O estômago é a parte do sistema digestório responsável pela digestão enzimática dos alimentos, que é transformado em uma mistura semilíquida (quilo), o qual em seguida é transportado para o duodeno, a porção inicial do intestino delgado.
Estômago
Posição anatômica
A posição, o tamanho e o formato do estômago podem variar entre um indivíduo e outro, podendo variar ainda conforme o tipo de decúbito, respiração e alimentação. Em biotipos médio, o órgão geralmente ocupa a região do abdome superior, podendo ocupar áreas hipocondríaca esquerda, epigástrica e umbilical e está situado logo abaixo do diafragma.
Na Figura 1 é possível observar as variações anatômicas do estômago, de acordo com o biotipo do indivíduo. A imagem A demonstra a posição mais comum do órgão, em decúbito dorsal ou ventral. A imagem B mostra um biotipo hiperestênico, que é uma constituição com tórax curto e abdome longo, o estomago tende a ser mais alto e transversal, enquanto indivíduos mais astênicos e magros tendem a tê-lo mais baixo e vertical.
Figura 1: Efeito do biotipo sobre a disposição do estomago

Anatomia de superfície
O estômago é dividido em sua superfície externa por linhas, delimitando-o em 4 regiões: fundo, corpo, antro pilórico e piloro (canal pilórico)
Imagem 2: Partes do estômago

O fundo gástrico situa-se superiormente a um plano horizontal que tangencia a junção gastroesofágica e possui a forma de cúpula, a qual pode ser dilatada por gás, líquido ou alimentos. A incisura cárdica está situada entre o esôfago e o fundo gástrico. A cárdia corresponde à junção com o esôfago, que é onde se encontra a abertura do esôfago no estômago (óstio cárdico). Ela está tipicamente situada à esquerda da linha mediana, posterior à sétima cartilagem costal, no nível da décima primeira vértebra torácica.
O corpo gástrico corresponde à maior parte do órgão e está situado entre o fundo e o antro, sendo delimitado pela incisura angular, localizada na extremidade inferior da curvatura menor.
A parte pilórica é composta pelo antro, canal pilórico e piloro. O antro pilórico é a parte final do estômago e a mais dilatada dessa região. O antro leva ao canal pilórico, que é a parte mais estreita e finalmente ao piloro, que corresponde à transição entre estômago e duodeno. O piloro é uma região esfincteriana, composto por um espessamento acentuado da camada circular de músculo liso que controla a saída do conteúdo gástrico através do óstio pilórico para o duodeno. Normalmente, o piloro encontra-se em estado de contração, exceto quando dá passagem ao quimo. Após a alimentação, a peristalse gástrica faz o quimo atravessar o canal e o óstio pilórico até o intestino delgado, onde a digestão é continuada.
Ainda, o estômago possui 2 curvaturas. A curvatura menor, também conhecida por canal gástrico, é a via preferencial dos líquidos. Ela forma a margem direita côncava, mais curta, onde está inserido o omento menor, e contém os vasos gástricos direito e esquerdo. Entre a parte vertical e horizontal dessa curvatura existe um sulco, a incisura angular, que corresponde ao limite do antro pilórico.
A curvatura maior, por sua vez, forma a margem convexa mais longa do estômago. É essa diferença nos comprimentos das curvaturas que faz com que o estômago possua o formato semelhante a letra J.
Aspectos internos
A arquitetura da parede do estômago possui vários estratos: túnica serosa, túnica muscular, tela submucosa e túnica mucosa. A túnica serosa é formada pelo peritônio, que reverse a maior parte do órgão (exceto pelas áreas nuas).
A túnica muscular possui dois ou três estratos diferentes, dependendo da porção do estômago considerada, sendo eles: longitudinal, circular e fibras oblíquas.
Imagem 3: Túnicas do estômago

