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Endocrinologia

Aldosterona e Relação Aldosterona/Renina: Interpretação Clínica e Indicações

A aldosterona é o principal mineralocorticoide produzido pela zona glomerulosa do córtex adrenal, regulando a homeostase de sódio, potássio e volemia por meio de sua ação nos túbulos coletores renais. A renina, enzima proteolítica secretada pelas células justaglomerulares renais, é o principal regulador da secreção de aldosterona via sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). A relação aldosterona/renina (RAR) é o teste de rastreamento mais utilizado para o diagnóstico de hiperaldosteronismo primário (síndrome de Conn), condição responsável por 5–13% dos casos de hipertensão arterial e frequentemente subdiagnosticada. O exame é indicado para endocrinologistas, cardiologistas, nefrologistas e clínicos que investigam hipertensão resistente, hipocalemia inexplicada ou incidentalomas adrenais. Sinônimos incluem aldosterona sérica, atividade plasmática de renina (APR), renina direta, razão aldosterona-renina e screening para aldosteronismo.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo com EDTA (tampa roxa) para renina; tubo sem anticoagulante para aldosterona
Resultado em
24–72 horas
Código TUSS
40316050
Especialidade
Endocrinologia / Cardiologia / Nefrologia

Quando solicitar este exame?

  • Hipertensão arterial resistente (PA não controlada com ≥3 anti-hipertensivos incluindo diurético) para rastreamento de hiperaldosteronismo primário CID I15.2
  • Hipocalemia espontânea ou induzida por diuréticos (K+ <3.5 mEq/L) em paciente hipertenso para investigação de excesso de mineralocorticoide CID E87.6
  • Incidentaloma adrenal com suspeita de adenoma produtor de aldosterona em exame de imagem CID D35.0
  • Hipertensão arterial de início precoce (<40 anos) sem fatores de risco tradicionais para exclusão de causa endócrina CID I10
  • Hipertensão com história familiar de hiperaldosteronismo primário ou AVC hemorrágico em jovem CID E26.0
  • Hipertensão severa (estágio 3, PA ≥180/110 mmHg) para rastreio de hiperaldosteronismo como causa secundária CID I10
  • Fibrilação atrial associada a hipertensão para investigação de hiperaldosteronismo primário como fator contributivo CID I48
  • Apneia obstrutiva do sono associada a hipertensão resistente para investigação de causa endócrina concomitante CID G47.3
  • Alcalose metabólica inexplicada com hipocalemia e hipertensão para diferenciação entre hiperaldosteronismo primário e secundário CID E87.3
  • Monitoramento pós-operatório de adrenalectomia unilateral por adenoma produtor de aldosterona para avaliação de cura bioquímica CID E26.0

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Espironolactona e eplerenona — devem ser suspensas por pelo menos 4–6 semanas antes da coleta; elevam renina e reduzem aldosterona, causando falso-negativo na RAR
  • Betabloqueadores (propranolol, atenolol) — suprimem a renina de forma significativa, elevando falsamente a RAR; devem ser substituídos por verapamil ou doxazosina por 2 semanas
  • Inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina (losartana, enalapril) — elevam renina e podem reduzir aldosterona, causando falso-negativo; suspender por 2 semanas quando possível
  • Diuréticos tiazídicos e de alça (hidroclorotiazida, furosemida) — elevam renina e podem causar hipocalemia que reduz aldosterona, alterando a RAR; suspender por 2–4 semanas
  • Postura e horário inadequados — coleta em decúbito ou fora do horário matinal após deambulação reduz a sensibilidade do teste; padronizar posição ortostática por 2 horas e coleta entre 8h–10h

Valores de Referência

Valores de referência do Aldosterona e Relação Aldosterona/Renina
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Aldosterona sérica (posição ortostática)2.5–39.2 ng/dL2.5–39.2 ng/dL5–80 ng/dL (variável conforme idade e maturação)ng/dL
Atividade plasmática de renina (APR)0.5–3.5 ng/mL/h0.5–3.5 ng/mL/h1.0–6.5 ng/mL/hng/mL/h
Relação aldosterona/renina (RAR)<30 ng/dL por ng/mL/h (com aldosterona >15 ng/dL)<30 ng/dL por ng/mL/h (com aldosterona >15 ng/dL)Não padronizada em pediatriang/dL por ng/mL/h

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Aldosterona e Relação Aldosterona/Renina
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
RAR elevada (≥30) com aldosterona >15 ng/dL e renina suprimidaRastreamento positivo para hiperaldosteronismo primário; necessita confirmação com teste de supressão Solicitar teste confirmatório: infusão de solução salina (2L IV em 4h), teste de fludrocortisona ou teste do captopril
RAR elevada (≥30) com aldosterona <15 ng/dLProvável falso-positivo por renina muito suprimida (denominador baixo); baixa probabilidade de hiperaldosteronismo primário Revisar medicamentos interferentes, avaliar ingesta de sódio e repetir coleta após ajuste de condições pré-analíticas
RAR normal (<30) com aldosterona e renina normaisHiperaldosteronismo primário improvável; considerar outras causas de hipertensão secundária Investigar outras causas: feocromocitoma (metanefrinas), síndrome de Cushing (cortisol), estenose de artéria renal (doppler renal)
Aldosterona elevada com renina elevada (RAR normal)Sugere hiperaldosteronismo secundário: estenose de artéria renal, insuficiência cardíaca congestiva, cirrose hepática ou uso de diuréticos Solicitar doppler de artérias renais, ecocardiograma e avaliação de função hepática conforme suspeita clínica
Aldosterona reduzida com renina elevadaSugere hipoaldosteronismo hiporreninêmico tipo IV (acidose tubular renal) ou deficiência de aldosterona sintase Solicitar gasometria venosa, eletrólitos completos e avaliar função renal; considerar hipoaldosteronismo farmacológico (IECAs, heparina)
Aldosterona e renina ambas suprimidasSugere excesso de mineralocorticoide não mediado por aldosterona: síndrome de Liddle, excesso aparente de mineralocorticoide (AME), uso de alcaçuz ou síndrome de Cushing Solicitar cortisol livre urinário 24h, teste genético para síndrome de Liddle e investigar ingestão de alcaçuz (ácido glicirrizínico)
RAR limítrofe (20–30) com aldosterona entre 10–15 ng/dLResultado indeterminado; pode representar hiperaldosteronismo primário leve ou variação pré-analítica Repetir coleta após otimização de condições pré-analíticas (suspensão de interferentes, dieta normossódica, correção de hipocalemia)
Aldosterona muito elevada (>50 ng/dL) com renina suprimida pós-teste confirmatório positivoHiperaldosteronismo primário confirmado; necessita subtipagem para definir etiologia (adenoma vs. hiperplasia bilateral) Solicitar TC de adrenais com cortes finos e cateterismo de veias adrenais para lateralização

