariano produtor de androgêniosTestosterona livre, 17-OH progesterona, USG pélvica, cortisol livre urinárioEndocrinologia / Ginecologia
HOMA-IR elevado com fácies lunar e estrias purpúricasSíndrome de Cushing, uso crônico de corticoides, pseudo-Cushing por alcoolismoCortisol livre urinário, teste de supressão com dexametasona, ACTHEndocrinologia
HOMA-IR normal com glicemia de jejum elevada (> 126 mg/dL)Diabetes mellitus tipo 2 com deficiência insulínica, diabetes autoimune latente do adulto (LADA), pancreatite crônicaPeptídeo C, anticorpos anti-GAD, anti-IA-2, lipase, TC de abdomeEndocrinologia
HOMA-IR baixo (< 1,0) com magreza e hipoglicemiaInsulinoma, deficiência de contra-regulação hormonal (GH, cortisol), doença de AddisonTeste de jejum prolongado, cortisol sérico, IGF-1, ACTHEndocrinologia

Medicamentos e Interferentes

  • Corticoides (ex: prednisona) — aumentam a resistência periférica à insulina, elevando o HOMA-IR.
  • Antipsicóticos atípicos (ex: olanzapina) — induzem ganho de peso e resistência insulínica, elevando o HOMA-IR.
  • Inibidores da protease (ex: ritonavir) — causam lipodistrofia e resistência insulínica, elevando o HOMA-IR.
  • Agonistas do GLP-1 (ex: liraglutida) — melhoram a sensibilidade à insulina, reduzindo o HOMA-IR.
  • Metformina — reduz a produção hepática de glicose e melhora a sensibilidade periférica, reduzindo o HOMA-IR.
  • Tiazolidinedionas (ex: pioglitazona) — ativam PPAR-γ, melhorando a sensibilidade à insulina, reduzindo o HOMA-IR.
  • Beta-bloqueadores não seletivos (ex: propranolol) — podem mascarar hipoglicemia e alterar metabolismo glicídico, elevando levemente o HOMA-IR.

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

Na gestação, há resistência insulínica fisiológica a partir do segundo trimestre, com HOMA-IR podendo atingir 3,0–4,0 sem patologia. Valores > 4,0 no terceiro trimestre sugerem diabetes mellitus gestacional, requerendo teste de tolerância à glicose com 75g (TOTG). A insulina basal pode dobrar em relação aos valores não gestantes. Monitorar com glicemia de jejum e pós-prandial.

Idoso

No idoso, a resistência insulínica aumenta com o envelhecimento, mas valores de HOMA-IR > 2,5 ainda são patológicos. A sarcopenia pode mascarar obesidade visceral, levando a HOMA-IR normal com risco cardiovascular elevado. Considerar avaliação de composição corporal (bioimpedância) e dosar HbA1c, pois a glicemia de jejum pode ser menos sensível. Cautela com metformina devido a risco de acidose lática em insuficiência renal.

Criança

Em crianças, a resistência insulínica é incomum antes da puberdade; HOMA-IR > 2,5 sugere obesidade infantil ou síndrome metabólica precoce. A acantose nigricans é marcador clínico importante. Valores de referência são semelhantes aos adultos, mas interpretar com IMC para idade. Investigar causas secundárias como síndrome de Cushing ou uso de corticoides. Intervenção precoce com dieta e exercício é crucial.

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2023-2024. São Paulo: Clannad; 2023.
  2. Matthews DR, Hosker JP, Rudenski AS, Naylor BA, Treacher DF, Turner RC. Homeostasis model assessment: insulin resistance and beta-cell function from fasting plasma glucose and insulin concentrations in man. Diabetologia. 1985;28(7):412-9. 10.1007/BF00280883
  3. Alberti KG, Eckel RH, Grundy SM, et al. Harmonizing the metabolic syndrome: a joint interim statement of the International Diabetes Federation Task Force on Epidemiology and Prevention; National Heart, Lung, and Blood Institute; American Heart Association; World Heart Federation; International Atherosclerosis Society; and International Association for the Study of Obesity. Circulation. 2009;120(16):1640-5. 10.1161/CIRCULATIONAHA.109.192644
  4. American Diabetes Association. 2. Classification and Diagnosis of Diabetes: Standards of Medical Care in Diabetes—2024. Diabetes Care. 2024;47(Supplement_1):S20-S42. 10.2337/dc24-S002
  5. Grundy SM, Cleeman JI, Daniels SR, et al. Diagnosis and management of the metabolic syndrome: an American Heart Association/National Heart, Lung, and Blood Institute scientific statement. Circulation. 2005;112(17):2735-52. 10.1161/CIRCULATIONAHA.105.169404

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