A tela submucosa é constituída de tecido conjuntivo frouxo e contém uma rica rede vascular e um plexo nervoso (plexo submucoso). A túnica mucosa apresenta pregas gástricas, de direção predominantemente longitudinal e que desaparecem com a distensão do órgão. Além disso, essa túnica abriga as glândulas gástricas: ao nível da cárdia (glândulas cárdicas), do fundo e do corpo (glândulas gástricas proximais) e da parte pilórica (glândulas pilóricas).
Relações anatômicas
O estômago é coberto por peritônio, exceto nos locais em que há vasos sanguíneos ao longo de suas curvaturas e em uma pequena área posterior ao óstio cárdico, que são as chamadas áreas nuas.
Anteriormente, o estômago relaciona-se com o diafragma, o lobo hepático esquerdo e a parede anterior do abdome. Posteriormente, o estômago relaciona-se com a bolsa omental e o pâncreas; a face posterior do estômago forma a maior parte da parede anterior da bolsa omental. O colo transverso tem relação inferior e lateral com o estômago e segue ao longo da curvatura maior do estômago até a flexura esquerda do colo.
O leito do estômago, região na qual o órgão se apoia em decúbito dorsal, é formado pela cúpula esquerda do diafragma, baço, rim e glândula suprarrenal esquerdos, artéria esplênica, pâncreas e mesocolo transverso.
Imagem 3: Relações do estômago

Vascularização
A irrigação do estômago se dá a partir do tronco celíaco, que se ramifica até chegar nos 5 pedículos: artéria gástrica esquerda e direita, artéria gastromental esquerda e direita e artérias gástricas curtas.
A artéria gástrica esquerda se origina diretamente do tronco celíaco, alcança o estômago ao nível da cárdia e acompanha a curvatura menor do órgão para anastomosar-se com a artéria gástrica direita. Nesse trajeto, origina vários ramos para as faces anterior e posterior do estômago.
A artéria gástrica direita é um ramo da artéria hepática comum (que é originada no tronco celíaco), ou a partir das artérias hepática própria, hepática esquerda, gastroduodenal ou supraduodenal. Ela se origina inferiormente e corre em direção à curvatura menor do estômago, se anastomosando com a artéria gástrica esquerda.
A artéria gastromental direita é ramo terminal da artéria gastroduodenal e acompanha a curvatura maior do estômago, anastomosando-se com a artéria gastromental esquerda. A artéria gastromental esquerda origina-se a partir da artéria esplênica (um dos ramos do tronco celíaco) e também segue a curvatura maior. Ambas artérias fornecem ramos para as faces anterior e posterior do órgão.
As artérias gástricas curtas originam-se a partir da artéria esplênica, irrigam a face posterior do fundo do estômago e são pouco calibrosas.
O estômago é um órgão riquíssimo em anastomoses, o que garante um rico suprimento arterial, o qual é essencial para seu funcionamento. Além disso, as anastomoses garantem que o fluxo sanguíneo seja mantido mesmo que um ou mais vasos se tornem ocluídos, de forma que o estômago possui considerável resistência à isquemia.
Imagem 4: vascularização do estômago

