Veja tudo que você precisa saber sobre as teorias de aprendizado e como aplicá-las na sua rotina de estudos para alcançar bons resultados!
Neste texto, vamos transformar longos anos de estudo sobre as teorias de aprendizado em uma forma prática para você estudar melhor. Se você está aqui, é porque provavelmente você já se perguntou como poderia estudar mais assuntos de uma melhor forma e em menos tempo.
Em primeira mão, já digo que não existe fórmula mágica para aprender sem se esforçar no estudo. Porém, esse “esforço” pode e deve ser mais eficiente.
Teorias de aprendizado: o que vou ver nesse texto?
De início, serão apresentados alguns dos mais modernos conceitos debatidos hoje em dia sobre produtividade no estudo para, depois, transformá-los em dicas práticas que você poderá utilizar no seu estudo diário da medicina.
O grande objetivo é poder aproximar conceitos teóricos, por vezes tão distantes, e os aplicar da maneira mais simples e efetiva dentro da nossa realidade.
Conhecer brevemente a parte mais conceitual e, talvez, mais filosófica acerca das teorias de aprendizagem é de fundamental para que, mais para frente, você entenda o porquê de certas recomendações e as possa aplicar corretamente.
O que o “homem das cavernas” tem a ver com meu estudo?
Os conceitos mais “modernos” não são, necessariamente, novos. Se você perguntasse a um ser humano nos primórdios da humanidade – um “homem das cavernas” por exemplo – como ele descobriu que atirar uma lança em um galho de árvore faz o fruto se desprender e ser mais fácil de se comer, ele responderia (em algum dialeto): “testando”.
A forma mais fácil de se adquirir novas habilidades é testando. E, com conhecimento, não é diferente.
Uma das primeiras teorias de aprendizado
O efeito-teste (do inglês “Retrieval Practice”) consiste no aprendizado pautado em perguntas e respostas objetivas que permitam a evocação da memória de curta duração. Ou seja, toda vez em que você se depara frente a uma situação-problema (pergunta ou como retirar o fruto da árvore) é automaticamente instalado uma sensação de “preciso resolver” (resposta ou atirando uma lança). E, dessa forma, o estudante assume proatividade e exercita sua capacidade de resolução de problemas.
Dessa forma, constitui-se um dos principais pilares da tão difundida metodologia ativa de aprendizagem. Na qual o estudante deixa de exercer um papel passivo, para ir em busca do seu próprio conhecimento, favorecendo a retenção deste novo aprendizado por mais longos períodos.
O que mostra os estudos?
Um artigo da Revista Science (KARPICKE, J.D. e BLUNT, J.R.; 2011) demonstrou a superioridade dos mecanismos de recuperação do conhecimento via efeito-teste frente a outras metodologias. Em consonância, Belluck (2011) interpretou os dados presentes no estudo citado e desenvolveu o gráfico abaixo.

Outro interessante estudo desenvolvido por Akresh-Gonzales (2015) trouxe uma comparaçã entre alunos que foram submetidos ao efeito-teste e outros que estudaram de maneira teórica e “tradicional”. O resultado demonstra benefício indubitável da metodologia proposta, como observamos na imagem abaixo.

