Beta-D-glucana: Interpretação Clínica e Indicações
A beta-D-glucana (BDG) é um biomarcador sérico de parede celular fúngica, composto por polissacarídeos presentes na maioria dos fungos patogênicos, exceto Mucorales e Cryptococcus. Avalia a presença de infecções fúngicas invasivas (IFI) por meio de ensaios imunológicos como o Fungitell®. Clinicamente relevante por permitir diagnóstico precoce e monitoramento terapêutico, especialmente em pacientes imunossuprimidos com suspeita de IFI quando métodos convencionais são limitados. É indicado para pacientes com neutropenia febril refratária a antibióticos, transplantados de órgãos sólidos ou células-tronco hematopoiéticas, e aqueles em uso de imunossupressores biológicos. Sinônimos incluem BDG, (1→3)-β-D-glucana, e teste de glucana.
Quando solicitar este exame?
- Paciente com neutropenia febril (> 38,3°C) por mais de 96 horas sem resposta a antibióticos de amplo espectro CID D70
- Transplantado de células-tronco hematopoiéticas com febre e infiltrados pulmonares na TC de tórax CID Z94
- Paciente com AIDS e CD4 < 200 células/μL com dispneia progressiva e hipoxemia CID B20
- Receptor de transplante de órgão sólido em uso de tacrolimo e micofenolato com hepatite fúngica suspeita CID K75
- Paciente em quimioterapia para leucemia aguda com sinais de sepse e hemoculturas negativas CID C95
- Uso prolongado de corticosteroides em altas doses (ex: prednisona > 20 mg/dia por > 2 semanas) com pneumonia não resolvida CID J18
- Paciente com doença inflamatória intestinal em terapia anti-TNFα com abscessos intra-abdominais de etiologia indeterminada CID K50
- Síndrome de disfunção orgânica múltipla em UTI com fatores de risco para candidíase invasiva (cateter venoso central, nutrição parenteral) CID R65
- Paciente com queimaduras extensas (> 30% superfície corporal) e sepse de origem não bacteriana CID T30
- Endocardite com vegetações ecocardiográficas e hemoculturas persistentemente negativas CID I33
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — interfere na leitura espectrofotométrica, podendo causar falso-positivo; invalida a amostra se visível
- Lipemia intensa (> 1000 mg/dL) — turbidez interfere na absorbância, requer ultracentrifugação antes da análise
- Uso recente de hemoderivados (albumina, gamaglobulina) — contêm beta-glucanos de origem fúngica em processos de fabricação, eleva resultados por até 72 horas após infusão
- Amostra coletada através de cateter venoso central com heparina — heparina não interfere, mas contaminação microbiana do cateter pode elevar BDG
- Armazenamento prolongado a temperatura ambiente (> 8 horas) — degradação enzimática reduz valores; refrigerar a 2–8°C se análise não imediata
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Beta-D-glucana | < 80 pg/mL | < 80 pg/mL | < 80 pg/mL (acima de 1 ano) | pg/mL |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| BDG ≥ 80 pg/mL (positivo) | Sugere infecção fúngica invasiva por Candida spp., Aspergillus spp., Pneumocystis jirovecii ou outros fungos produtores de BDG | Iniciar terapia antifúngica empírica (ex: equinocandina para candidíase, voriconazol para aspergilose) e solicitar exames de imagem (TC de tórax/abdome) |
| BDG < 80 pg/mL (negativo) | Reduz probabilidade de IFI, mas não exclui infecções por Mucorales, Cryptococcus spp. ou infecções localizadas | Manter investigação com métodos microbiológicos (culturas) e de imagem se alta suspeita clínica |
| BDG 60–79 pg/mL (zona cinzenta) | Resultado indeterminado; pode representar infecção incipiente, contaminação ou falso-positivo | Repetir exame em 24–48 horas e correlacionar com quadro clínico e marcadores inflamatórios (PCR, procalcitonina) |
| BDG positividade persistente por > 7 dias de terapia antifúngica | Sugere falha terapêutica, resistência fúngica ou foco não drenado | Reavaliar esquema antifúngico, considerar troca de classe (ex: de equinocandina para anfotericina B) e buscar focos cirúrgicos |
| BDG negativa em paciente com pneumonia por Pneumocystis confirmada | Falso-negativo pode ocorrer em infecções localizadas ou com baixa carga fúngica | Manter tratamento com sulfametoxazol-trimetoprima e monitorar com gasometria arterial e radiografia de tórax seriada |
| BDG positiva isolada sem sinais clínicos de infecção | Pode indicar colonização, contaminação pré-analítica ou falso-positivo por hemoderivados | Avaliar fontes de interferentes, repetir exame após 48 horas sem infusões, e monitorar clinicamente |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| BDG positiva com febre e neutropenia | Candidíase invasiva, Aspergilose pulmonar invasiva, Fusariose | Hemoculturas seriadas, TC de tórax com janela pulmonar, lavado broncoalveolar | Infectologia / Hematologia |
| BDG positiva com infiltrados pulmonares bilaterais em HIV | Pneumocistose, Tuberculose disseminada, Pneumonia bacteriana atípica | Gasometria arterial, pesquisa de BAAR no escarro, PCR para Pneumocystis | Infectologia / Pneumologia |
| BDG positiva com hepatite em transplantado | Hepatite fúngica (Candida, Aspergillus), Rejeição aguda, Hepatite viral | USG abdominal com Doppler, biópsia hepática, sorologias virais | Infectologia / Gastroenterologia |
