Entenda tudo o que você precisar saber sobre dosagem e cálculo de medicação para as principais condutas em ambulatório. Bons estudos!
Saber realizar uma boa prescrição, com corretas dosagens e cálculos de medicações é fundamental para uma atuação médica segura. Pensando nisso, todo médico generalista deve estar familiarizado e dominar essa habilidade.
Princípios básicos de farmacologia e dosagem de medicação: quais são as principais classes?
Ao longo da história humana, o desenvolvimento de classes de medicações deu-se de maneira a ampliar a qualidade do tratamento de diversas patologias.
Pensando nisso, as principais classes de medicações disponíveis para o atendimento ambulatorial são:
- Analgésicos e anti-inflamatórios (esteroidais ou não esteroidais);
- Antidiabéticos;
- Anti-hipertensivos.
Analgésicos e anti-inflamatórios: entenda o principal sobre sua dosagem
Os analgésicos e anti-inflamatórios são prescritos para alívio da dor e inflamação. A exemplo, temos a dipirona, o paracetamol e o ibuprofeno, dentre outros. Sendo os mais comumente usados, é importante que entendamos a diferença entre eles.
Antes, saiba que os 3 fármacos possuem potencial antitérmico associado, e costumam ser receitados para dores como lombalgia, cefaleia e abdominais inespecíficas.
A Dipirona possui bom potencial analgésico, além de barato e disponível. Apresenta uma brusca queda de pressão arterial, além de ser alérgeno para muitos pacientes, por isso é sempre importante se certificar possíveis alergias. Pode ser usado até 2g de 6/6h EV ou 8g/24h.
Quanto ao Paracetamol, possui um efeito analgésico inferior ao da Dipirona, embora seja a escolha em casos de alergia. Uma desvantagem da medicação é não possui formulação IV. Por isso, devido ao risco de hepatotoxidade, a dose tolerada é 1g de 8/8h, com dose máxima de 4g/24h.
O Ibuprofeno possui um bom potencial analgésico, superando o paracetamol. Devido a sua interferência no mecanismo das prostaglandinas, um risco do seu uso frequente é a hemorragia digestiva. Por isso, deve ser receitado com cautela. A dose máxima varia entre 2,4 a 3,2g em 24h. Uma variação dessa medicação é a associação entre Ibuprofeno com Escopolamina, resultando no Buscofen.
Os anti-inflamatórios não hormonais, como o Diclofenaco e Nimesulida, são uma classe que devemos manter um cuidado redobrado. Devido ao risco de lesão da mucosa gástrica e trombose venosa profunda (TVP), a sua administração deve durar um máximo de 7 dias. Por isso, sempre perguntar sobre histórico dispéptico ou de úlceras.
Antidiabéticos e as principais prescrições e dosagem
A diabetes é uma comorbidade muito comumente vista no atendimento ambulatorial. O paciente com DM1 costuma ser tratado com insulinoterapia, enquanto que o tipo DM2, com medicações hipoglicemiantes, sobre as quais trataremos aqui.

Sulfanilureias e glinidas: qual é a dosagem das principais drogas desse grupo?
As sulfanilureias atuam como secretagogos, estimulando a secreção de insulina. Dentre as principais drogas desse grupo, temos: glibenclamida, glicazida, glimepirida, glipizida e clorpropamida. As posologias mais comuns para as prescrições de sulfas são:
- Glibenclamida: 2,5 a 20mg, 1 a 2 tomadas por dia. Dose inicial de 2,5 a 5mg/dia;
- Glicazida (liberação imediata): 40 a 320 mg, 1 a 2 tomadas por dia;
- Glimepirida: 1 a 8 mg, 1 a 2 tomadas por dia;
- Glipizida: 2,5 a 20 mg, 1 a 2 tomadas por dia;
- Clorpropamida: 125 a 500 mg, 1 a 2 tomadas por dia;
As glinidas também são secretagogos, atuando com a redução da glicemia em jejum e da hemoglobina glicada. Em relação à sua posologia, temos:
- Repaglinida: 0,5 a 16 mg, 3 tomadas por dia. Administrada antes das refeições;
- Nateglinida: 120 a 360 mg, 3 tomadas por dia. Administrada sempre antes das refeições.
Biguanidas e glitazonas: entenda a dosagem de cada uma
As biguanidas possuem apenas uma representante: a famosa Metformina. Trata-se de um sensibilizador à insulina, diminuindo a resistência insulínica do paciente com DM2. Possui uma alta efetividade, sendo capaz de reduzir a HbA1c (hemoglobina glicada) do paciente em até 2%.
A Metformina pode ser a convencional, com liberação imediata, ou a Metformina XR, com uma liberação prolongada. As posologias são então:
- Metformina convencional: 1.000 a 2.550mg, 2 ou 3 tomadas por dia. Geralmente, a dose inicial pode ser de 500 mg ou 850 mg por tomada;
- Metformina XR: 1.000 a 2.550 mg, 2 ou 3 tomadas por dia. Sua dose inicial é de 500 mg por tomada. Por conta da liberação prolongada, a XR tem intuito de amenizar os efeitos adversos.
Assim como as biguanidas, as Glitazonas atuam na sensibilização periférica à insulina, especialmente em tecido muscular estriado e tecido adiposo. Uma particularidade dessa classe é o ganho de peso do paciente, com aumento de tecido adiposo periférico. Dentre suas representantes, apenas a Pioglitazona é uma opção terapêutica, sendo segura.
- Pioglitazona: 15 a 45 mg, 1 tomada por dia. Preferencialmente, inicia-se com a dose mínima de 15mg, aumentando a dose em 15 mg em 15 mg de acordo com a redução de Hb1Ac. Monitorar se há aparecimento de algum efeito adverso durante o aumento de dose.