Trazendo este conceito ao nosso meio médico, caso perguntasse a você, após passar por uma enfermaria ou ambulatório de Nefrologia, como você aprendeu, de fato, Nefrite Lúpica, esperaria muito mais que a resposta fosse “acompanhando a paciente Fulana, na prática”, do que “lendo a página X do livro tal”.
É óbvio que a leitura tem grande importância na construção do aprendizado. Mas é mais fácil a lembrança de algo que você viu na prática, no dia-a-dia, se comparado a algo apenas da teoria.
Este efeito surge como uma tentativa de resolver este problema: trazer a prática para o estudo teórico. Não convivendo e acompanhando pacientes, mas forçando a constante resposta de perguntas, de casos clínicos.
Qual a importância de aplicar os conhecimentos adquiridos estudando?
Dito isso, já sabemos a importância de se utilizar desse conceito no nosso dia-a-dia. Mas, da feita que aprendemos com esta metodologia, vamos ficar com esse conhecimento para sempre? A resposta é: depende. Depende de como você utilizará este novo conhecimento adquirido.
Caso opte por nunca mais evoca-lo, ou melhor, caso “nunca mais toque no arquivo dentro do seu HD na cabeça”, você o esquecerá. E é importante demais que esse esquecimento aconteça. Imagine só se você guardasse todas as informações adquiridas na vida juntas na cabeça.
Primeiro, ela ia congestionar e, provavelmente, ficaria mais lenta – tal como o exemplo de qualquer computador. Segundo, as memórias têm importâncias diferentes. Você prefere esquecer o nome da sua mãe ou de uma das enzimas do Ciclo de Krebs? Espero que a segunda opção. Então, é importante que o nosso próprio corpo “esvazie” continuamente as informações menos relevantes – ou as quais damos menos relevância.
Teorias de aprendizado: tem uma forma certa de revisar assuntos?
Aplicando esse conceito no nosso estudo dentro da Medicina, precisamos demonstrar ao nosso próprio organismo que é importante para nós reter o conhecimento médico. Como fazemos isso? Evocando várias e várias vezes – de maneira organizada – tal conhecimento que queremos reter. Agora, entramos em outro ponto fundamental da nossa conversa: as revisões.
Para entender a importância dessas revisões e qual o melhor momento para fazê-las, cabe expor a clássica – porém, atual – Curva de Esquecimento e Retenção de Ebbinghauss (imagem abaixo).

Como funciona a curva de esquecimento?
Essa curva permite-nos concluir que, em 24 horas após o primeiro contato com o estudo, retemos apenas perto de 30% do absorvido do dia anterior. E, a cada dia, esta porcentagem decai cada vez mais.
Com o intuito de impedir esta tão brusca queda, ressaltamos a principal forma de quebrar este ciclo natural de esquecimento: a Revisão Constante. E, dessa forma, poder-se-á converter a memória de curta duração – adquirida via efeito teste – em memória de longa duração.
Inúmeros são os métodos existentes que relacionam o tempo adequado para realizar cada revisão. Não será abordado este tópico neste momento pelo simples fato de não haver “receita de bolo”, sendo bastante variável de individuo para indivíduo.

Divida seus conhecimentos!
Para finalizar esta abordagem inicial, o último conceito bastante relevante a abordar diz respeito acerca da importância de não sermos “ciumentos” do nosso conhecimento.
Conhecimento bom é conhecimento partilhado, certo? Isto é justificado por mais uma fundamentação teórica do aprendizado: a Pirâmide de William Glasser.
Ela nos indica que a maior parte do aprendizado retido também envolve discutir e explicar os assuntos compreendidos.

