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Disfunção sexual na menopausa: tratamentos disponíveis

Mulher madura sentada com expressão de desconforto, representando os impactos da disfunção sexual na menopausa.

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Queixas sexuais no climatério afetam 40% a 50% das mulheres e são tratáveis. Dispareunia, diminuição da libido e dificuldade de excitação ou orgasmo não são consequências inevitáveis do envelhecimento e respondem bem a abordagens farmacológicas e não farmacológicas. O ginecologista deve investigar ativamente esses sintomas e individualizar o tratamento conforme o fenótipo da disfunção.

Por que a função sexual muda na menopausa?

A transição menopausal envolve queda progressiva de estrogênio, testosterona e dehidroepiandrosterona (DHEA), com efeitos diretos na fisiologia sexual feminina.

Alterações estruturais e vasculares

  • Epitélio vaginal: torna-se mais fino, pálido e menos elástico, com redução do fluxo sanguíneo vaginal e da lubrificação
  • Microbiota e pH: pH vaginal aumenta de 3,8-4,5 para acima de 5,0, com redução de lactobacilos e maior risco de vaginite atrófica e infecções
  • Vascularização: a congestão vascular e a resposta vasocongestiva necessárias para a excitação ficam mais lentas e menos intensas.
  • Desejo sexual: queda de androgênios, sintomas vasomotores, sono fragmentado, humor deprimido e estresse psicossocial contribuem para redução do desejo.

Síndrome geniturinária da menopausa (GSM)

A síndrome geniturinária da menopausa engloba sinais e sintomas atróficos vulvovaginais: ressecamento, ardência, dispareunia e sintomas urinários (urgência, disúria, noctúria). A GSM é um dos principais determinantes de disfunção sexual, mas não explica sozinha a redução do desejo ou anorgasmia.

Como avaliar a disfunção sexual na menopausa?

A avaliação deve ser feita de forma rotineira, mesmo quando a paciente não traz a queixa espontaneamente. A anamnese sexual é componente essencial da consulta ginecológica do climatério.

Que perguntas fazer na anamnese sexual?

Uma anamnese estruturada deve cobrir as fases da resposta sexual feminina, além de fatores biopsicossociais:

  • “Com que frequência tem relação sexual? Está satisfeita?”
  • “Existe desconforto ou dor durante ou após a relação?”
  • “Nota ressecamento vaginal no dia a dia ou durante a relação?”
  • “Tem vontade de ter relação sexual? O desejo mudou nos últimos anos?”
  • “Consegue ficar lubrificada durante a relação?”
  • “Tem dificuldade para chegar ao orgasmo?”
  • “Como está o sono, o humor e o relacionamento com o parceiro?”
  • “O parceiro tem alguma dificuldade sexual que interfira na relação?”

Elementos complementares na anamnese

  • Histórico ginecológico e obstétrico: tempo de menopausa, terapia hormonal prévia ou atual, cirurgias pélvicas, radioterapia ou quimioterapia pélvica
  • Comorbidades: diabetes, hipertensão, hipotireoidismo, depressão, obesidade, doenças cardiovasculares
  • Medicações: antidepressivos (especialmente inibidores seletivos de recaptação de serotonina [ISRS] e inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina [IRSN]), anticoncepcionais, anti-hipertensivos (betabloqueadores, diuréticos), anti-histamínicos, opioides
  • Exame físico: inspeção vulvar, avaliação do canal vaginal, presença de prolapsos, sinais de atrofia (palidez, perda de rugosidade, petéquias, fissuras, estreitamento), sensibilidade vulvar.

Quais instrumentos padronizados usar?

Escalas validadas ajudam a quantificar a disfunção e monitorizar a resposta ao tratamento.