Inibidores de alfa-glicosidase e Inibidores de DPP-IV (gliptinas): dosagem e indicações
Os inibidores de alfa-glicosidase atuam retardando a absorção de glicose. Dessa forma, ela reduz a elevação glicêmica pós-prandial. Por isso, é indicado para os pacientes que apresentam uma glicemia em jejum normal, mas alta pós-prandial.
Dentre 3 drogas representantes dessa classe, apenas a Acarbose está disponível no Brasil, com posologia de:
- Acarbose: 50 a 300 mg, 3 tomadas por dia, após a refeição.
Quanto aos inibidores de DPP-IV, atuam como incretinomiméticos/secretagogos insulínicos dependentes de de glicose. Com relação à sua posologia, temos:
- Sitagliptina: 50 ou 100 mg, 1 ou 2 doses por dia. Ou seja, 50mg/dose;
- Vildagliptina: 50 mg, 2 doses por dia;
- Saxagliptina: 2,5 ou 5 mg, 1 dose por dia;
- Linagliptina: 5 mg, 1 dose por dia;
- Alogliptina: 6,25, 12,5 ou 25 mg, 1 dose por dia.

Anti-hipertensivos: quais são as principais classes?
A Hipertensão Arterial é uma comorbidade arriscada, podendo favorecer processos patológicos perigosos. Por isso, tentar retardar o processo com a mudança do estilo de vida (MEV) é fundamental. Dessa forma, temos:
- I | baixo risco: MEV por 6 meses;
- I | risco intermediário: MEV por 3 meses;
- II e III | alto risco: MEV + terapia farmacológica.
Algumas medicações podem aumentar a pressão arterial do paciente, como Loratadina D, Coristina D e entre outros anti-gripais, bem como anticoncepcionais orais (ACO).
- Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA): Medicamentos como o Captopril e o Enalapril inibem a ação da enzima conversora de angiotensina, reduzindo a produção da angiotensina II, um potente vasoconstritor que aumenta a pressão arterial. Eles também aumentam a produção de bradicinina, um vasodilatador.
- Bloqueadores dos Receptores da Angiotensina II (BRA): Medicamentos como o Losartan e o Valsartan bloqueiam a ação da angiotensina II, reduzindo sua capacidade de contrair os vasos sanguíneos.
- Bloqueadores dos Canais de Cálcio (BCC): Medicamentos como o Nifedipino e o Amlodipino bloqueiam a entrada de cálcio nas células musculares lisas dos vasos sanguíneos, reduzindo sua capacidade de se contrair e, assim, diminuindo a pressão arterial.
- Diuréticos: Medicamentos como a Hidroclorotiazida e a Furosemida aumentam a produção de urina, reduzindo o volume de líquido no corpo e, consequentemente, a pressão arterial.
- Betabloqueadores: Medicamentos como o Propranolol e o Metoprolol bloqueiam a ação dos receptores beta-adrenérgicos, reduzindo a frequência cardíaca e a força da contração cardíaca, o que leva a uma redução na pressão arterial.
- Inibidores da Renina: Medicamentos como o Alisquireno inibem a ação da renina, uma enzima que estimula a produção da angiotensina II, levando a uma redução na pressão arterial.
Erros de medicação e estratégias de prevenção para a dosagem medicamentosa
Não é raro encontrarmos erros em prescrições, ou mesmo na administração de drogas prescritas pelos médicos. Embora alguns deles não ofereça, de fato, risco para a saúde do paciente, outros podem sim custar sua vida e sua saúde.
Por isso, possui protocolos de segurança e uma boa comunicação com a equipe interdisciplinar pode minimizar grandemente erros relacionados à isso. Algumas medidas de segurança que podem ser adotadas são:
- Se familiarize com as principais drogas disponíveis na unidade em que você trabalha, e as mais prescritas para determinadas patologias. Conhecer a posologia e o recomendado para seus pacientes é fundamental.
- É importante que todos os profissionais envolvidos no cuidado do paciente estejam cientes dos medicamentos prescritos e quaisquer mudanças na medicação. A comunicação entre os profissionais de saúde extrapola a mera cordialidade: trata-se da segurança do paciente!
- Caligrafia legível: crie uma estratégia que mantenha a sua caligrafia o mais legível possível. Faça letras de forma, ou mesmo tenha mais paciência para prescrever à mão, sem pressa, quando o meio digital não estiver disponível.
- Conte com a tecnologia! Antes de prescrever medicações menos usuais ou para pacientes em polifarmácia, garanta que não há interações medicamentosas. Essa medida pode ajudar a reduzir erros de prescrição.
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Perguntas frequentes
- Quais são os principais tipos de antidiabéticos?
Biguanidas, sulfonilureias, glinidas, inibidores da alfa-glicosidase, inibidores da DPP-4, agonistas do receptor GLP-1, inibidores SGLT2 e insulina. - Qual é a recomendação para pacientes com HAS I com baixo risco?
Não iniciar a medicação imediatamente, mas fazer mudanças do estilo de vida (MEV). - Qual a importância de adotar medidas de segurança para a prescrição de medicamentos e sua dosagem?
A segurança do paciente, garantindo um tratamento de qualidade e benéfico.
Referências
- A Prescrição Medicamentosa Ambulatorial no Internato: Formação e Prática. Vicentina Esteves Wanderley. Scielo
- PROTOCOLO DE SEGURANÇA NA PRESCRIÇÃO, USO E ADMINISTRAÇÃO DE MEDICAMENTOS. Ministério da Saúde|Anvisa|FioCruz|FHEMIG.
- Figura 1.
- Figura 2.