Em 1874 um jovem norueguês Dr. Gerhard Henrick Armauer Hansen descobriu o bacilo da Hanseníase, Mycobacterium Leprae. Mas os relatos desta doença já existem desde o Egito Antigo, há mais de 4.000 anos atrás. A Bíblia também discorre sobre a enfermidade, e podemos acompanhar sua evolução e prejuízos causados, surgindo desde 1.350 a.C. historicamente relacionado a um enorme problema de saúde pública.
A doença era conhecida na história antiga como a Lepra ou mal de Lázaro, a enfermidade era relacionada com pecado, castigo de Deus, impureza, e também associada a doenças venéreas. Isso fazia com que os portadores da doença, fossem excluídos da sociedade, não podendo ter acesso a serviços de saúde, aumentando ainda mais a proliferação dos bacilos. No Brasil, até século XX, eram obrigados a ser isolar em Leprosários, onde tinha mais o intuito de isolar do que tratar os enfermos, justificando o grande problema de saúde pública.
O que é a Hanseníase?
É uma doença crônica, infecto-contagiosas, causada pela Mycobacterium Leprae, com transmissão aérea por contato próximo e prolongado com indivíduos infectados, e que pode acometer parte cutânea e nervosa.
A doença acomete principalmente nervos periféricos (Células de Schwann), localizados em face, pescoço, braço e joelhos, mas pode afetar olhos e outros órgãos. Estima-se que, 95% dos indivíduos expostos a M. Leprae são resistentes a infecção.
Como classificar a Hanseníase?
-Paubacilar: até 5 lesões cutâneas, 1 tronco neural acometido. Tratamento Paubacilar: 6 meses de Rifampicina/mensal e Dapsona/diária.
-Multibacilar: Mais de 5 lesões cutâneas, mais de um tronco nervoso acometido. Tratamento: por 12 meses com Rifampicina/mensal, Dapsona/diária e Clifazimina/diária.
Como diferenciar as formas clínicas da Hanseníase?
#Forma indeterminada: ocorre em todos pacientes na fase inicial da doença. Pode ser percebida com características de máculas com bordas mal definidas e seca, e pode ter comprometimento neural com perda da sensibilidade térmica e dolorosa, mas sem perda da sensibilidade tátil. Classificada como Paubacilar.
#Forma Tuberculoide: manifesta-se com uma placa anestésica geralmente bem delimitada, e centro claro como um anel. Pode ter comprometimento nervoso isolado ou perda total da sensibilidade. Classificada como Paubacilar.
#Forma Dimorfa: é a forma intermediária, apresenta-se com placas eritematosas de variados tamanhos e quantidades, com aspecto de manchas vermelhas ou brancas, mal delimitadas na periferia, e pode ter perda parcial ou total da sensibilidade, podendo haver comprometimento nervoso periférico de forma assimétrica. É a forma mais comum de apresentação da doença. Classificada como Multibacilar.
#Forma Virchowiana: forma mais contagiosa, e não apresenta manchas visíveis. A resposta celular e quase nula, e seu aspecto cutâneo costuma ser nodular, escurecimento, endurecido, infiltrado, seco, com aspecto vulgarmente descrito como “casca de laranja” , poupa couro cabeludo, axilas e o meio da coluna lombar. Pode apresentar Madarose, perda de cílios, suor diminuído, pés e mãos edemaciados. O comprometimento neural periférico é simetricamente espessados. Classificada como Multibacilar.
Outros sintomas associados:
- Conjuntivite;
- Linfadenomegalias indolores;
- Pés e mãos edemaciados;
- Olhossecos e pele seca;
- Hansenomas (papulas) ;
- Acometimento do pavilhão auricular;
- Hepatomegalia e Esplenomegalia;
- Insuficiência supra renal ou renal;
- Úlceras indolores e bordas elevadas e tróficas;
- Lesões ósseas em mais e pés;
- Atrofia de testículos;
- Cianose de mãos e pés;
- Madarose;
- Face Lisa por infiltração, fácies Leonina;
- Nariz congesto;
- Anidrose;
- Perca de pelos exceto do couro cabeludo;
- Câimbras, parêntesis;
- Artralgias;
- Orquites.
Como Diagnosticar?
O diagnóstico é CLÍNICO baseado na clínica do paciente e suas lesões, porém, usa-se métodos auxiliares para confirmação.
*Baciloscopia: principalmente quando se suspeita de formas multibacilares. É um exame microscópico em que se observa o bacilo no esfregaço intradérmico coletado no lóbulo da orelha, cotovelo, e/ou lesão. Serve como um dos critérios de confirmação de recidiva e auxilia no diagnóstico. Mas a baciloscopia negativa, não afasta o diagnóstico de Hanseníase.
*Teste de Mitsuda: não é útil para diagnóstico, mas ajuda avaliar a imunidade celular. Positivo na forma Paubacilar. O resultado positivo aponta para amadurecimento do sistema imune celular após o estímulo do bacilo.
*Biópsia da Pele: raramente necessária, mas pode ajudar na confirmação.
*Prova de Histamina Exógena: para avaliar resposta vasorreflexa a droga, indicando viabilidade do Sistema Nervoso Autônomo.
*Alguns exames laboratoriais podem ser especificamente positivados, como: FAN, VDRL, FR, anticorpos Anticardiolipinas, anti-Lupico, Crioglobulinas.
Profilaxia:
BCG: Deve-se avaliar os comunicantes, se não tem lesões sugestivas, não apresentam contraindicações e, se tem só 1 dose da BCG, recomenda-se a sua administração.
Conclusão:
Em 1981 a Organização Mundial da Saúde, passou a recomendar o tratamento específico, a Poliquimioterapia. E desde 1995, o tratamento é mundialmente gratuito. É inadmissível que uma enfermidade já tão abordada, não seja tratada adequadamente.
É importante que o profissional de saúde saiba fazer o diagnóstico e manejo correto da Hanseníase, para que isso ocorra, é necessário saber identificar as peculiaridades das formas neurocutâneas e fazer diagnóstico diferencial com outras enfermidades como (Ptiriase Versicolor, Micoses, Vitiligo e Neuropatias), para evitar equívocos no tratamento.
Quanto mais cedo o seu diagnóstico melhor, visto que, o tratamento interrompe a transmissão, cura a doença e previne sequelas.
Autora: Flavia Cristina Rodrigues de Sena
Instagram: @flaviasena87
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Referências Bibliográficas
Ardnt KA, Hsu JTS. Manual de Terapia Dermatológica. São Paulo: Novo Conceito; 2008.
Brasil. Ministério da Saúde (MS). Departamento de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim epidemiológico de hanseníase [Internet]. Brasília: MS; 2020 [acessado 2021 out 01]. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt br/pub/2020/boletim-epidemiologico-de-hanseniase-2020 >> http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2020/boletim-epidemiologico-de-hanseniase-2020
Hanseníase: aspectos clínicos, imunológicos e terapêuticos/Leprosy: clinical, immunological and therapeutical aspects.Foss, Norma Tiraboschi, An. bras. dermatol, 74(2): 113-9, mar-abr. 1999. Artigo em Português | LILACS | ID. lil-262956.
Ministério da Saúde (BR). Guia prático sobre a hanseníase [recurso eletrônico]/ Ministério da Saúde, Secretaria de Vigi lância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.