Fosfatase alcalina: Interpretação Clínica e Indicações
A fosfatase alcalina (FA) é uma enzima presente em diversos tecidos, com isoformas hepática, óssea, intestinal e placentária, sendo clinicamente relevante como marcador de colestase e doenças ósseas metabólicas. Avalia a atividade enzimática em processos como formação óssea e excreção biliar, sendo indicada para investigação de icterícia colestática, dor óssea, ou monitoramento de doenças hepáticas e ósseas. Sinônimos incluem FA sérica e alkaline phosphatase. Linguagem técnica para médicos, abordando sua utilidade na prática clínica diária.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de icterícia colestática com prurido e colúria CID K83.1
- Avaliação de dor óssea em paciente com suspeita de doença de Paget CID M88
- Monitoramento de osteomalacia em paciente com deficiência de vitamina D CID M83
- Investigação de hepatopatia colestática em paciente com fadiga e elevação de bilirrubinas CID K74.3
- Avaliação de metástases ósseas em paciente com neoplasia conhecida CID C79.5
- Investigação de raquitismo em criança com deformidades ósseas CID E55.0
- Monitoramento de colangite biliar primária em paciente com anticorpos antimitocondriais positivos CID K74.3
- Avaliação de hiperparatireoidismo primário com hipercalcemia CID E21.0
- Investigação de obstrução biliar por cálculo em vesícula biliar CID K80.5
- Monitoramento de doença óssea renal em paciente com insuficiência renal crônica CID N18.9
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — interfere na leitura espectrofotométrica, podendo causar pseudo-elevação ou redução
- Lipemia intensa — interfere na dosagem por turbidez, resultando em valores falsamente elevados
- Icterícia marcada — bilirrubina elevada pode interferir quimicamente, alterando resultados
- Uso de anticoagulantes como EDTA — inibe a atividade enzimática, causando falsa redução
- Armazenamento inadequado — degradação enzimática se a amostra não for processada em até 24 horas
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Fosfatase alcalina total | 40–129 U/L | 35–104 U/L | 150–420 U/L (até 12 anos, devido ao crescimento ósseo) | U/L |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| FA elevada (> 129 U/L em homens ou > 104 U/L em mulheres) | Sugere colestase hepática, doença óssea metabólica, ou ambas | Solicitar GGT e bilirrubinas para diferenciar origem hepática |
| FA normal com GGT elevada | Indica origem hepática provável, como colestase intra-hepática | Investigar com USG abdominal e marcadores de colestase |
| FA elevada com GGT normal | Sugere origem óssea, como doença de Paget ou metástases | Solicitar densitometria óssea e marcadores de remodelação óssea |
| FA levemente elevada (até 1,5x o limite superior) | Pode ser fisiológica em adolescentes ou gestantes, ou indicar doença inicial | Repetir exame em 4–6 semanas e correlacionar com sintomas |
| FA reduzida (< 35 U/L) | Rara, pode indicar hipofosfatasia, desnutrição ou deficiência de zinco | Avaliar níveis de cálcio, fósforo e zinco |
| FA muito elevada (> 3x o limite superior) | Sugere doença óssea avançada ou obstrução biliar completa | Investigar com TC de abdome e marcadores tumorais se indicado |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| FA elevada com GGT elevada | Colestase hepática (obstrutiva ou intra-hepática) | USG abdominal, CPRE, marcadores de colestase | Gastroenterologia |
| FA elevada com GGT normal | Doença óssea (Paget, osteomalacia, metástases) | Densitometria óssea, radiografias, marcadores ósseos | Reumatologia ou Ortopedia |
| FA elevada em criança | Crescimento fisiológico, raquitismo, hepatopatia | Vitamina D, cálcio, fósforo, USG abdominal | Pediatria |
| FA elevada em gestante | Aumento placentário fisiológico, colestase gravídica | Bilirrubinas, ácidos biliares, monitoramento fetal | Obstetrícia |
| FA muito elevada (> 1000 U/L) | Doença de Paget, obstrução biliar completa, metástases ósseas extensas | Cintilografia óssea, TC abdominal, biópsia óssea | Reumatologia ou Gastroenterologia |
Medicamentos e Interferentes
- Anticonvulsivantes (fenitoína) — induzem enzimas hepáticas, elevando FA
- Estrogênios — podem reduzir FA em algumas condições
- Corticosteroides — em uso crônico, podem elevar FA por efeito ósseo
- Álcool — hepatotoxicidade aguda ou crônica eleva FA hepática
- Suplementos de zinco — deficiência reduz FA, excesso pode interferir
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
A FA placentária eleva-se fisiológicamente, especialmente no terceiro trimestre, podendo dobrar os valores de referência. Diferenciar de colestase gravídica, que cursa com prurido e elevação de ácidos biliares. Monitorar com bilirrubinas e USG fetal se indicado.
Criança
Valores são naturalmente elevados devido ao crescimento ósseo, podendo atingir até 420 U/L. Investigar raquitismo se houver deformidades ósseas ou deficiência de vitamina D. Correlacionar com idade e estágio de desenvolvimento.
Idoso
Redução do turnover ósseo pode mascarar doenças como osteomalacia. Valores normais não excluem patologia óssea. Considerar sintomas como dor óssea e fraturas, e solicitar densitometria se necessário.
Exames Relacionados
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Os valores de referência variam por método, mas geralmente são 40–129 U/L para homens e 35–104 U/L para mulheres. Em crianças, podem chegar a 150–420 U/L devido ao crescimento ósseo. Consulte sempre os valores do laboratório.
Não necessariamente. A FA elevada pode indicar origem hepática (colestase) ou óssea (doenças metabólicas). Solicitar GGT: se elevada, sugere causa hepática; se normal, sugere causa óssea.
Valores reduzidos (< 35 U/L) são raros e podem indicar hipofosfatasia, desnutrição grave ou deficiência de zinco. Avaliar níveis de cálcio, fósforo e zinco, e considerar sintomas clínicos.
Não, o jejum não é obrigatório para a dosagem de FA. No entanto, lipemia intensa pós-prandial pode interferir no resultado, então coleta em jejum é preferível se houver suspeita de interferência.
Solicite FA quando houver suspeita de colestase (icterícia, prurido) ou doença óssea (dor óssea, deformidades). TGO/TGP são mais específicos para hepatocitólise. Em dúvida, solicite painel hepático completo.
Use a GGT: se elevada, indica origem hepática; se normal, sugere origem óssea. Correlacione com bilirrubinas para colestase e com marcadores ósseos como cálcio para doenças ósseas.
Não, especialmente em idosos onde o turnover ósseo é reduzido. FA normal não exclui osteoporose ou osteomalacia. Avalie com densitometria e marcadores clínicos se houver suspeita.
Anticonvulsivantes como fenitoína podem elevar FA por indução hepática. Corticosteroides em uso crônico podem elevar por efeito ósseo. Considere história medicamentosa na interpretação.
Referências
- Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Diretrizes para dosagem de enzimas hepáticas. 2020.
- European Association for the Study of the Liver (EASL). Clinical Practice Guidelines: Cholestatic liver diseases. J Hepatol. 2021;75(1):201-219. 10.1016/j.jhep.2021.03.034
- American College of Rheumatology (ACR). Guideline for the Management of Paget's Disease of Bone. Arthritis Rheumatol. 2019;71(10):1595-1606. 10.1002/art.41031
- Harrison TR, Fauci AS. Harrison's Principles of Internal Medicine. 20th ed. McGraw-Hill; 2018. Capítulo sobre enzimas hepáticas e ósseas.