Inervação
O estômago é inervado por fibras simpáticas e parassimpáticas.
A inervação simpática é proveniente dos segmentos T5 a T10 da medula espinal, segue para o plexo celíaco por intermédio no nervo esplâncnico maior e é distribuído pelos plexos periarteriais. Os nervos gástricos simpáticos são vasoconstritores para a vascularização gástrica e inibitórios para a musculatura gástrica. O suprimento simpático para o piloro é motor e causa a constrição pilórica.
A inervação parassimpática advém dos troncos vagais anterior e posterior. O tronco vagal anterior deriva do nervo vago esquerdo e corre na parede anterior do estômago, próximo a curvatura menor. O tronco esquerdo, por sua vez, também corre junto à curvatura menor, suprindo a parede posterior do estômago e o intestino (através do ramo celíaco). As fibras parassimpáticas estimulam a atividade peristáltica do estômago e ativa a secreção de hormônios, responsáveis por aumentar a secreção de ácidos pelas glândulas gástricas.
Duodeno
O duodeno é a primeira parte do intestino delgado, que é composto por duodeno, jejuno e íleo. O duodeno tem comprimento médio de 26 cm e estende-se do piloro até a flexura duodenojejunal.
Anatomia de superfície e relações anatômicas
O duodeno é dividido em quatro partes: superior, descendente, horizontal e ascendente.
A parte superior, ou primeira parte, é móvel e peritonizada, apresentando 5 cm de comprimento. Ela inicia-se como uma continuação do piloro e termina na flexura superior do duodeno, onde curva-se para formar a parte descendente. Ela se encontra anteriormente à artéria gastroduodenal, ao ducto colédoco e à veia porta, anterossuperior à cabeça e ao colo do pâncreas e posterior ao colo da vesícula biliar.
A parte descendente, ou segunda parte, tem 8 – 10 cm, se inicia na flexura duodenal superior e termina na flexura duodenal inferior. Os ductos colédoco e pancreático principal entram em sua parede posteromedial. Esses ductos geralmente se unem para formar a ampola hepatopancreática, que se abre em uma eminência, chamada papila maior do duodeno. O ducto pancreático acessório, quando existe, desemboca na papila duodenal menor, situada superiormente à papila duodenal maior. Fígado, vesícula biliar, colo transverso e alças intestinais localizam-se anteriormente a 2º parte do duodeno.
A parte horizontal, ou terceira parte, começa na flexura duodenal inferior, e tem aproximadamente 10 cm de comprimento. Ela cruza anteriormente a veia cava inferior, a artéria aorta e os músculos psoas maiores, enquanto os vasos mesentéricos superiores cruzam anteriormente essa parte do duodeno.
A parte ascendente, ou quarta parte, tem 2,5 cm de comprimento, começa logo à esquerda da aorta e termina continuamente ao jejuno. A aorta, o tronco simpático esquerdo, o músculo psoas maior esquerdo, os vasos renais esquerdos e gonadais esquerdos são relações posteriores; o rim esquerdo e o ureter esquerdo estão em posição posterolateral, e a parte superior da raiz do mesentério do intestino delgado, o mesocólon transverso lateral esquerdo e o cólon transverso, o qual o separa do estômago, são anteriores.
Imagem 5: Partes do duodeno

Vascularização
As principais artérias que suprem o duodeno são as artérias pancreaticoduodenais e a artéria gastroduodenal.
A artéria gastroduodenal se origina a partir da artéria hepática comum posterior. Na margem inferior da primeira parte do duodeno, ela se divide nas artérias gastro-omental direita e pancreaticoduodenal superior. Antes de sua divisão, a parte inferior da artéria dá origem a pequenos ramos que suprem a extremidade pilórica do estômago e o pâncreas, e a ramos retroduodenais que suprem a primeira parte e a porção proximal da segunda parte do duodeno diretamente.
As outras regiões do duodeno são irrigadas pelas artérias pancreáticoduodenais inferior, anterior e posterior, que se anastomosam formando as arcadas pancreaticoduodenais (anterior e posterior).
Imagem 6: vascularização do duodeno

Inervação
O duodeno é inervado por fibras simpáticas e parassimpáticas.
O suprimento simpático advém de fibras originadas de T5 a T12 da medula espinal, seguem através dos nervos esplâncnicos maior e menor até o plexo celíaco, acompanhando as artérias até alcançar o intestino delgado. Os nervos simpáticos são vasoconstritores para a vascularização duodenal e inibitórios para a musculatura duodenal.
O nervo vago responde pela inervação parassimpática, alcançando o intestino através de seu ramo celíaco. O suprimento parassimpático é secretomotor para a mucosa duodenal e motor para a musculatura duodenal.
Autor: Letícia Marsari
Instagram: @leticiamarsari
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências bibliográficas
DANGELO, J. G.; FATTINI, C. C. Anatomia sistêmica e segmentar. 3.ed. São Paulo: Atheneu, 2007
STANDRING, S. (Ed.). Gray’s anatomia: a base anatômica da prática clínica. 40. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010
Moore, Keith L.; DALLEY, Arthur F. Anatomia orientada para a clínica. 6 ed. Rio De Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A., 2011
SOBOTTA, Johannes. Atlas de Anatomia Humana. 21ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000