InstrumentoAvaliaUso prático
FSFI (Female Sexual Function Index)Desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dorPonto de corte 26,55 para diagnóstico de disfunção; útil para documentar resposta ao tratamento
MRS (Menopause Rating Scale)Sintomas somáticos, psicológicos e urogenitais do climatérioInclui domínio sexual; útil na triagem inicial de gravidade
BISF-W (Brief Index of Sexual Functioning for Women)Interesse, atividade, satisfação e qualidade da relaçãoMenos usado na prática clínica diária
ICF (Índice de Função Clitoridiana)Função clitoridiana: prazer, sensação, dorAvaliação complementar em casos selecionados

Na prática clínica, a FSFI é mais útil para documentar o diagnóstico e acompanhar evolução, mas uma anamnese bem conduzida é suficiente na maioria dos casos.

Quais diagnósticos considerar?

Nem toda queixa sexual no climatério é causada pela deficiência estrogênica.

  • Candidíase recorrente e vaginose bacteriana: simulam ou agravam sintomas de atrofia
  • Líquen escleroso vulvar: causa dor, prurido e dispareunia secundária
  • Vestibulodinia e vulvodinia: dor provocada ou espontânea sem correlação com hipoestrogenismo
  • Dor pélvica crônica e endometriose: intensificam a dispareunia profunda
  • Síndrome da bexiga hiperativa e cistite intersticial: frequentemente associadas à GSM
  • Disfunção sexual do parceiro: impacta a atividade e satisfação sexual da mulher
  • Transtornos depressivos e ansiosos: reduzem desejo e excitação independentemente do estado hormonal.

O diagnóstico é essencialmente clínico e deve considerar a sobreposição entre fatores orgânicos, psicológicos e relacionais.

Quais são as opções de tratamento para disfunção sexual na menopausa?

O tratamento deve ser escalonado conforme intensidade dos sintomas, fenótipo da disfunção (atrofia vaginal, baixo desejo, anorgasmia, dor) e contraindicações. As opções dividem-se em não farmacológicas, farmacológicas locais, farmacológicas sistêmicas e androgênicas.

Medidas não farmacológicas

Essas medidas são a base do cuidado e devem ser oferecidas a todas as pacientes, isoladamente ou associadas a terapia farmacológica.

MedidaIndicaçãoEvidência e orientação
Lubrificantes à base de água ou siliconeDispareunia de entrada, ressecamento leveUso durante a relação sem efeito sistêmico; produtos com pH acidificado são mais fisiológicos
Hidratantes vaginaisSintomas diários de ressecamento e ardênciaUso regular 2 a 3 vezes por semana; alívio prolongado comparado aos lubrificantes
Dilatadores vaginaisDispareunia, vaginismo, estenose vaginal pós-radioterapiaProgressão gradual de calibre associada a lubrificação; promovem acomodação e dessensibilização
Fisioterapia pélvicaDispareunia, hipertonia do assoalho pélvico, vaginismoBiofeedback, eletroestimulação e massagem perineal com evidência favorável em estudos pequenos
Terapia cognitivo-comportamental e terapia sexualBaixo desejo, ansiedade de desempenho, problemas relacionaisPrimeira linha para transtorno do desejo sexual hipoativo conforme diversas diretrizes
Estimulação clitoridianaDificuldade de excitação e anorgasmiaVibradores e bomba de vácuo clitoridiana melhoram resposta vasocongestiva; poucos estudos controlados
Atividade física regular e sono adequadoTodos os sintomas, especialmente desejo e humorEfeito indireto via melhora de humor, autoestima e energia

Estrogênio vaginal

O estrogênio vaginal é tratamento de primeira linha para síndrome geniturinária da menopausa quando a queixa é predominantemente urogenital. Estrogênios em baixas doses promovem reversão da atrofia do epitélio vaginal, restauram pH ácido e melhoram lubrificação e dispareunia em duas a quatro semanas.

FármacoFormulaçãoDose usualObservações
Estriol creme1 mg/g1 g à noite, 3 vezes por semana após indução diária por 2 a 4 semanasMenor potência estrogênica
Estradiol creme0,1 mg/g0,5 a 1 g à noite, 2 vezes por semana após induçãoAbsorção sistêmica mínima em doses vaginais
Estradiol comprimido vaginal10 mcg1 comprimido 2 vezes por semana após induçãoDose muito baixa, segura em mulheres com contraindicação leve à terapia sistêmica
Prasterona (DHEA) vaginal6,5 mg1 óvulo à noiteAprovada em diversos países; alternativa com efeito androgênico local sem ação estrogênica direta

Ponto prático: estrogênio vaginal em baixas doses não requer associação com progestagênio, mesmo em mulheres com útero, pois absorção sistêmica é mínima. A segurança em mulheres com câncer de mama é discutível; a maioria das diretrizes considera uso aceitável após discussão com a paciente quando sintomas urogenitais graves não respondem a medidas não hormonais.

