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Doença de Creutzfeldt-Jakob: manifestações, diagnóstico e manejo clínico

Pessoa com dificuldade de mobilidade apoia as mãos sobre uma bengala, em referência aos sintomas da Doença de Creutzfeldt-Jakob.

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Recentemente, a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) ganhou repercussão após o influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, ser diagnosticado com a condição. A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) integra o grupo das doenças priônicas, condições neurodegenerativas raras que apresentam progressão rápida e prognóstico desfavorável. Embora a maioria dos médicos encontre poucos casos durante a prática clínica, o reconhecimento precoce do quadro tem grande importância. Afinal, várias doenças potencialmente tratáveis também provocam declínio cognitivo acelerado e podem simular uma doença priônica.

Os príons diferem de vírus, bactérias e fungos porque não contêm material genético. Em vez disso, proteínas priônicas com conformação anormal induzem outras proteínas a adotar a mesma estrutura patológica. Consequentemente, esse processo desencadeia acúmulo proteico, perda neuronal, gliose e alterações espongiformes no sistema nervoso central.

Além disso, a DCJ evolui rapidamente. Em poucos meses, o paciente pode passar de alterações cognitivas discretas para grave incapacidade neurológica. Portanto, diante de uma demência rapidamente progressiva, o médico deve incluir essa condição no diagnóstico diferencial e conduzir uma investigação sistematizada.

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença de Creutzfeldt-Jakob representa uma encefalopatia espongiforme transmissível humana. O termo “espongiforme” descreve o aspecto microscópico do tecido cerebral, que apresenta vacúolos e adquire aparência semelhante à de uma esponja.

Na superfície das células, sobretudo dos neurônios, encontra-se a proteína priônica celular normal, denominada PrPᶜ. Quando essa proteína sofre uma alteração conformacional, surge uma forma anormal, frequentemente denominada PrPˢᶜ. Em seguida, essa estrutura atua como molde e converte proteínas normais em novas proteínas anormais.

Dessa maneira, o processo se amplifica progressivamente. Além disso, o organismo encontra dificuldade para degradar essas proteínas. Como resultado, ocorre acúmulo de agregados proteicos, disfunção sináptica e morte neuronal.

Apesar do caráter transmissível das doenças priônicas, o contato social habitual não transmite a DCJ. Assim, abraçar, tocar, compartilhar ambientes ou prestar os cuidados rotineiros ao paciente não oferece risco conhecido de transmissão. Por outro lado, determinados tecidos, como cérebro, medula espinal e olhos, exigem protocolos específicos quando entram em contato com instrumentos médicos.

Quais são as formas da doença de Creutzfeldt-Jakob?

A classificação considera a origem da alteração priônica. Embora as manifestações possam se sobrepor, cada forma apresenta características epidemiológicas próprias.

DCJ esporádica

A forma esporádica corresponde à grande maioria dos casos. Nesse contexto, não se identifica exposição a tecidos contaminados nem mutação familiar causadora da doença. Portanto, acredita-se que uma alteração espontânea na conformação da proteína priônica inicie o processo.

Geralmente, a DCJ esporádica afeta pessoas mais velhas, com maior frequência após os 60 anos. Além disso, o quadro costuma avançar rapidamente, muitas vezes ao longo de semanas ou poucos meses.

DCJ genética

Mutações patogênicas no gene PRNP, localizado no cromossomo 20, causam as doenças priônicas hereditárias. Essas alterações seguem, em geral, um padrão autossômico dominante. Portanto, cada filho de uma pessoa portadora apresenta 50% de probabilidade de herdar a variante genética.

Entretanto, a penetrância varia conforme a mutação. Além disso, algumas famílias desconhecem o histórico da doença, seja por tamanho familiar reduzido, morte precoce dos parentes ou diagnóstico anterior incorreto. Consequentemente, a ausência de antecedentes familiares não exclui uma forma genética.

O espectro hereditário também inclui outras doenças priônicas, como a insônia familiar fatal e a doença de Gerstmann-Sträussler-Scheinker.

