Aneurisma sacular: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
O aneurisma sacular é uma dilatação focal e anômala de uma artéria, frequentemente comparada a uma bolsa ou saco que se forma na parede vascular. Esta alteração estrutural resulta de uma fraqueza localizada na parede do vaso, que se expande em resposta à pressão sanguínea.
Este tipo específico de aneurisma ocorre predominantemente nas artérias cerebrais, sendo a causa mais comum de hemorragia subaracnoidea (HSA), uma condição potencialmente fatal. Com uma prevalência estimada de 1% a 6% da população, o aneurisma sacular frequentemente permanece assintomático até sua ruptura.
Fisiopatologia do aneurisma sacular
O aneurisma sacular surge devido a um enfraquecimento progressivo da parede arterial, que é composta por três camadas principais: íntima, média e adventícia. O processo de formação do aneurisma envolve a degradação e perda da camada média, especialmente das fibras elásticas e musculares lisas. Com a perda dessas estruturas de suporte, a parede arterial torna-se incapaz de resistir à pressão intraluminal, levando à dilatação localizada.
A formação de aneurismas saculares pode estar associada a fatores genéticos e adquiridos. Entre os fatores de risco mais relevantes, destacam-se a hipertensão arterial, tabagismo, dislipidemia e o envelhecimento. Assim, do ponto de vista genético, certas condições hereditárias, como a síndrome de Marfan e a doença renal policística autossômica dominante, também estão relacionadas a um risco aumentado de aneurismas saculares.
O aumento da pressão sanguínea, frequentemente exacerbado pela hipertensão, exerce uma força constante nas paredes arteriais, acelerando a formação do aneurisma. Além disso, as forças hemodinâmicas, principalmente em bifurcações arteriais, desempenham um papel crucial na gênese e evolução dos aneurismas saculares, uma vez que áreas de bifurcação estão sujeitas a maior estresse mecânico.
Manifestações clínicas
Os aneurismas saculares podem ser silenciosos por anos, sendo frequentemente descobertos incidentalmente durante exames de imagem realizados por outras razões.
No entanto, quando sintomáticos, os sinais e sintomas podem variar de acordo com o tamanho, localização e se o aneurisma está intacto ou roto.
Aneurismas intactos
A maioria dos aneurismas saculares intactos não provoca sintomas. Entretanto, quando os aneurismas atingem tamanhos maiores ou estão localizados em áreas críticas, podem comprimir estruturas adjacentes, resultando em manifestações neurológicas.
Assim, cefaleia, diplopia, ptose e alterações visuais, em casos de compressão do nervo oculomotor, são exemplos de sintomas compressivos. Raramente, grandes aneurismas podem provocar déficits motores ou sensitivos, devido à compressão de nervos ou estruturas cerebrais.
Aneurismas rotos
A principal manifestação clínica de um aneurisma sacular roto é a hemorragia subaracnoidea (HSA), uma emergência médica grave. Dessa forma, a HSA caracteriza-se por uma cefaleia súbita e intensa, frequentemente descrita pelos pacientes como “a pior dor de cabeça da vida”. Além disso, outros sintomas incluem rigidez de nuca, náuseas, vômitos, fotofobia e perda de consciência. A HSA pode levar a complicações graves, como vasoespasmo cerebral, hidrocefalia e, em última instância, morte.
A taxa de mortalidade relacionada à ruptura de aneurismas saculares é alta, estimando-se que cerca de 50% dos pacientes não sobrevivam ao primeiro mês após o evento. Dos sobreviventes, uma proporção significativa pode apresentar déficits neurológicos permanentes.
Diagnóstico do aneurisma sacular
O diagnóstico de um aneurisma sacular envolve uma combinação de avaliação clínica, exames de imagem e, em casos específicos, estudos angiográficos. A detecção precoce, especialmente em indivíduos assintomáticos com fatores de risco conhecidos, é crucial para a prevenção de complicações graves.
Exames de imagem
A tomografia computadorizada (TC) de crânio sem contraste é geralmente o primeiro exame solicitado em pacientes com suspeita de ruptura de aneurisma. Assim, em casos de HSA, a TC revela a presença de sangue no espaço subaracnoideo em mais de 90% dos casos nas primeiras 24 horas após a ruptura.