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Aldosterona e Relação Aldosterona/Renina
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Aldosterona elevada + renina suprimida (RAR >30)Adenoma produtor de aldosterona (Conn), hiperplasia adrenal bilateral, hiperaldosteronismo familiarTeste de infusão salina, TC de adrenais, cateterismo de veias adrenaisEndocrinologia
Aldosterona elevada + renina elevada (RAR normal)Estenose de artéria renal, insuficiência cardíaca, cirrose hepática, síndrome nefróticaDoppler de artérias renais, ecocardiograma, função hepática, proteinúria 24hCardiologia / Nefrologia
Aldosterona baixa + renina baixa + hipocalemia + hipertensãoSíndrome de Liddle, excesso aparente de mineralocorticoide (AME), uso de alcaçuz, síndrome de CushingCortisol livre urinário 24h, teste genético para síndrome de Liddle, cortisol salivar noturnoEndocrinologia / Nefrologia
Aldosterona baixa + renina elevada + hipercalemiaHipoaldosteronismo hiporreninêmico tipo IV, deficiência de aldosterona sintase, uso de IECAs/BRA/heparinaGasometria venosa, eletrólitos, creatinina, clearance de creatininaNefrologia / Endocrinologia

Medicamentos e Interferentes

  • Espironolactona e eplerenona — antagonistas do receptor mineralocorticoide; elevam renina e reduzem aldosterona, causando falso-negativo; suspender 4–6 semanas antes
  • Betabloqueadores (propranolol, atenolol, metoprolol) — suprimem renina por bloqueio simpático, elevando falsamente a RAR; substituir por verapamil por 2 semanas
  • Inibidores da ECA (enalapril, ramipril, captopril) — elevam renina e reduzem aldosterona, causando falso-negativo; suspender por 2 semanas
  • Bloqueadores do receptor de angiotensina II (losartana, valsartana) — elevam renina e podem reduzir aldosterona; suspender por 2 semanas
  • Diuréticos tiazídicos (hidroclorotiazida) e de alça (furosemida) — elevam renina e causam hipocalemia que suprime aldosterona; suspender 2–4 semanas
  • Anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, diclofenaco) — reduzem renina por inibição de prostaglandinas renais, elevando falsamente a RAR
  • Anticoncepcionais orais com estrogênio — reduzem renina direta (mas não APR), podendo elevar falsamente a RAR quando se usa CDR
  • Clonidina e metildopa — agonistas alfa-2 centrais que suprimem renina, elevando falsamente a RAR
  • Heparina e heparina de baixo peso molecular — inibem diretamente a síntese de aldosterona, causando hipoaldosteronismo farmacológico
  • Ingestão excessiva de alcaçuz (ácido glicirrizínico) — inibe a 11-beta-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 2, causando pseudohiperaldosteronismo com aldosterona e renina suprimidas

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

Idosos (>65 anos) apresentam redução fisiológica da renina (até 50% menor que adultos jovens) com aldosterona relativamente preservada, podendo elevar a RAR sem doença. O ponto de corte da RAR deve ser interpretado com cautela e sempre associado a aldosterona >15 ng/dL. O hiperaldosteronismo primário em idosos frequentemente se apresenta com hipertensão resistente e fibrilação atrial, com menor prevalência de hipocalemia. A espironolactona deve ser usada com cautela pelo risco de hipercalemia, especialmente se TFG <45 mL/min.

Gestante

Durante a gestação, ocorre aumento fisiológico de aldosterona (até 10 vezes no terceiro trimestre) e renina (3–5 vezes), mediado pelo aumento de estrogênio e pela expansão volêmica. Esses aumentos mantêm a RAR relativamente estável. O diagnóstico de hiperaldosteronismo primário na gestação é raro e desafiador; quando necessário, deve-se evitar espironolactona (antiandrógeno) e preferir eplerenona após o primeiro trimestre. A diferenciação com pré-eclâmpsia pode ser difícil clinicamente.

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Funder JW, Carey RM, Mantero F, et al. The Management of Primary Aldosteronism: Case Detection, Diagnosis, and Treatment: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016;101(5):1889-1916. 10.1210/jc.2015-4061
  2. Monticone S, Burrello J, Tizzani D, et al. Prevalence and Clinical Manifestations of Primary Aldosteronism Encountered in Primary Care Practice. J Am Coll Cardiol. 2017;69(14):1811-1820. 10.1016/j.jacc.2017.01.052
  3. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Hiperaldosteronismo Primário: Diagnóstico e Tratamento — Posicionamento Oficial da SBEM. Arq Bras Endocrinol Metab. 2020;64(3):275-292.

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