A cintilografia é um exame de imagem funcional utilizado em diversas especialidades, como cardiologia, nefrologia e oncologia, sendo útil na detecção precoce de alterações fisiológicas.
Saber quando solicitar uma cintilografia depende do contexto clínico e da finalidade diagnóstica, enquanto a interpretação exige conhecimento da fisiologia e da distribuição do radiofármaco.
Fundamentos da cintilografia
A cintilografia é um exame de imagem que utiliza uma pequena quantidade de material radioativo para observar tanto a estrutura quanto o funcionamento de órgãos e tecidos do corpo.
O material utilizado, chamado marcador radioativo, forma-se pela combinação de um radionuclídeo com uma substância que tem afinidade por determinada parte do corpo. O marcador é geralmente injetado na corrente sanguínea, mas também pode ser ingerido, inalado ou aplicado por outras vias, dependendo do tipo de exame.
O radionuclídeo emite radiação que é captada por equipamentos especiais, como a câmera gama, formando imagens que mostram onde e como o marcador distribui-se pelo corpo. A substância usada acumula-se em regiões específicas por processos naturais como, por exemplo, o iodo na tireoide ou o difosfato em áreas de reparo ósseo. Em outros casos, o acúmulo indica alterações, como inflamações ou sangramentos.
Em seguida, após a administração do marcador, pode haver um período de espera antes da realização das imagens, que pode variar de minutos a horas, dependendo do exame. Durante o procedimento, a pessoa deve permanecer imóvel e o exame costuma durar cerca de 15 minutos. Por fim, recomenda-se ingerir bastante líquido para ajudar a eliminar o material radioativo.
Principais tipos de cintilografia
Como já mencionado, a cintilografia utiliza substâncias radioativas para avaliar diferentes órgãos e sistemas do corpo. Portanto, existem diversos tipos de cintilografia, cada um voltado para a análise de estruturas e funções específicas.
Entre os principais estão a cintilografia da tireoide, cintilografia óssea, cintilografia miocárdica, cintilografia pulmonar e cintilografia renal.
Cintilografia da tireoide
A cintilografia da tireoide é um exame de imagem funcional utilizado para avaliar a atividade e possíveis doenças da glândula tireoide.
Esse procedimento baseia-se na administração de um traçador radioativo, geralmente isótopos de iodo (I-123 ou I-131) ou o 99m-tecnécio pertecnetato, que é absorvido pela tireoide de maneira semelhante ao iodo natural. A captação do traçador é então medida por meio de uma sonda, permitindo analisar a distribuição do material radioativo na glândula.
As principais indicações do exame incluem:
- Investigação de hipertireoidismo;
- Avaliação de nódulos tireoidianos;
- Avaliação de pacientes com suspeita de câncer ou metástase;
- Investigação de inflamações da tireoide;
- Avaliação de tratamentos com iodo radioativo;
- Detecção de anomalias congênitas da glândula.
Ademais, a cintilografia da tireoide permite identificar áreas com maior (nódulos “quentes”), menor (nódulos “frios”) ou atividade intermediária (“mornos”), o que auxilia no diagnóstico diferencial de diversas condições tireoidianas.
Cintilografia óssea
A cintilografia óssea, também chamada de cintilografia esquelética, é amplamente utilizada para investigar alterações no esqueleto, especialmente processos relacionados à atividade osteoblástica como, por exemplo, fraturas, metástases e infecções ósseas.
O método emprega, na maioria das vezes, o radiofármaco tecnécio-99m (Tc99m) ligado a compostos fosfonados, como metilenodifosfonato (MDP) ou hidroxidifosfonato (HDP), que têm alta afinidade pelos cristais de hidroxiapatita presentes no osso, permitindo sua fixação em áreas de remodelação óssea.
O Tc99m é o radionuclídeo mais usado por apresentar características ideais para a formação de imagens de qualidade, como meia-vida curta e boa resolução espacial. A distribuição do traçador é proporcional à atividade celular óssea, sendo intensificada em regiões com maior metabolismo ósseo.
As principais indicações da cintilografia óssea incluem:
- Detecção e acompanhamento de metástases ósseas;
- Investigação de lesões ocultas às radiografias;
- Avaliação de osteomielite;
- Avaliação de próteses suspeitas de infecção ou soltura;
- Estudo de lesões ósseas primárias.
Além disso, também pode ser útil em situações menos comuns, como necrose avascular, avaliação de enxertos ósseos e investigação de suspeitas de maus-tratos infantis.
Cintilografia miocárdica
A cintilografia de perfusão miocárdica é um exame de imagem não invasivo essencial na avaliação e manejo de doenças cardíacas, especialmente na doença arterial coronariana (DAC).
Sua principal função é analisar o fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco, tanto em repouso quanto durante o estresse, fornecendo dados valiosos para o diagnóstico, estratificação de risco e planejamento terapêutico.
Durante o procedimento, utiliza-se radiotraçadores, como o tálio-201 e compostos à base de tecnécio-99m (Tc-99m), que são injetados no paciente em momentos de repouso e/ou estresse físico ou farmacológico.