Terapia hormonal sistêmica

Indica-se a terapia hormonal sistêmica quando há sintomas vasomotores moderados a graves associados a queixas sexuais. A melhora da função sexual ocorre por múltiplos mecanismos: redução de fogachos e sudorese noturna, melhora do sono e humor, aumento da vascularização vaginal.

CenárioEsquema habitualEspecificidade
Mulher com útero, sintomas vasomotores + GSMEstradiol oral ou transdérmico com progestagênio contínuo ou sequencialVia transdérmica tem menor risco de trombose venosa
Mulher histerectomizadaEstradiol isolado (oral ou transdérmico)Não requer progestagênio
Mulher com contraindicação a estrogênio sistêmicoTibolona 2,5 mg/diaPró-hormona com metabolismo tecidual específico; melhora libido e bem-estar mas perfil de segurança em câncer de mama é controverso

Tibolona tem efeitos estrogênicos em osso, cérebro e vagina, com ação androgênica. Estudos mostram melhora da libido, porém risco de recorrência de câncer de mama em usuárias parece maior comparado à terapia estrogênica convencional, limitando seu uso.

Leia mais: Terapia de reposição hormonal feminina: manejo da pós-menopausa

Ospemifeno

Ospemifeno é modulador seletivo do receptor de estrogênio (SERM) com ação agonista no epitélio vaginal e antagonista na mama. É aprovado para tratamento de dispareunia moderada a grave em mulheres com atrofia vulvovaginal na pós-menopausa.

Dose: 60 mg/dia por via oral com alimentos.

VantagemDesvantagem
Alívio da dispareunia em duas a quatro semanasAumento de fogachos em 7% a 20% das usuárias
Não estimula o tecido mamárioContraindicado em histórico ou risco elevado de câncer de mama
Uso oral sem aplicação vaginalEventos tromboembólicos e vasculares; contraindicado em mulheres de alto risco

A resposta é avaliada em oito a doze semanas. Na prática, é opção para mulheres que não desejam estrogênio vaginal ou preferem tratamento oral.

Testosterona

A deficiência de testosterona tem relação consistente com redução do desejo sexual mais do que com atrofia genital. Terapia com testosterona em doses fisiológicas demonstra melhora do desejo, excitação e satisfação em ensaios clínicos randomizados.

No Brasil, não há testosterona registrada na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso feminino. A prescrição é off-label com formulações manipuladas em gel ou creme, em doses de 1 a 5 mg/dia. A monitorização deve incluir níveis de testosterona total, sinais de virilização (acne, hirsutismo, engrossamento da voz) e perfil lipídico.

AspectoRecomendação prática
IndicaçãoTranstorno do desejo sexual hipoativo refratário após exclusão de outras causas
Dose inicialGel de testosterona 1 mg/dia, aplicado na pele; ajuste conforme resposta
Nível alvoTestosterona total no terço médio ou alto da faixa feminina pré-menopausa
ContraindicaçõesCâncer de mama atual ou prévio, hiperplasia endometrial, acne grave, virilização
SeguimentoA cada 3 meses no primeiro ano; questionar adesão, efeitos androgênicos e nível sérico

Flibanserina e bremelanotida

Flibanserina, agonista 5-HT1A e antagonista 5-HT2A, foi aprovada nos Estados Unidos para transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pré-menopausa, com benefício modesto: cerca de metade das mulheres refere melhora. Não é aprovada no Brasil.

Indica-se a remelanotida, análogo da melanocortina, para TDSH por injeção subcutânea autoadministrada. Também não está disponível no Brasil. O uso dessas drogas no climatério permanece off-label e sem evidência robusta nessa população, limitando aplicação prática.