Assim, nos faz um bem maior do que imaginamos quando explicamos:
- um assunto para um colega de universidade que está com dificuldade na matéria;
- explicar algo novo que foi dito na aula para seus familiares em casa; ou
- demonstrar como fazemos certo procedimento/manobra a outro colega médico.
Como tornar a teoria mais prática?
A partir disso, temos fundamentação suficiente para estabelecermos, juntos, as tão aguardadas dicas práticas sobre como estudar melhor.
Dica 1
Responda perguntas constantemente. Teste-se! Seja por meio de questões, seja via Flashcards direcionados. Para situações específicas, existem diferenças entre essas duas ferramentas.
Por exemplo, uma questão com um caso clínico pode lhe ajudar mais quando você estiver diante de um paciente no seu consultório. Por outro lado, para poder relembrar os critérios diagnósticos da condição deste paciente, um Flashcard pode ser mais útil.
Dessa forma, questões e Flashcards são complementares. Para aquisição de conhecimento, ambos funcionam. Utilize o que você tiver melhor adaptação.
Dica 2
Organize suas revisões. Há quem prefira revisar o assunto mensalmente; quem prefira revisa-lo quinzenalmente; e assim por diante. A respeito das revisões, gostaria de ressaltar dois pontos fundamentais:
- O primeiro é faça elas. Seja de qualquer forma escolhida, apenas o fato de você revisitar o assunto na sua memória, como dissemos, já facilitará a conversão dele em memória de longa duração.
- O segundo: não se esqueça da Curva de Ebbinghauss! Lembre que existe fundamentação teórica dizendo que, sim, sua mente esquecerá e, ainda melhor, quando ela esquecerá.
Dica 3
Pratique. Sabemos que existem assuntos importantes dentro da nossa carreira médica que são difíceis de convertê-lo em algo mais prático do cotidiano, mas – para os assuntos em que isso é possível – aplique este conceito. Willian Glasser diz que aprendemos 80% quando fazemos algo! Se compararmos com os apenas 10% de quando lemos, fica ainda mais expressivo.
Dica 4
Também vimos nessa mesma pirâmide que discutir ou explicar um tema auxilia enormemente na obtenção de aprendizado. Assim, é de boa recomendação estabelecer grupos de discussões, ou de mini-aulas, com amigos dentro da Medicina.
Escolha sempre colegas com objetivos semelhantes ao seu. Se bem utilizado, pode ser uma poderosa ferramenta de estudo! Caso você realmente não goste de estudar com mais ninguém por perto, explicar um tema para um ursinho de pelúcia também pode ajudar.
Dica 5
Ah, antes de finalizar, não esqueça da sua vida fora da Medicina. Não somos máquinas e necessitamos que muitas variáveis estejam bem para aproveitarmos melhor nosso tempo de estudo.
Durma bem, coma bem, pratique exercícios e não deixe de sair com seus amigos!
Conclusão sobre as teorias de aprendizado
Enfim, o tema é bastante amplo e muita coisa ainda poderia ser dita! Contudo, para tornar as recomendações efetivamente práticas, elas não devem extrapolar uma quantidade ideal.
Não tente começar com todas as dicas ao mesmo tempo, caso você ainda não as faça. Vá aumentando progressivamente.
Torne este processo o mais natural possível, para que ele possa ser sustentado por um longo tempo e que traga os resultados desejados na sua rotina. Espero que possa ter tornado o seu dia um pouco melhor.
Autor: Enzo Crispino Calheiros.
Sugestão de leitura
Veja os textos sobre assuntos atuais das diversas especialidades feitos pelos Experts da Sanar:
- O que causa o aumento de casos de bronquiolite em crianças?
- Diagnóstico de nódulo de tireoide: quando suspeitar de câncer?
Referências
- AKRESH-GONZALES, Josette. What Is the Testing Effect, and How Does It Affect Learning, Knowledge, and Retention?. Knowledgeplus NEJM, 2015. Disponível em: < https://knowledgeplus.nejm.org/blog/what-is-the-testing-effect-and-how-does-it-affect-learning-knowledge-and-retention/>.
- BELLUCK, Pam. To Really Learn, Quit Studying and Take a Test. The New York Times, 2011. Disponível em: < https://www.nytimes.com/2011/01/21/science/21memory.html?_r=2&emc=eta1&>.
- CASSIMIRO, Wagner. A curva de esquecimento de Ebbinghaus. Espresso 3, 2018. Disponível em: < https://espresso3.com.br/a-curva-de-esquecimento-de-ebbinghaus/ >.
- DA SILVA, Janara. Pirâmide de Aprendizagem de William Glasser. Incape, 2019. Disponível em: < http://www.incape.net.br/a-piramide-de-aprendizagem-de-william-glasser/ >.
- GRANJEIRO, Gabriel. Desmontando a curva do esquecimento. Gran Concursos Online, 2017. Disponível em: < https://blog.grancursosonline.com.br/desmontando-curva-do-esquecimento/ >.
- KARPICKE, J. D., & BLUNT, J. R. Retrieval Practice Produces More Learning than Elaborative Studying with Concept Mapping. Science, 2011. n.331 v.6018 pg. 772–775. Disponível em: < https://www.science.org/doi/10.1126/science.1199327 >.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.