DCJ iatrogênica

A forma iatrogênica surge após exposição médica a material contaminado. Historicamente, profissionais documentaram casos relacionados a transplantes de córnea e dura-máter, instrumentos neurocirúrgicos contaminados e hormônio do crescimento extraído de hipófises humanas.

Atualmente, protocolos de seleção de tecidos, esterilização e rastreamento reduziram substancialmente esse risco. Contudo, os príons resistem aos métodos convencionais de desinfecção. Por isso, serviços de saúde devem adotar precauções específicas quando realizam procedimentos em pacientes com suspeita ou confirmação de doença priônica.

Variante da doença de Creutzfeldt-Jakob

A variante da DCJ, ou vDCJ, apresenta relação com a exposição ao agente da encefalopatia espongiforme bovina. Essa condição ganhou destaque a partir da década de 1990, especialmente no Reino Unido.

Em comparação com a forma esporádica, a variante costuma afetar pessoas mais jovens e apresenta evolução clínica mais prolongada. Além disso, sintomas psiquiátricos e manifestações sensitivas frequentemente aparecem antes dos sinais neurológicos típicos.

Entre as manifestações iniciais, destacam-se:

  • Depressão
  • Ansiedade
  • Isolamento social
  • Irritabilidade
  • Insônia
  • Sintomas sensitivos dolorosos persistentes
  • Alterações comportamentais

Posteriormente, o paciente pode desenvolver ataxia, movimentos involuntários, declínio cognitivo e incapacidade neurológica progressiva. Além disso, a ressonância magnética pode mostrar hiperintensidade bilateral no pulvinar do tálamo, achado conhecido como “sinal do pulvinar”.

Quais são os sintomas da doença de Creutzfeldt-Jakob?

A apresentação clínica varia conforme o subtipo molecular e a região cerebral mais comprometida. Ainda assim, a forma esporádica costuma provocar uma combinação de declínio cognitivo, alterações motoras, distúrbios visuais e sinais cerebelares.

Inicialmente, o paciente pode apresentar prejuízo de memória, dificuldade de concentração, desorientação ou mudança de comportamento. Entretanto, diferentemente das demências neurodegenerativas mais comuns, a DCJ progride em ritmo acelerado.

Durante a evolução, podem surgir:

  • Demência rapidamente progressiva
  • Mioclonias espontâneas ou desencadeadas por estímulos
  • Ataxia de marcha e de membros
  • Alterações visuais
  • Sinais piramidais
  • Sinais extrapiramidais
  • Disartria
  • Disfagia
  • Rigidez
  • Distúrbios do sono
  • Alterações comportamentais
  • Mutismo acinético

As mioclonias representam contrações musculares breves, súbitas e involuntárias. Embora constituam um achado clássico, elas podem não aparecer no início. Por isso, a ausência de mioclonia não deve afastar a hipótese diagnóstica nas fases precoces.

Da mesma forma, alguns pacientes iniciam o quadro com sintomas focais, como alterações visuais, afasia ou síndrome cerebelar. Consequentemente, a apresentação pode sugerir acidente vascular cerebral, encefalite, epilepsia ou outra doença neurodegenerativa.

Quando suspeitar de doença de Creutzfeldt-Jakob?

O médico deve considerar a DCJ quando identifica uma síndrome neurológica de progressão rápida, sobretudo quando o paciente desenvolve demência associada a mioclonia, ataxia, alterações visuais ou sinais motores.

Contudo, a velocidade da evolução, isoladamente, não confirma o diagnóstico. Diversas condições tratáveis também provocam demência rapidamente progressiva. Portanto, a investigação deve excluir causas metabólicas, tóxicas, infecciosas, autoimunes, vasculares, neoplásicas e epilépticas.

Entre os principais diagnósticos diferenciais, encontram-se:

  • Encefalites autoimunes
  • Encefalite por herpes simples
  • Encefalopatia de Hashimoto
  • Encefalopatias metabólicas
  • Toxicidade medicamentosa
  • Estado de mal epiléptico não convulsivo
  • Linfoma do sistema nervoso central
  • Vasculites do sistema nervoso central
  • Doença de Alzheimer rapidamente progressiva
  • Demência com corpos de Lewy
  • Degeneração corticobasal
  • Síndromes paraneoplásicas
  • Deficiências vitamínicas

Assim, uma avaliação cuidadosa evita tanto o atraso no diagnóstico de DCJ quanto a perda da oportunidade terapêutica em doenças reversíveis.