Como escolher o tratamento conforme o quadro clínico?

A escolha parte da identificação do sintoma-alvo, intensidade do quadro e presença de contraindicações à terapia hormonal.

Perfil clínicoPrimeira linhaAlternativas
Ressecamento leve, dispareunia leve, sem contraindicaçõesLubrificantes e hidratantes vaginaisEstrogênio vaginal se falha
Dispareunia moderada a grave por atrofiaEstrogênio vaginalOspemifeno oral; prasterona vaginal; dilatadores associados
Sintomas vasomotores moderados a graves com queixas genitaisTerapia hormonal sistêmica (estrogênio com progestagênio se houver útero)Tibolona em casos selecionados; ISRS/IRSN para sintomas vasomotores se TH contraindicada
Baixo desejo sexual sem atrofia significativa com terapia hormonal adequadaAvaliar causas psicossociais e relacionais; terapia cognitivo-comportamentalTestosterona off-label em casos refratários após exclusão de contraindicações
Queixa mista (desejo mais dor mais ressecamento)Associação de estrogênio vaginal com manejo do desejo (TCC, psicoterapia)Ospemifeno com TCC; testosterona se desejo persistir
Mulher com câncer de mama e GSM graveLubrificantes, hidratantes, dilatadoresEstrogênio vaginal após discussão com oncologista em casos refratários

Como orientar a paciente quanto às expectativas e adesão?

A comunicação da prescrição é parte do tratamento. Muitas mulheres acreditam que dor e falta de desejo são inevitáveis na menopausa e não buscam ajuda por vergonha ou desconhecimento. O ginecologista deve:

  • Abordar o tema em todas as consultas do climatério com perguntas amplas que normalizem a queixa
  • Explicar que os sintomas têm causa física e tratável, não são “frescura” nem consequência inevitável do envelhecimento
  • Esclarecer que a terapia hormonal local não é absorvida de forma relevante pelo corpo e não aumenta o risco de câncer de mama na maioria das pacientes
  • Informar que a melhora dos sintomas vaginais com estrogênio local leva de duas a quatro semanas, mas que a adesão contínua é necessária para manter o efeito
  • Reforçar que pode-se manter a terapia por tempo prolongado com reavaliação periódica, sem necessidade de suspensão em data fixa
  • Apresentar as opções de tratamento e envolver a paciente na decisão, respeitando preferências por via oral, vaginal ou não hormonal
  • Quando houver disfunção do desejo, discutir abertamente fatores relacionais e emocionais, oferecendo terapia sexual ou psicoterapia.

A adesão ao estrogênio vaginal é prejudicada por desconforto na aplicação, esquecimento e receio de hormônios. Instruções claras, uso de aplicadores com dose marcada e acompanhamento em uma ou duas consultas aumentam a continuidade do tratamento.

Pontos-chave

  • Queixas sexuais no climatério afetam cerca de metade das mulheres e deve-se investigar ativamente em toda consulta ginecológica desse período
  • A síndrome geniturinária da menopausa é a principal causa orgânica de dispareunia, ressecamento e dor vaginal, mas não explica a redução do desejo sexual
  • Anamnese sexual estruturada e instrumentos como FSFI e MRS ajudam a diagnosticar e monitorizar a resposta ao tratamento
  • Lubrificantes e hidratantes vaginais são a base do tratamento sintomático e pode ser utilizado por todas as pacientes, inclusive com contraindicação hormonal
  • Estrogênio vaginal em baixa dose é primeira linha para atrofia vulvovaginal e dispareunia moderada a grave, com segurança e sem necessidade de progestagênio
  • Ospemifeno é alternativa oral para dispareunia por atrofia, com contraindicação em risco tromboembólico ou câncer de mama
  • Testosterona pode ser considerada off-label para transtorno do desejo sexual hipoativo refratário, com monitorização clínica e laboratorial regular
  • Terapia cognitivo-comportamental e terapia sexual tornaram-se a primeira linha para redução do desejo ligada a fatores psicossociais
  • A comunicação acolhedora e educação da paciente são determinantes para adesão e desfecho do tratamento.

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Referências bibliográficas

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