Para confirmação e avaliação detalhada do aneurisma, a angiografia por tomografia computadorizada (angio-TC) ou a angiografia por ressonância magnética (angio-RM) são exames de escolha. Ambos fornecem imagens detalhadas da anatomia vascular cerebral, permitindo a identificação do aneurisma, bem como de sua localização, tamanho e relação com as estruturas adjacentes.
Angiografia cerebral
A angiografia cerebral digital é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico de aneurismas saculares, especialmente em situações de planejamento pré-operatório.
Este exame oferece uma visão tridimensional precisa das artérias cerebrais, permitindo a avaliação minuciosa do aneurisma, incluindo sua forma, pescoço e relação com as bifurcações arteriais.
Tratamento do aneurisma sacular
O tratamento do aneurisma sacular depende de uma série de fatores, incluindo o tamanho do aneurisma, sua localização, a presença ou ausência de sintomas, bem como a condição clínica do paciente. O objetivo principal é prevenir a ruptura do aneurisma ou tratar suas complicações, caso já tenha ocorrido a ruptura.
Abordagem de aneurismas intactos
Para aneurismas intactos, pequenos e sem sintomas, o manejo conservador pode ser uma opção viável, especialmente em pacientes com comorbidades que aumentam o risco cirúrgico. Dessa forma, o controle rigoroso da pressão arterial, cessação do tabagismo e vigilância com exames de imagem periódicos são medidas recomendadas.
Por outro lado, aneurismas maiores, ou localizados em áreas com maior risco de ruptura, podem necessitar de intervenção cirúrgica. As principais modalidades de tratamento são a clipagem cirúrgica e o embolismo endovascular.
Clipagem cirúrgica
A clipagem cirúrgica consiste na colocação de um clipe metálico na base do aneurisma, interrompendo o fluxo sanguíneo para a dilatação e, assim, prevenindo sua ruptura. Este procedimento é realizado por meio de craniotomia, o que o torna um procedimento mais invasivo.
A clipagem é frequentemente indicada para aneurismas com um pescoço largo, que são de difícil acesso por via endovascular.
Embolização endovascular
A embolização endovascular é um procedimento minimamente invasivo, em que um microcateter é inserido por meio da artéria femoral até o local do aneurisma. Assim, através deste cateter, espirais metálicas (coils) ou stents são posicionados no interior do aneurisma, provocando a trombose da dilatação e evitando sua ruptura.
A embolização tem se tornado o tratamento preferencial para muitos aneurismas devido ao seu menor tempo de recuperação e à menor morbidade associada.

Aneurismas rotos
O manejo dos aneurismas rotos é uma emergência médica. Dessa forma, após o diagnóstico de HSA, deve-se estabilizar o paciente transferi-lo para um centro especializado em neurocirurgia. A prioridade no tratamento é a oclusão rápida do aneurisma para evitar novas hemorragias.
Assim, além das modalidades de tratamento cirúrgico (clipagem ou embolização), deve-se monitorizar os pacientes com HSA em unidade de terapia intensiva, devido ao risco elevado de complicações, como vasoespasmo cerebral, hidrocefalia e hipertensão intracraniana. O manejo clínico das complicações inclui o uso de nimodipina para prevenir o vasoespasmo e drenagem ventricular em casos de hidrocefalia.
Prognóstico
O prognóstico dos pacientes com aneurismas saculares depende, em grande parte, de sua apresentação clínica. Pacientes com aneurismas intactos tratados precocemente têm excelente prognóstico, com baixas taxas de recorrência e complicações. No entanto, aqueles que sofrem ruptura têm um prognóstico reservado, com altas taxas de mortalidade e morbidade, mesmo com intervenção cirúrgica imediata.
A detecção precoce e o manejo adequado dos fatores de risco, como hipertensão e tabagismo, são fundamentais na prevenção de aneurismas e suas complicações.
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Referência bibliográfica
- BRISMAR, T.; ARNER, B.; SVENSSON, H. Saccular aneurysms: diagnosis and treatment. Journal of Neuroradiology, v. 6, n. 2, p. 109-115, 2020.
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