Como diagnosticar a doença de Creutzfeldt-Jakob?

Nenhum exame isolado substitui o raciocínio clínico. Por isso, o diagnóstico antemortem combina história, exame neurológico, ressonância magnética, análise do líquido cefalorraquidiano e eletroencefalograma.

Ressonância magnética do encéfalo

A ressonância magnética exerce papel central na investigação. As sequências ponderadas em difusão, especialmente a DWI, podem mostrar restrição da difusão no córtex cerebral, achado conhecido como cortical ribboning. Além disso, o exame pode identificar alterações nos núcleos caudados e putâmens.

As sequências FLAIR também contribuem, embora a DWI geralmente detecte as alterações com maior sensibilidade. Entretanto, artefatos e outras doenças podem produzir achados semelhantes. Portanto, um neurorradiologista experiente deve interpretar as imagens em conjunto com o quadro clínico.

Na variante da DCJ, por sua vez, o sinal do pulvinar fortalece a hipótese. Nesse padrão, o pulvinar apresenta intensidade de sinal maior do que outras regiões dos núcleos cinzentos profundos.

RT-QuIC no líquido cefalorraquidiano

O teste de conversão induzida por tremor em tempo real, conhecido pela sigla RT-QuIC, detecta a atividade de semeadura da proteína priônica. Atualmente, esse método representa uma das principais ferramentas para o diagnóstico antemortem.

Primeiramente, o laboratório adiciona a amostra do paciente a um substrato com proteína priônica recombinante. Caso a amostra contenha príons anormais, ela induz a conversão e a agregação do substrato. Em seguida, o equipamento monitora esse processo por fluorescência.

Um resultado positivo, dentro de um contexto clínico compatível, sustenta fortemente o diagnóstico de doença priônica provável. Contudo, um resultado negativo não exclui completamente a condição. Alguns subtipos apresentam menor sensibilidade, e a contaminação da amostra por sangue também pode interferir no ensaio.

Proteína 14-3-3 e tau

A análise do líquido cefalorraquidiano pode identificar níveis elevados de proteína 14-3-3 e tau total. Esses marcadores refletem lesão neuronal rápida, mas não detectam especificamente príons.

Consequentemente, acidentes vasculares cerebrais, encefalites, crises epilépticas prolongadas e outras doenças que causam destruição neuronal intensa também podem elevar esses biomarcadores. Assim, o médico deve interpretar os resultados dentro do contexto clínico e radiológico.

Eletroencefalograma

O eletroencefalograma pode demonstrar complexos periódicos de ondas agudas, sobretudo na DCJ esporádica. Entretanto, esse padrão nem sempre aparece no início e pode permanecer ausente em determinados subtipos.

Além disso, alterações metabólicas e outras encefalopatias podem produzir padrões periódicos. Portanto, o EEG apoia o diagnóstico, mas não confirma a doença de forma independente.

Teste genético

O sequenciamento do gene PRNP ajuda a identificar formas hereditárias. Por isso, o médico deve considerar o exame quando o paciente apresenta história familiar, idade atípica, evolução incomum ou características compatíveis com outra síndrome priônica genética.

Antes e depois do teste, o aconselhamento genético oferece suporte ao paciente e à família. Afinal, um resultado positivo pode afetar parentes assintomáticos e influenciar decisões pessoais, reprodutivas e médicas.

Confirmação neuropatológica

A avaliação neuropatológica do tecido cerebral estabelece o diagnóstico definitivo. Essa análise pode demonstrar alteração espongiforme, perda neuronal, gliose e deposição da proteína priônica anormal.

Entretanto, a equipe raramente indica biópsia cerebral apenas para confirmar uma suspeita típica. Afinal, o procedimento envolve riscos e pode expor instrumentos e profissionais a tecidos de alta infectividade. Por isso, os médicos geralmente reservam a biópsia para situações nas quais outra doença tratável permanece como hipótese relevante. A autópsia, por outro lado, pode confirmar o diagnóstico e contribuir para a vigilância epidemiológica.