Ademais, o exame é indicado em diversas situações, incluindo:
- Avaliação de pacientes sintomáticos com suspeita de DAC;
- Estudo de pacientes assintomáticos, mas com alto risco cardiovascular;
- Investigação de taquicardia ventricular ou síncope com suspeita de origem isquêmica;
- Avaliação perioperatória de risco em cirurgias não cardíacas;
- Análise de viabilidade do miocárdio para indicar revascularização.
Além de diagnosticar DAC, a cintilografia permite prever o risco de eventos cardiovasculares futuros, especialmente quando há alterações na captação dos traçadores.
Cintilografia pulmonar
A cintilografia de ventilação/perfusão pulmonar (V/Q) é um exame de imagem nuclear composto por duas etapas que avaliam o fluxo de ar (ventilação) e o fluxo sanguíneo (perfusão) nos pulmões.
Ela é amplamente utilizada principalmente para investigar embolia pulmonar aguda. Pode, em contextos específicos, auxiliar na avaliação de DPOC, pneumonite e tromboembolismo crônico.
Durante o exame, realiza-se primeiro a cintilografia de perfusão, em que é injetado um material radioativo (geralmente albumina marcada) por via intravenosa para rastrear o fluxo sanguíneo pulmonar. Em seguida, na etapa de ventilação, o paciente inala um gás radioativo, permitindo a avaliação da distribuição do ar pelos pulmões. As imagens geradas são captadas por uma câmera gama, que detecta a radiação emitida e a transforma em imagens diagnósticas.
Em casos normais, o material radioativo distribui-se de maneira uniforme pelos pulmões. Entretanto, quando há alterações na captação, pode indicar problemas como coágulos, inflamações, obstruções das vias aéreas ou áreas com baixa ventilação/perfusão.
Cintilografia renal
A cintilografia renal nuclear é um exame de imagem funcional utilizado para observar o funcionamento e a estrutura dos rins.
Os radiotraçadores, após serem filtrados pelos rins, emitem radiação gama captada por câmeras especializadas, possibilitando uma análise detalhada da perfusão, função e, em certos casos, da anatomia renal.
Apesar da evolução das imagens obtidas por ultrassonografia, tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM), que hoje oferecem alta resolução anatômica, a cintilografia mantém papel essencial na avaliação funcional dos rins. Portanto, ela destaca-se principalmente em situações clínicas específicas, como:
- Hipertensão renovascular (especialmente com teste de captopril);
- Uropatias obstrutivas, diferenciando dilatações obstrutivas reais de achados não obstrutivos;
- Anomalias e infecções renais, como pielonefrite e cicatrizes renais (particularmente com DMSA em crianças);
- Massas e traumas renais ou ureterais;
- Monitoramento de transplante renal, permitindo detectar complicações precoces e avaliar o sucesso do enxerto.
Além disso, em pacientes que não podem usar contraste iodado (por alergia ou função renal prejudicada) ou que têm claustrofobia (incompatível com TC/RM), a cintilografia oferece uma alternativa segura e eficaz.
Quando solicitar uma cintilografia?
A cintilografia é solicitada principalmente quando há necessidade de investigar alterações funcionais antes mesmo de mudanças anatômicas serem visíveis em outros exames como raio-X, tomografia ou ressonância magnética.
Além disso, indica-se a cintilografia quando há necessidade de avaliar o funcionamento de órgãos específicos ou acompanhar a evolução de tratamentos.
Portanto, dependendo do órgão a ser avaliado, solicita-se a cintilografia em situações como:
- Tireoide: diagnóstico de nódulos tireoidianos, hipertireoidismo ou para controle após tratamento de câncer da tireoide.
- Óssea: investigação de metástases ósseas, fraturas ocultas, infecções ou inflamações nos ossos.
- Miocárdica: avaliação da perfusão cardíaca, especialmente em pacientes com suspeita de isquemia ou após infarto.
- Pulmonar: investigação de embolia pulmonar.
- Renal: avaliação do funcionamento dos rins, detecção de obstruções ou refluxo vesicoureteral.
Como interpretar uma cintilografia?
A interpretação de uma cintilografia envolve a análise da distribuição do radiofármaco no órgão ou sistema avaliado, com base nas imagens obtidas por uma câmera gama. O exame não mostra apenas a anatomia, mas principalmente a função do tecido estudado.
Portanto, o primeiro passo é verificar se a captação do radiofármaco está aumentada, reduzida ou ausente em determinadas áreas:
- Hipercaptação (área mais “quente”): indica aumento da atividade metabólica ou vascular, podendo sugerir inflamação, tumor, fratura, hipertireoidismo, entre outros.
- Hipocaptação ou área fria: aponta menor atividade, como ocorre em isquemias, necroses, obstruções ou certos tipos de câncer.
Além disso, a interpretação deve sempre considerar o tipo de cintilografia:
- Óssea: áreas de hipercaptação podem indicar metástases, fraturas ou artrite.
- Miocárdica: áreas com pouca captação podem sugerir isquemia ou infarto.
- Renal: alterações na captação e excreção ajudam a identificar obstruções, refluxos ou diferença funcional entre os rins.
- Tireoide: nódulos “quentes” (hipercaptantes) geralmente são benignos, enquanto “frios” (hipocaptantes) podem necessitar de investigação adicional.
Ademais, é essencial correlacionar os achados da cintilografia com os dados clínicos e outros exames do paciente.
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Referências
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