O divertículo de Meckel ou divertículo
ileal é uma pequena protuberância de 3 a 6cm de comprimento, que surge a partir
da borda antimesentérica do íleo, aproximadamente 40 a 60cm a partir da junção ileocecal.
Trata-se da mais importante malformação congênita relacionada ao sistema
gastrintestinal e é bastante frequente, ocorrendo em cerca de 2 a 4% das
pessoas, sendo três a cinco vezes mais prevalente em homens do que em mulheres.
Essa anomalia ocorre quando há a
persistência de uma pequena porção do ducto vitelino, que conecta o intestino
fetal ao cordão umbilical, sendo que o divertículo é o próprio remanescente da
porção proximal do ducto onfaloentérico. Ele é considerado um divertículo
verdadeiro, visto que é constituído por todas as camadas da parede intestinal,
além de poder conter pequenos fragmentos dos tecidos gástrico e pancreático,
uma vez que as células do ducto vitelino são pluripotentes.
Além disso, pode apresentar algumas
variações, tais como quando a ligação ao umbigo é feita por um cordão fibroso
ou por uma fístula onfaloentérica; ou quando ambas as extremidades do ducto
vitelino se transformam em cordões fibrosos e a porção média forma um grande
cisto – enterocistoma ou cisto vitelino.

Sintomas e diagnóstico
Apesar de ser muitas vezes
assintomático, o divertículo ileal apresenta significância clínica por poder desencadear
complicações graves. Essas complicações podem ser inflamação, úlcera péptica,
perfuração e hemorragias, na maioria das vezes, causadas pelos ácidos
secretados pela mucosa gástrica ectópica presente no divertículo. Com isso,
percebe-se que os sintomas provocados muito se assemelham com os sintomas de
várias outras patologias intra-abdominais, como os da doença inflamatória
intestinal e da apendicite, o que dificulta o diagnóstico diferencial.
Assim, uma vez que, em situações
normais, o divertículo de Meckel não provoca sintomas, seu diagnóstico
pré-operatório normalmente ocorre de forma acidental em exames de imagem ou
durante a realização de uma laparotomia justificada por outras razões, como por
alterações provocadas pela presença de uma neoplasia.
O que Tancredo Neves tem a ver com isso?
Bom, foi exatamente essa familiaridade
de sintomas que deu início à sucessão de eventos que resultou na morte de
Tancredo Neves, logo quando iria tomar posse como Presidente da República do
Brasil, após o fim da Ditadura Militar. O filme “O paciente – o caso Tancredo
Neves” (2018), dirigido por Sergio Rezende, retrata tais eventos e dá enfoque
para a atuação médica no caso, a qual foi permeada por confusão diagnóstica e
propedêutica, além de confusão organizacional entre a própria equipe médica.
Inicialmente, foi feito o diagnóstico
de apendicite aguda e constatou-se a necessidade de se realizar uma cirurgia de
emergência, que aconteceu na noite anterior à data da posse presidencial –
motivo pelo qual o presidente empossado nessa ocasião foi José Sarney. Durante
a realização dessa cirurgia, o cirurgião responsável identificou a presença de
um divertículo de Meckel, o que fez com que as condutas e procedimentos
adotados não fossem os mais adequados para o caso.
Isso porque, após ser feita a análise
histopatológica do material retirado, contatou-se que, na realidade, tratava-se
de um leiomioma de intestino delgado, isto é, um tumor benigno. Assim, como
mencionado anteriormente, foi essa neoplasia que deu causa aos sintomas sinais
e sintomas demonstrados pelo paciente, sendo facilmente confundida com uma
apendicite aguda, em razão da similaridade dos sintomas nesses casos.
Biografia do paciente
No entanto, no caso em questão o
importante não foi apenas a dificuldade de se fazer um diagnóstico diferencial,
mas também a provável apreensão que os médicos do presidente deveriam estar com
relação ao impasse entre adotar as medidas mais adequadas para o tratamento do
paciente versus quem é esse paciente.
Uma vez que se tratava do Presidente da República prestes a tomar posse e,
assim, prestes a retomar a democracia no país, é possível imaginar a apreensão
que os médicos encarregados de seu caso estavam ao constatar que o caso clínico
era grave em um momento político extremamente delicado. Em razão disso, o filme
ilustra erros sucessivos na condução do caso, desde seu diagnóstico até o
tratamento, resultando na morte do paciente pouco mais de um mês após o início
do desenvolvimento dos sintomas.
Além disso, o filme traz à tona a
tentativa de alteração de laudos médicos para amenizar a notícia ao ser repassada
à população brasileira, motivo pelo qual os médicos e a família do presidente
anunciaram publicamente que o paciente possuía um divertículo de Meckel e não
um leiomioma. Isso porque, mesmo por se tratar de um tumor benigno, tais termos
poderiam causar pavor e desespero nos cidadãos afoitos pela redemocratização,
haja vista o período ditatorial pelo qual passou o país.
No entanto, o questionamento que surge
é: seria esse realmente o interesse dos médicos responsáveis ou eles não
quiseram assumir o erro diagnóstico inicial? Desse modo, mais uma vez, surge
aquele impasse entre a atuação médica focada exclusivamente no bem do paciente
x consideração sobre a biografia dessa pessoa.
De fato, saber a biografia do paciente é essencial para uma boa atuação médica, pois o profissional deve tratar uma pessoa, não somente sua doença, e é na biografia do paciente que se encontra o que o caracteriza como pessoa. No entanto, no filme de Sergio Rezende, fica claro que essa ponderação de valores, por vezes necessária, talvez tenha falado tão alto que acabou “cegando” alguns médicos com relação aos procedimentos corretos em face da figura política e do que ela representava para o país, ficando o alerta para os atuais e futuros profissionais médicos brasileiros.
Autora: Virgínia Costa Marques