Quais critérios apoiam o diagnóstico provável?

De acordo com os critérios clínicos utilizados pelo CDC, um resultado positivo no RT-QuIC, associado a um transtorno neuropsiquiátrico compatível, permite classificar o caso como DCJ provável.

Outra possibilidade envolve demência rapidamente progressiva associada a pelo menos dois dos seguintes grupos de manifestações:

  • Mioclonia
  • Sinais visuais ou cerebelares
  • Sinais piramidais ou extrapiramidais
  • Mutismo acinético

Além disso, esse conjunto deve acompanhar um exame de apoio compatível, como EEG característico, proteína 14-3-3 positiva em contexto apropriado ou alterações típicas na ressonância magnética. Por fim, a investigação não deve apontar uma explicação alternativa mais provável. Os critérios clínicos atualizados podem ser consultados no CDC.

Existe tratamento para a doença de Creutzfeldt-Jakob?

Atualmente, nenhum tratamento interrompe ou reverte a neurodegeneração causada pela DCJ. Dessa forma, o cuidado concentra-se no controle dos sintomas, no conforto e no suporte à família.

Para controlar mioclonias, a equipe pode considerar medicamentos como clonazepam ou valproato, conforme as características clínicas e as condições do paciente. Além disso, analgésicos ajudam no manejo da dor, enquanto psicofármacos podem reduzir ansiedade, agitação ou sintomas psicóticos.

O plano assistencial também pode incluir:

  • Controle de dor e desconforto
  • Prevenção de lesões por pressão
  • Manejo de disfagia e secreções
  • Avaliação do risco de broncoaspiração
  • Fisioterapia conforme tolerância
  • Cuidados de enfermagem
  • Apoio psicológico aos familiares
  • Planejamento antecipado de cuidados
  • Integração precoce dos cuidados paliativos

Como a doença progride rapidamente, a equipe deve conversar cedo sobre objetivos terapêuticos e preferências do paciente. Além disso, uma comunicação clara reduz incertezas e ajuda os familiares a compreender o prognóstico.

Quais cuidados de biossegurança a equipe deve adotar?

Os cuidados habituais, como conversar, tocar, alimentar ou higienizar o paciente, não exigem isolamento específico além das precauções-padrão. Entretanto, procedimentos que envolvem tecidos de alta infectividade demandam planejamento rigoroso.

Os príons resistem a diversos processos convencionais de esterilização. Portanto, a equipe deve comunicar previamente a suspeita de DCJ aos setores de neurologia, neurocirurgia, patologia, endoscopia, centro cirúrgico e controle de infecção sempre que houver procedimento invasivo relevante.

Entre as principais medidas, destacam-se:

  • Identificar os instrumentos utilizados em tecidos de alto risco
  • Preferir materiais descartáveis quando possível
  • Evitar procedimentos invasivos sem benefício clínico claro
  • Consultar o serviço de controle de infecção antes do procedimento
  • Seguir protocolos específicos de descontaminação
  • Impedir que instrumentos potencialmente contaminados retornem ao uso comum antes da avaliação

O CDC recomenda métodos específicos para instrumentos e superfícies que entram em contato com tecidos potencialmente infectantes, pois a esterilização convencional pode não inativar os príons. As orientações completas estão disponíveis no protocolo de controle de infecção do CDC.

Prognóstico e acompanhamento familiar

A DCJ apresenta evolução progressiva. Na forma esporádica, muitos pacientes morrem dentro de meses após o início dos sintomas. Geralmente, infecções, broncoaspiração e complicações da imobilidade contribuem para o desfecho.

Nesse cenário, a comunicação médica precisa combinar clareza, empatia e disponibilidade. Além de explicar o diagnóstico, a equipe deve reconhecer o impacto emocional que uma doença rara e rapidamente fatal provoca.

Quando existe suspeita de forma hereditária, o aconselhamento genético torna-se particularmente importante. Contudo, familiares assintomáticos devem decidir livremente se desejam realizar testes preditivos, depois de compreender as possíveis consequências emocionais, familiares e sociais.

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Referências bibliográficas

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