| BDG negativa com sepse refratária | Infecção bacteriana multirresistente, Infecção por Mucorales, Endocardite não infecciosa | Hemoculturas com meios especiais, ecocardiograma transesofágico, RM de tecidos moles | Infectologia / Cardiologia |
| BDG positiva com lesões cutâneas necróticas | Fusariose disseminada, Candidíase cutânea, Ectima gangrenoso | Biópsia de pele com cultura, micológico direto, PCR fúngico tecidual | Infectologia / Dermatologia |
Medicamentos e Interferentes
- Albumina humana — contém beta-glucanos de processo fabril, eleva BDG por até 72 horas após infusão
- Imunoglobulinas intravenosas (IVIg) — similar à albumina, causa elevação transitória
- Hemodiálise com membranas de celulose — libera beta-glucanos no sangue, eleva resultados pós-diálise
- Antibióticos betalactâmicos (ex: piperacilina-tazobactam) — contaminação fúngica na fabricação, elevação leve
- Corticosteroides em altas doses — imunossupressão pode reduzir liberação de BDG, mascarando infecção
Contextos Clínicos Especiais
Imunossuprimido
Pacientes com neutropenia, transplantados ou em terapia biológica têm maior sensibilidade do exame, mas também risco de infecções por fungos não produtores de BDG (ex: Mucorales). Valores > 80 pg/mL são altamente sugestivos de IFI, exigindo início imediato de antifúngicos. Monitorar seriamente a cada 48–72 horas para avaliar resposta terapêutica.
Criança
Em pediatria, valores de referência são semelhantes aos adultos, mas interpretação deve considerar maior frequência de infecções virais que podem mimetizar IFI. Em neonatos, a imaturidade imunológica pode resultar em respostas falsamente baixas; priorize culturas e métodos de imagem.
Idoso
Idosos têm maior prevalência de comorbidades e uso de dispositivos médicos (cateteres), elevando risco de candidíase. Resultados podem ser atenuados por resposta inflamatória diminuída; valores limítrofes (60–79 pg/mL) requerem alta suspeição clínica e repetição precoce.
Exames Relacionados
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
O valor normal da beta-D-glucana é < 80 pg/mL pelo método Fungitell®, que é o padrão-ouro. Métodos automatizados podem variar entre 60–100 pg/mL como limiar. Valores entre 60–79 pg/mL são considerados zona cinzenta e exigem repetição em 24–48 horas.
Não, a beta-D-glucana não requer jejum. A coleta pode ser realizada a qualquer momento, mas deve-se evitar amostras hemolisadas ou lipêmicas, que interferem no resultado. Jejum não afeta os níveis séricos de BDG.
Beta-D-glucana elevada (≥ 80 pg/mL) sugere infecção fúngica invasiva por fungos produtores, como Candida spp., Aspergillus spp. ou Pneumocystis jirovecii. Em imunossuprimidos, valores > 250 pg/mL correlacionam com maior gravidade. Deve ser correlacionada com quadro clínico e exames complementares.
Não, beta-D-glucana normal não exclui completamente infecção fúngica invasiva. Falso-negativos ocorrem em infecções por Mucorales, Cryptococcus spp., infecções localizadas ou coleta precoce. Em alta suspeita clínica, prosseguir com culturas, biópsias ou métodos de imagem.
Solicite beta-D-glucana quando houver suspeita de infecção fúngica invasiva em imunossuprimidos com hemoculturas negativas ou atraso no resultado. BDG tem maior sensibilidade precoce para candidemia e pneumocistose, mas não substitui hemoculturas para identificação de espécie e teste de sensibilidade.
A beta-D-glucana não diferencia candidíase de aspergilose, pois ambos fungos produzem o marcador. Diferenciação requer correlação clínica: candidíase é mais comum em UTI com cateteres, enquanto aspergilose ocorre em neutropênicos com infiltrados pulmonares. Use hemoculturas, TC de tórax e lavado broncoalveolar.
Falso-positivos ocorrem com uso de hemoderivados (albumina, IVIg), hemodiálise com membranas de celulose, antibióticos betalactâmicos contaminados e amostras hemolisadas. Esses interferentes elevam BDG por até 72 horas; considere tempo de infusão e repita exame se necessário.
Sim, beta-D-glucana pode monitorar resposta terapêutica em infecções fúngicas invasivas. Redução > 50% em 7 dias correlaciona com sucesso clínico. Entretanto, combine com avaliação clínica e radiológica, pois redução lenta pode ocorrer em abscessos não drenados ou resistência.
Referências
- Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para o diagnóstico e tratamento de infecções fúngicas invasivas em pacientes adultos imunocomprometidos. 2020.
- European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID). Guideline for the diagnosis and management of Candida diseases 2012: non-neutropenic adult patients. Clin Microbiol Infect. 2012;18 Suppl 7:19-37.
- Patterson TF, Thompson GR 3rd, Denning DW, et al. Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Aspergillosis: 2016 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2016;63(4):e1-e60.
- Karageorgopoulos DE, Vouloumanou EK, Ntziora F, et al. β-D-glucan assay for the diagnosis of invasive fungal infections: a meta-analysis. Clin Infect Dis. 2011;52(6):750-70.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Pneumocistose. 2021.