Confira o artigo completo sobre a morte em um ambiente residencial do Dr. Vitor Schlittler Abreu, especialista em cuidados paliativos e coordenador da Sanar Pós!
Inquestionável é o avanço dos Cuidados Paliativos no Brasil, ainda que muito aquém de algo minimamente suficiente e disponível.
Nesse contexto, hoje um cenário no qual um paciente ou familiar tem a oportunidade de falecer em casa se tornou algo possível. As vantagens são inúmeras. Para tornar sua leitura ainda mais completa, sugiro como leitura complementar a (pioneira) história de Herbie, um alemão que morou na Irlanda e teve seu processo de fim de vida em casa (por sua opção) documentado pela série da rede inglesa BBC “The BBC’s Human Body – The end of life”, assim como o guia de preenchimento de atestado de óbito da cidade de São Paulo.
A morte no ambiente hospitalar
Começo com a chance de se evitar a despersonalização do ambiente hospitalar, onde as perdas já tão intensas nos momentos finais da vida são potencializadas de maneira exponencial.
Troca-se um ambiente onde é o seu refúgio, com seus:
- Pertences
- Roupas
- Comida
- Seus animais de estimação
Por um lugar sempre gélido, incolor, barulhento, não acolhedor. Ali o seu paciente ou familiar é só mais um, imparcial, coletivo. Está sujeito à possibilidade sempre assustadora da ocorrência de distanásia, quando a autonomia está ausente ou a interpretação da condução médica do caso não é tão linear. Sempre tem alguém sugerindo uma sonda aqui ou ali “para conforto”.
As vantagens da morte no ambiente de conforto
Uma das maiores vantagens é a possibilidade de ter ao lado todas as pessoas que façam sentido neste momento:
- Familiares
- Religiosos
- Amigos.
Nos momentos que forem escolhidos, sem regras de revezamento ou restrições de horário noturno. Possível também rituais religiosos que muitas vezes não são disponíveis dentro do ambiente de hospital.
O ambiente do hospital tem um tom quase sempre “politicamente correto”. Não pode se levantar, não pode ouvir som alto, não pode fumar, não pode beber… sinceramente, nesse momento se me pedissem isso eu até encorajaria qualquer vontade que traga conforto, alegria, algum prazer.
Por que a maioria dos óbitos ocorre em ambiente hospitalar?
Não é só no Brasil, mas no mundo todo essa experiência é dificultosa de maneira semelhante. Vamos elencar alguns obstáculos importantes a seguir.
Disponibilidade de suporte em Cuidados Paliativos adequado
A disponibilidade é muito inferior ao minimamente necessário. Fato é que, mesmo em grandes cidades como as capitais, tanto no contexto público quanto privado de saúde há uma carência de:
- Profissionais de saúde capacitados
- Estrutura logística para atendimento
- Backup de medicações para controle de sintomas.
Uma equipe multidisciplinar adequada e presente demanda muito tempo e recurso, dessa forma tornando-se em geral inviável para o serviço público ou para cobertura do convênio médico.
Custo desse suporte durante a morte
O custo para esse tipo de suporte sendo arcado de maneira particular é ainda mais desafiador.
Diria quase proibitivo para a maioria das famílias de classe econômica baixa e média.
Estigma negativo dos cuidados paliativos na morte em casa
O estigma negativo dos Cuidados Paliativos vem a seguir. Conseguir colaboração dos familiares para lidarem com sintomas que possam ocorrer, como a:
- “sororoca”
- Dor
- Dispneia
- Entre outros,
Além disso, deve-se:
- Orientar sobre a administrarem medicamentos em acessos venosos ou subcutâneos
- Aspiraração das vias aéreas
- Desmistificar que o uso da morfina para sintoma de fim de vida não é eutanásia.
Dessa forma, são grandes desafios em um meio com olhares que julgam e aconselham sem conhecimento sobre o assunto.
Burocracias
Esbarramos em seguida nas burocracias. Digo burocracias no plural, pois estão em todas as categorias do cuidado. Conseguir disponibilidade de medicamentos para fase final de vida como benzodiazepínicos e opioides fortes injetáveis em casa é extremamente complexo e dificultado.
Os receituários azuis e amarelos em geral não estão facilmente disponíveis aos médicos. Os medicamentos precisam de via para administrarem, aí encontramos dificuldade em conseguir equipamentos médicos como:
- Acessos venosos
- Equipos para administração.
Bom, vamos supor que todas essas dificuldades foram superadas, agora avancemos para o momento do óbito em si. Vou começar pelo caminho “fácil”, é necessário que o médico esteja disponível no momento que ocorrer o óbito, para poder deslocar-se até a residência, constatar e atestar o óbito.
Além disso, o profissional precisará estar munido de Declaração de Óbito (dica: assim que possível já peça um bloco em um dos serviços hospitalares da sua cidade).
Se a família manifestar desejo de cremação, então será necessária uma outra assinatura médica (muitas vezes não disponível). Oriente-os a procurar uma funerária dentre as cadastradas na sua cidade, para os (caríssimos) trâmites de velório e sepultamento.
Principais complicações para morte em ambiente residencial
Os caminhos difíceis são muitos. Quando o paciente não é seguido por médico, ou quando seu médico não estiver disponível (por exemplo, em viagem ou, na posição de médico do posto de saúde, no período noturno ou final de semana e feriado), a família precisa primeiramente acionar o SAMU (para constatação médica do óbito).
Em seguida, precisa ir à delegacia mais próxima para registro de boletim de ocorrência do óbito. Dessa maneira permite que o CEPOL (Centro de Comunicações da Polícia Civil) encaminhe transporte do corpo para o SVO (Serviço de Verificação de Óbito), onde possivelmente será realizada necrópsia para causa da morte. Esse processo muitas vezes arrasta-se por dias.
A importância do suporte profissional adequado durante a morte
Após todos esses obstáculos, podemos entender por que a grande maioria dos óbitos ocorre em ambiente hospitalar, mesmo no contexto de limitação de suporte em Cuidados Paliativos. Sobrecarrega um sistema já absolutamente limitado.
Como profissionais capacitados, precisamos batalhar pelo crescimento do suporte adequado e a correta educação dos profissionais de saúde e da população em geral, a fim de desmistificar a morte em casa.

Autoria
Dr. Vitor Schlittler Abreu
CRM 150409-SP
RQE 859311
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